h1

«O que as crianças dizem»

27 Maio 2008

«A criança não pára de dizer aquilo que faz ou que tenta fazer…» (CC).

«If the protests of children were heard in kindergarten, if their questions were attended to, it would be enough to explode the entire educational system» (4/3/1972).

- G. DELEUZE

Enviaram-me um e-mail trivialmente repassado entre os cibernautas, sobretudo, se estes forem professores, com um propósito trocista: uma lista de respostas de crianças a exames.

Era bom que entendêssemos que quando Sócrates, na «Apologia», diz que vai dizer «o que lhe vier à cabeça», mesmo num assunto tão crucial como defender-se das acusações que lhe darão a morte, ele está a tomar o partido das crianças, porque quem fala de improviso não tem como não dizer a verdade, uma verdade que certamente não corresponde à verosimilhança que o mundo espera. É também o que Lars von Trier pretende quando afirma que não aproveita nada a partir da segunda vez que os actores gravam uma cena porque eles «começam a representar».

Ora, eu ficaria satisfeitíssima se os meus alunos dessem respostas destas! (São tão boas que eu até desconfio se não terá sido um copywriter matreiro a fazê-las, em vez de terem saído da boca de alunos). Quanta acuidade e concisão numa só frase. É que nenhuma delas está errada… a menos que o ponto de vista seja deveras estreito. E nem sequer é preciso recorrer à metáfora, elas fazem sentido literalmente! Não trocem das crianças, ouçam o que elas fazem. Ela oferecem-nos a perspectiva extraordinária dos fluxos, quase sem mediação pela consciência, e a possibilidade de olhar o mundo com outros olhos e um sorriso nos lábios.

- «Galileu (1564-1642) foi condenado à morte porque foi o primeiro a fazer a terra andar à volta.

- Um braço de mar é um pedaço de mar em forma de braço.

- O exemplo do Titanic serve para demonstrar a agressividade dos icebergs.

- A França tem 60 milhões de habitantes entre os quais muitos animais.

- Na guerra de 1914 a 1918, os soldados morriam várias vezes, primeiro por causa das bombas, e depois porque lhes davam lama para comer.

- Os rios correm sempre no sentido da água.

- O zero é o único número que permite contar até 1 [Esta é excelente!!]

- Uma linha recta torna-se curva quando vira [E esta também!]

- Uma raiz quadrada é uma raiz com 4 ângulos iguais.

- Os chineses utilizam as suas bolas para fazer contas.

- O álcool permite tornar a água potável.

- A primeira guerra mundial fez uma dezena de mortos mas só do lado alemão.

- Se não se estragassem, as máquinas não seriam humanas. [Nem mais!]

- No cinema mudo, os actores falavam com palavras que escreviam por baixo dos filmes.

- O cinema era uma energia ainda desconhecida no século XIX.

- Uma língua morta é uma língua que só é falada pelos mortos. [Uau! Houve alguém que reparou…]

- Victor Hugo escrevia livros para os pobres miseráveis.

- Em todos os quadros pintados vê-se bem que Napoleão escondia a sua grande barriga com a mão.

- Uma biblioteca é como um cemitério para os livros velhos. [Sem dúvida!]

- Nero servia-se dos cristãos para fazer lâmpadas, ateando-lhes fogo. [Grande verdade… e actual]

- A leitura permite ao homem tornar-se míope…

- A leitura é feita para aqueles que não gostam de escrever. [Essa é que é essa!]»

 

E, captada por mim «in loco», e com pelo menos duas ocorrências em contextos diferentes, acrescento ainda uma frase (a fazer lembrar os «cadáveres que procriam» de Pessoa):

- «Uma caveira é tão sexy».

One comment

  1. Na “Nave Perdida” há um planeta governado por crianças porque se considera que os adultos têm pontos de vista formatados e perderam as suas capacidades genuínas. Às vezes fantasio como seria o mundo se este fosse governado por crianças. Fariam realmente pior do que se faz hoje em dia?…



Deixe um comentário