Fascistas! – eis o que penso dos mercenários ignorantes que a Câmara sub-contrata para assassinar os parques públicos da cidade, para mutilar o mais nobre e fértil de todos os modos de vida: a árvore*. Munidos das máquinas mais hediondas e barulhentas (activas e imparáveis tantas vezes ao Sábado e Domingo de manhã), desferem golpes às três pancadas nos órgãos vitais desses seres vivos. Condenam modos de vida (a começar pelos decibéis e poluição que emitem).
As árvores gangrenam por excessivo corte, por falta de espaço para a sua dupla rede canópica e radicular se desenvolver, por falta de protecção e suporte por parte de plantas companheiras.
Os espaços verdes nas minhas imediações (naquele que era o bairro mais arborizado de Lisboa) estão a definhar assustadoramente rápido – onde antes a densidade florestal ocultava a estrada circundante, sobram agora meia dúzia de troncos, e dá-se lugar aos relvados “à americana” (que, de certa maneira, são todos artificiais, porque o conceito urbano de relva não admite a invasão natural por ervas silvestres e é artificialmente reproduzido e mantido), em nome de estúpidas e, na minha opinião, inestéticas formas forçadas que se quer impor à Natureza: são belos os arbustos com todas as folhas da sua orla exterior cortadas pelo meio? São belos os homens com dedos amputados? Mas, claro, a lei do direito à vida foi feita para servir só alguns homens – precisamente os que não precisavam dela, pois que já viviam à custa dos outros homens e das outras espécies.
No vosso caso, jardineiros do diabo, apraz-me saber que, um dia, a moto-serra da Morte far-vos-á o mesmo que vós tendes feito a outrem.
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* Nós achamos e observamos que raiz não se opõe a rizoma. É uma hiper-compartimentação desnecessária que não corresponde à realidade. A árvore dobra o rizoma: rizoma em baixo, rizoma em cima, dois pisos vegetais como na casa barroca. Ambos os andares são rizomáticos, quando entregues ao seu estado natural: 1) o dossel florestal (canopy, em inglês) tende a compor múltiplas interpenetrações e tende à máxima disseminação graças à intervenção do vento, aves e insectos polinizadores, além disso, não raras vezes, é atravessado e ligado por uma miríade de trepadeiras com estolhos de propagação lateral; 2) a raiz de um primeiro exemplar (“árvore-mãe”), se dispuser do tempo que é próprio das florestas (várias centenas de anos, em vez das poucas décadas que a agricultura ao serviço do homem lhes autoriza), desenvolve uma rede de múltiplas germinações (“árvores-filhas”), cada uma das quais se torna, por sua vez, uma árvore-mãe, propagando exponencialmente a sua espécie através do solo. A árvore propaga-se por cima e propaga-se por baixo. Dizia a minha avó: “Tudo o que Natureza dá é em abundância; só o Homem produz a miséria”. O Homem pertence à Natureza? Certamente, mas não este tipo (“ethos”) de Homem. Mas, felizmente, não retornará.