É de suspeitar de todos os que, do alto da sua razão auto-suficiente, alegam saber o propósito de um texto qualquer, mimando um cartesianismo decadente.
Todo o artigo do Senhor Zimler (Público, 27/10/2009) gira em torno de uma definição generalista que se pretende que seja universalmente aceite e sem margem para dúvida: «O Antigo Testamento é (…)». É isto e aquilo - o Senhor Zimler é que sabe. Mas devemos entendê-lo literal ou simbolicamente?
«Trata de seres humanos tal como eles são»: aqui coloca a representação humanista e a lógica da semelhança a funcionarem em prol do senso comum e da banalidade.
O Senhor Zimler afirma: «E uma das coisas que mais respeito e valorizo no Antigo Testamento – (…) – é o facto de aí nada ser escamoteado ou escondido».
Mas depois defende: «Tomar à letra estas histórias é simplesmente não entender o Antigo Testamento e ignorar por completo dois mil anos da tradição poética ocidental».
O Senhor Zimler contradiz-se: então afinal não esconde nada ou possui os segundos sentidos da metáfora poética? Decida-se!…
O Senhor Zimler devia ler autores menos fanáticos de metáforas religiosas como o portuense Uriel da Costa, Spinoza, algum Leão Abrabanel, Kafka, ou assistir aos filmes de Todd Solondz (e mesmo às séries de Larry David)*, tudo judeus que não menosprezam o sentido literal.
«Ou será que haverá alguém que acredite que Eva foi feita de uma costela de Adão?». Ah, pois há! O Senhor Zimler nunca deu por isso? E até há quem tenha a real certeza da literalidade desses versículos.
Continua o Senhor Zimler: «O que é interessante é perguntarmo-nos por que razão exige Deus uma tão absoluta fidelidade aos israelitas e os castiga tão brutalmente por Lhe desobedecerem».
Como?! Isso é interessante? Por favor, leia o livro onde Nietzsche analisa várias religiões (“O Anti-Cristo), do islamismo ao judaísmo, passando pelo budismo, pelo hinduísmo e pelo cristianismo, e perceba por que é que ele chama Kant de «imbecil». O Senhor Zimler revela um fervoroso kantismo, na medida em que faz a apologia da fiel obediência, ora a um transcendente, ora ao sujeitado “cogito” do sujeito: «Obedece sempre, pois quanto mais obedeceres, mais serás senhor, visto que só obedecerás à razão pura, isto é, a ti mesmo…» (crítica de Deleuze a Kant, “Mille Plateaux”).
Mas é evidente o combate que aqui se trava: o Senhor Zimler toma o partido dos poetas, enquanto Saramago declara-os seus inimigos.
Escreve Saramago: «O poeta é o nosso inimigo principal. Só quando conseguirmos arrancar esta lepra da face da terra poderemos viver em paz» (“Deste Mundo e do Outro”, p. 96).
E, em entrevista televisiva (SIC, “Frente-a-Frente” de 23/10/2009), Saramago declara: «O simbólico não deve eliminar o literal».
Já Abrabanel e Erasmo de Roterdão o diziam.
O Senhor Zimler sentencia: «Os comentários de Saramago não são nem chocantes nem novos.»
É verdade, não são. E o próprio Saramago disso está consciente. Leia duas vezes, Senhor Zimler, leia duas vezes!…
Acrescenta o Senhor Zimler: «As críticas de Saramago são unicamente banalidades superficiais, que revelam uma profunda ignorância da filosofia e da religião ocidentais e uma total incompreensão da linguagem poética e narrativa de desde há mais de três mil anos».
Aqui já há que discordar. Banalidades superficiais que revelam uma profunda ignorância - da história das religiões, da filosofia e até da linguagem – é o que o Senhor Zimler diz. Relativamente à história do judaísmo, salta à vista que ainda não prestou a devida atenção aos autores supra-mencionados. Quanto à história da linguagem, parece desconhecer que os sentidos literal e simbólico sempre caminharam juntos – a sujeição do primeiro ao segundo é decadência religiosa tardia -, contudo, nem um nem outro, exclusivamente considerados, possuem o interesse de um terceiro sentido: o sentido real.
E esse, Senhor Zimler, é óbvio que lhe escapa.
* Estes autores não serão, certamente, os mais ortodoxos de referir em matéria de religião, tendo-se notabilizado em áreas muito diversas, mas as suas obras escapam a leituras deterministas, estanques e redutíveis a uma só disciplina, como, aliás, a própria Bíblia, «compilação de histórias», «romance», «poesia», nas palavras do Senhor Zimler - e porque não também, descrição literal, teatro, carnaval, propaganda política, perspectiva histórica, testamento religioso (só um Deus que morreu dita um Testamento, pelo que Nietzsche teria razão), conto popular e infantil, ritual de acasalamento (Cântico dos Cânticos), cartilha moral, «manual de [bons e] maus costumes», etc.?
