Estabeleci com o Rui uma relação de primeira e última vez.
Num casório de amigos comuns, conversámos pessoalmente pela primeira e última vez. Antes disso, sem sequer me conhecer, também pela primeira e muito provavelmente última vez, houve uma pessoa que deu o seu aval a publicar-me em livro: foi o Rui. Enviei-lhe uns rabiscos e ele respondeu-me: “Obrigado pelos textos, uma tusa a subir ao cinzento. A casca afinal partiu” (a última mensagem escrita que o Rui me dirigiu).
O Rui era um poeta técnico e (sabia que) dominava a técnica – sobre isso versou a nossa conversa. Ganhou merecidamente prémios, que não foram mais do que o coroar dessa tecnicidade.
Lembro-me de ele ter apontado o meu desconhecimento dos bastidores do meio editorial português (quem era quem), o que ele também dominava, facto que admiti sem pruridos: eu não vinha das Letras, nem estava a ir para as Letras. (Das Letras, só me interessavam os caracteres, ou melhor, o seu carácter elemental, ethos). Disse ao Rui que era apenas um passa-tempo sob inspiração (não técnico). Vínhamos de margens diferentes do rio d’Ouro, eu e o Rui.
A notícia da sua morte inesperada deixou-me com uma sensação de irrisão. Não é verdade que podia ter acontecido a qualquer um? Como somos vulneráveis!
Qualquer que tenha sido a causa da queda ao rio (sentiu-se mal? empurraram-no? foi atraído pelo reflexo de uma estrela?), o certo é que o destino estava contido no nome, à espera de se concretizar, até que: o Rui ruiu.
Mas a ruína é uma desagregação material. A alma não rui. A alma, não, Rui. A alma do Rui, não.
A alma, que quero aqui equivaler ao que em perfumaria se chama de “essência”, fica. Presos ao solvente fixador, ficam os traços aromáticos, a fragrância concentrada do que outrora foi uma pessoa extensa.
Música à sua alma.
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A MÚSICA
A música partilha com a flor
a carne que se alaga como um copo.
A música é um rizoma atómico
cheia de sílabas grossas e finas
no peito maduro da onda.
Por isso a onda cai e a flor
também. E se te digo sei que ficas
triste e é quando substituis essa
geração de força por dois pequenos
vasos à entrada do teu dorso (e qual
és tu e qual sou eu é uma haste subindo)
Do teu lado esquerdo é dia.
O vestido é branco e aponta
a cidade a que chegas com os
dedos, rodando os ombros mas
não a cabeça. O teu olhar
é uma ferida musical sem verbo fixo:
a penumbra bate às vezes na
pálpebra, outras na imaginação.
A queda gera o seu próprio
impulso, como se fosse o preen-
chimento de uma forma: chama-se amor
e serve para os ouvintes ouvirem o esbracejar
do desejo, esses versos de asa silenciosa-
ouves?
Há poetas azuis que julgam que a
coerência é um pardal azul (da goela
até aos pés). Normalmente limpam os óculos
com coerência, em vez de com (enfim)
e depois vêem o mesmo pardal, a todas
as horas do dia e da noite, sentado azul-
mente sobre o seu nariz azul.
Pela direita, dizes que os versos
não caem se mudares constantemente
o chão. Mas os sonhos sim, e que a transla-
ção do vento sabe do remorso dos bichos mais
pequenos: procura as palavras junto ao chão
e se não me vires,
é porque o silêncio é também a música
e canto-a sem nome
para ti
- Rui Costa
in “Um poema para Fiama”, Labirinto, 2007.