
«Embriagados de Amor»
4 Junho 2008Não digo como o padre a dar um sermão: não bebas, não fumes, não te drogues, porque faz mal.
Digo como a bacante: põe-te tão sóbrio tão sóbrio tão sóbrio que o simples desejo de experimentar e viver te embriaga!
Não mais uma ebriedade dependente de coisas inanimadas – a bebida, o tabaco, a droga -, mas uma outra embriaguez mais intensa e libertina em que a vida é vinho, incenso e sabor.
Celebremos os embriagadores e embraiadores dessa embriaguez: Khayyam (um favorito de Pessoa), Nietzsche, Deleuze…
NOTA: Quem não sentir á-vontade com o francês, esteja à vontade para passar à frente até encontrar outra língua qualquer. Mas a responsabilidade de falhar algo embriagante é sua.
«L’affect qui augmente une force de vie, Nietzsche en parle très souvent, il lui donne un nom particulier, il l’appelle: Ivresse. L’ivresse, c’est donc pas boire, c’est pas la drogue, bien que boire et la drogue, et plus on sait pas, Nietzsche y fait allusion, parfois.»
- Deleuze, Image-Mouvement Image-Temps, 13/12/1983.
«Les hommes qui connaissent des instants de ravissement sublime mais sont ordinairement livrés, par contraste et par suite de leur épuisante dissipation d’énergie nerveuse, à la détresse et au désespoir, considèrent ces instants comme leur être authentique, comme leur “moi”, la détresse et le désespoir comme une répercussion de “ce qui leur est extérieur”; ainsi pensent ils à leur entourage, leur époque, leur monde tout entier avec un appétit de vengeance. L’ivresse leur semble être la vrai vie, le moi authentique: dans tout le reste ils voient des adversaires et des ennemis de l’ivresse, qu’elle soit de nature spirituelle, morale religieuse ou artistiques»
- Nietzsche, Aurore.
«Je dis à l’alcoolique, par exemple, je lui dis: “Tu aimes boire? Tu veux boire? Bon, très bien. Si tu bois, bois de telle manière que à chaque fois que tu bois, tu serais prêt à boire, reboire, reboire une infinité de fois. Bien sûr à ton rythme. “Il ne faut pas pousser… à ton rythme. À ce moment là, au moins, soit d’accord avec toi-même. Alors les gens vous font beaucoup moins chier quand ils sont d’accord avec eux-mêmes. Ce qu’il faut redouter avant tout dans la vie, c’est les gens qui ne sont pas d’accord avec eux-mêmes, ça Spinoza l’a dit admirablement. Le venin de la névrose c’est ça! La propagation de la névrose, je te propage mon mal, c’est terrible, terrible. C’est avant tout ceux qui ne sont pas d’accord avec eux-mêmes. C’est des vampires».
- Deleuze, 09/12/1980.
«C’est là que le style fait langue. C’est là que le langage devient intensif, pur continuum de valeurs et d’intensités. C’est là que toute la langue devient secrète, et pourtant n’a rien à cacher, au lieu de tailler un sous-système secret dans la langue. On n’arrive à ce résultat que par sobriété, soustraction créatrice. La variation continue n’a que des lignes ascétiques, un peu d’herbe et d’eau pure»
- Mille Plateaux.
«Não vamos falar agora, dá-me vinho. Nesta noite
a tua boca é a mais linda rosa, e me basta.
Dá-me vinho, e que seja vermelho como os teus lábios.»
«Não vamos falar, toma o teu vinho.»
«Alcorão, o livro supremo, pode ser lido às vezes,
mas ninguém se deleita sempre em suas páginas.
No copo de vinho está gravado um texto de adorável
sabedoria que a boca lê, a cada vez com mais delícia».
«Hoje os meus anos reflorescem.
Quero o vinho que me dá calor.
Dizes que é amargo? Vinho!
Que seja amargo, como a vida».
«Bebe, e desfruta
o instante fugidio que é a tua vida».
«Bebe o teu vinho».
«Bebe o vinho, e contempla a lua».
«Só de nome conhecemos a felicidade.
O nosso melhor amigo é o vinho;
afaga a única que te é fiel: a ânfora,
cheia do sangue das vinhas».
«Vinho, bálsamo para o meu coração doente,
vinho da cor das rosas, vinho perfumado
para calar a minha dor. Vinho, e o teu alaúde
de cordas de seda, minha amada».
«Brinda ao resplendor da aurora, e dedica
o vinho vermelho desta taça, em forma de chama,
ou de tulipa, ao sorriso meigo de algum adolescente».
«Vinho! Que palpite em minhas veias,
que inunde a minha cabeça. Silêncio!
Tudo é mentira. Copos! Depressa!»
«Do meu túmulo virá um tal perfume de vinho
que embriagará os que por lá passarem,
e uma tal serenidade vai pairar ali,
que os amantes não quererão se afastar».
«Alguns amigos me dizem: Não bebas mais Khayyam.
Respondo: Quando bebo, ouço o que me dizem
as rosas, as tulipas, os jasmins».
«Alguns sábios da Grécia sabiam propor enigmas?
É absoluta a minha indiferença por tanta inteligência.
Dá-me vinho, minha amiga; deixa-me ouvir o alaúde,
olha como lembra o vento que passa, como nós».
«É o mês do Ramadão. Amanhã o sol
vai iluminar uma cidade silenciosa;
os vinhos dormirão em suas urnas
e as mulheres à sombra dos bosques».
«O vinho dá-te o calor que não tens;
suaviza o jugo do passado e te alivia
das brumas do futuro; inunda-te de luz
e liberta-te desta prisão».
«Assim como o céu derrama flores sobre a terra,
verto em minha taça o vinho da cor das rosas».
«O vinho é da cor das rosas;
talvez não seja o sangue das uvas, mas das rosas;
e o azul desta taça talvez seja o céu cristalizado;
e não seria a noite a pálpebra do dia?»
«Homem ingénuo, pensas que és sábio
e estás sufocado entre os dois infinitos
do passado e do futuro. Não podes sair.
Bebe, e esquece a tua impotência.»
Sempre me intrigou o porquê das pessoas beberem, fumarem ou drogarem-se. Sempre achei que a vida em si já tinha estímulos suficientes para nos embriagar, espantar ou arrasar a todo o tempo. Eu costumo dizer que sou um pedrado crónico, talvez por isso seja louco. Reajo demasiado intensamente aos estímulos comuns. Daí uma pedra, um raio de sol, uma nota num trompete, serem coisas fabulasticamente poderosas!… É preciso SENTIR ainda mais?
Quanto a seres um «pedrado», ocorreu-me aquela conhecida frase evangélica: «Tu és a pedra». :-))
E se reages assim intensamente a essas «coisas» – o que é um belo começo – imagina quanto não irás «SENTIR ainda mais» quando as aumentares no microscópio do teu próprio corpo!!!