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«Self-made man»

27 Maio 2008

Para um Mestre algo “anglo-saxónico”
e para quem se interessar por temas musicais

Na Defesa de Mestrado de um amigo, debateu-se o papel do Juízo de Kant na arte, embora com alguma superficialidade por parte do Júri, tal como este admitiu. Sendo a tese em questão sobre Deleuze e o Orientador da mesma um especialista deleuziano, estranhei o facto de não devolver oportunamente o ponto de vista daquele sobre o juízo estético de Kant. Falta de tempo, talvez?

Tentarei colmatar por alto essa lacuna, com citações do próprio (pareceu-me haverem confundido o juízo kantiano com «reflexão» sobre uma peça artística, e sem integrar a estética com a ética num processo que as engloba a ambas):

- «”Chegar ao desconhecido pelo desregramento de todos os sentidos, … um longo, imenso e reflectido desregramento de todos os sentidos” – Rimbaud. (…) Esta seria a quarta fórmula de um Kant profundamente romântico, na “Crítica do Juízo”. (…) É preciso que, todas juntas, elas [as faculdades do entendimento, da razão e da imaginação] sejam capazes de relações livres e sem regra, onde cada uma vá ao fundo dela mesma, e, no entanto, mostre a sua possibilidade de uma harmonia qualquer com as outras. Isto será a “Crítica do Juízo” como fundação do romantismo. Não se trata já da estética da “Crítica da Razão Pura”, que considerava o sensível como qualidade atribuível a um objecto no espaço e no tempo; não se trata de uma lógica do sensível, nem mesmo de um novo logos que seria o tempo. Trata-se de uma estética do Belo e do Sublime, onde o sensível vale por si mesmo e se manifesta num pathos para além de toda a lógica (…). É agora a unidade indeterminada de todas as faculdades (Alma) que nos faz entrar no desconhecido. (…) A emancipação da dissonância, o acorde discordante, é a grande descoberta da “Crítica do Juízo”, a última inversão kantiana. (…) Ele descobre no fim a discordância que faz acordo. Um exercício desregrado de todas as faculdades, que vai definir a filosofia futura (…). Uma música nova como discordância, e, como acordo discordante, a fonte do tempo» – CC, p. 51.

- «Um acordo igualmente livre e indeterminado entre faculdades (…) define um senso comum propriamente estético (o gosto). (…) Não se fazendo sob um conceito determinado, o livre jogo da imaginação e do entendimento não pode ser intelectualmente conhecido, mas apenas sentido.» – FCK, p.56.

- «A alma é sentida como a unidade supra-sensível indeterminada de todas as faculdades; somos nós próprios referidos a um foco, como a um “ponto de concentração” no supra-sensível» – FCK, p58.

«As Ideias da razão são especulativamente indeterminadas, praticamente determinadas. Tal é já o princípio da diferença entre o Sublime matemático do imenso e o Sublime dinâmico da potência (um põe em jogo a razão do ponto de vista da faculdade de conhecer, o outro, do ponto de vista da faculdade de desejar). De sorte que, no sublime dinâmico, a destinação supra-sensível das nossas faculdades aparece como o pré-destino de um ser moral. O sentido do sublime é engendrado em nós de tal maneira que ele prepara uma mais alta finalidade e nos prepara a nós próprios para o advento da lei moral.» – idem.

«À estética formal do gosto, Kant junta assim uma meta-estética material» – FCK, p64.

«A finalidade já não tem um princípio teológico, mas, isso sim, a teologia um fundamento “final” humano. Donde a importância das duas teses da “Crítica do Juízo”: o acordo final das faculdades é objecto de uma génese [que Deleuze designa atrás como «transcendental»]; a relação final da Natureza e do homem é o resultado de uma actividade prática propriamente humana.» – FCK, p. 74.

«Ora, é claro que nenhum ser organizado pode constituir um tal fim: nem sequer, ou sobretudo, o homem enquanto espécie animal» – FCK, p. 76.

«À pergunta “o que é o objectivo final?” devemos responder: o homem, mas o homem como númeno e existência supra-sensível, o homem como ser moral. (…) O objectivo final é, pois, determinável e determinado praticamente. (…) Determinamos o homem como objectivo final, e objectivo final para o conjunto da criação divina.» – FCK, p. 77-78.

  

Depois há o glorioso sub-capítulo final (duas páginas A5) que dá pistas de como isto se realiza na vida de todos os dias, mas acho que esse texto cada um deve ler por si e para si.

Badiou, algures, alude à monotonia da obra de Deleuze. Nem sequer é uma crítica pejorativa. É que mono-tonia e uni-vocidade são palavras quase sinónimas e a ontologia de Deleuze, tal como a de Nietzsche, desenvolve-se num plano intensamente acromático e acroamático e, só a partir deste, é que concebe um carnaval como obra de arte.

One comment

  1. «A emancipação da dissonância, o acorde discordante, é a grande descoberta da “Crítica do Juízo”, a última inversão kantiana. (…) Ele descobre no fim a discordância que faz acordo. »

    É engraçado como no culminar do Renascimento, com a aparição da Ars Subtilior se deu o florescimento da Dissonância e a quebra de todas as regras vigentes. Gesualdo e outros foram pródigos nisso fazendo músicas com sons e métricas completamente anacrónicas e desafiantes para a época. Não sei porquê a Ars subtilior desapareceu, houve uma espécie de “idade das trevas” musical, e uma evolução a partir de um “outro ramo”. O ramo de bach, que iria dar o barroco, classissismo, romantismo, etc. A ars subtilior só torna a encontrar a sua meada em Schönberg e na harmonia do séc. XX.

    Kant no meio. Muito antes de Scönberg e muito depois da Ars subtilior. O que isto nos diz? Que a dissonância sempre esteve presente, apenas não era aplicada. Haveria medo? Foi “descoberta” três vezes? Só faz sentido nalguns períodos temporais? Seria interessante perceber melhor isso, até por uma coisa: Ela está a desaparecer de novo. Cada vez mais são as vozes que insurgem contra os contemporâneos, e cada vez mais se faz música “que soa bem” outra vez. A dissonância está em declínio.



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