
O canto solene dos Guarani
19 Janeiro 2008O etnólogo alemão Curt Unkel (1883-1945), conhecido por Nimuendaju, recolheu um mito dos índios do Brasil Guarani Apopocuva:
«Quando Nhanderuvuçu (Nosso-Grande-Pai) resolveu acabar com a terra, devido à maldade dos homens, avisou antecipadamente Guiraypoty, o grande pajé, e mandou que dançasse. Esse obedeceu-lhe, passando toda a noite em danças rituais. E quando Guiraypoty terminou de dançar, Nhanderuvuçu retirou um dos esteios que sustentam a terra, provocando um incêndio devastador.
Guiraypoty, para fugir do perigo, partiu com sua família para o Oriente, em direção ao mar. Tão rápida foi a fuga, que não teve tempo de plantar nem de colher mandioca. Todos teriam morrido de fome, se não fosse o seu grande poder que fez com que o alimento surgisse durante a viagem. Quando alcançaram o litoral, seu primeiro cuidado foi construir uma casa de tábuas, para que quando viessem as águas, ela pudesse resistir. Terminada a construção, retomaram a dança e o canto.
O perigo tornava-se cada vez mais iminente, pois o mar, como que para apagar o grande incêndio, ia engolindo toda a terra. Quanto mais subiam as águas, mais Guiraypoty e sua família dançavam.
E para não serem tragados pela água, subiram no telhado de casa. Guiraypoty chorou, pois teve medo. Mas sua mulher lhe falou:
“Se tens medo, meu pai, abre teus braços para que os pássaros que estão passando possam pousar. Se sentarem no teu corpo, pede para nos levar para o alto.”
E, mesmo em cima da casa, a mulher continuou batendo a taquara ritmadamente contra o esteio da casa, enquanto as águas subiam.
Guiraypoty entoou então o nheengaraím, o canto solene Guarani. Quando iam ser tragados pela água, a casa se moveu, girou, flutuou, subiu… subiu até chegarem à porta do céu, onde ficaram morando. Esse lugar para onde foram chama-se YvY marã ei (“Terra sem males”)».
A Terra-sem-males era uma dádiva a ser encontrada, a Oriente, além do oceano e no alto.