«Há quem diga, como se se tratasse de um dogma, que a publicação de artigos em revistas internacionais – de classe A, escritos em inglês, com referee e disponibilizados em qualquer “plataforma” on-line – constitui o grande objectivo da vida de investigadores, novos ou velhos. Porquê? Por ser essa a única forma de alcançar a referida internacionalização. (…)
Que se desenganem os convertidos a esta moda. Apesar de ela se impor a bem da informação difundida pelos instrumentos tecnológicos mais avançados, da internacionalização e da dita excelência, não é assim que se procede “lá fora”. Posso testemunhar, pelo menos nas áreas que conheço, ligadas ao ensino e à investigação da História e das Ciências Sociais, que a publicação de livros continua a preponderar na avaliação individual dos professores e na formação dos estudantes, da licenciatura ao doutoramento. E, quando assim não é, chovem as críticas. (…)
Se é através dos grandes livros que nos podemos formar, se são eles que devem estar na base de um ensino crítico e vigilante, como explicar a generalização de uma moda em que só os artigos – escritos ainda por cima numa língua como o inglês, que se internacionalizou à custa da sua própria simplificação – parecem contar?
São três as explicações referidas até aqui: tendência para uma hegemonia dos modelos de comunicação baseados em artigos e em investigações colectivas, impostos pelas ciências ditas exactas ou de laboratório; uma falsa ideia do que acontece “lá fora”, num mundo globalizado de matriz anglo-americana; e um fascínio pelos meios de comunicação e de circulação da informação que potenciam leituras fragmentadas e descontínuas, em detrimento da consulta aprofundada da obra de fôlego, do livro, no seu formato mais clássico e em suporte de papel.
Nas Humanidades e nas Ciências Sociais, a sobrevalorização dos artigos decorre, também, de outros factores, com consequências bem gravosas. Por um lado, tal exagero encontra-se directamente associado a uma ideia bem provinciana de que será possível reduzir o conhecimento a uma espécie de grande base de dados de consulta electrónica, incluindo nela as próprias revistas. Trata-se, no fundo, da tradução da ideia pacóvia de que “está tudo na Internet”, logo, a nossa presença ou se faz através desse meio ou não se faz. Ora, não haverá aqui, mais um vez, uma enorme confusão? É que disponibilizar livros ou artigos em formato digital não implicará nunca colocá-los no mesmo plano. Por outro lado, importa desfazer uma espécie de fascínio pelo quantitativo: mais concretamente, o número de ocorrências, enquanto autor ou objecto de uma citação, dificilmente pode ser tomado como indicador de um contributo para a inovação. De tudo isto, fica arredado o pensamento individual, de autor, desenvolvido, durante anos a fio, num livro, bem como a responsabilidade de julgar pela qualidade e não pela quantidade.
A todo este elenco de razões acrescenta-se ainda o facto da inexistência de bibliotecas de trabalho, devidamente equipadas, em Portugal. Uma simples visita às que se encontram disponíveis para as áreas de História e Ciências Sociais é mais do que esclarecedora do atraso em que nos encontramos. Ora, estas são de construção morosa e financeiramente muito exigentes. Em Lisboa, por exemplo, valeria a pena deixar de continuar a brincar às pequenas bibliotecas e desenvolver uma política científica de concentração de recursos. Num panorama de grande atraso, compreende-se o fascínio pelas bases de dados, logo, pelas revistas; consideradas uma espécie de compensação frente à falta de livros e de bibliotecas minimamente apetrechadas. Mas mais uma vez se confundem alhos com bugalhos. Ainda por cima, note-se de passagem, o próprio ensino universitário raras vezes se organiza em função da leitura de livros. O que sucede é que estes são substituídos – com enormes implicações numa pobre formação dos alunos – pelas fotocópias de partes de livros, pelos artigos, por apontamentos ou pelo livro único. Tudo isto num enorme desrespeito pelos direitos de autor, pelo trabalho de editores e livreiros, mas também como única forma de resolver o preço elevado dos mesmos livros.
Neste panorama, e por todas as razões apontadas, será possível pensar na existência de uma cultura dominante, monopolizada pela prática das universidades e dos centros de investigação, que destruiu a centralidade do livro. Ora, é contra toda esta cultura dominante que me insurjo. Claro que defendo que a escrita de livros, individuais, escritos em português ou noutras línguas, deverá ser disponibilizada numa variedade de suportes e completada por outros “géneros”: artigos, recensões, capítulos, organização de obras colectivas, traduções, cuja valorização é urgente reconhecer como peça essencial da famigerada internacionalização, etc. Mas não estou disposto a aceitar que os critérios de avaliação de professores e investigadores possam prescindir da elaboração e da leitura dos livros de autor, bem como da sua centralidade. Fui neles formado, é a partir deles que ensino e continuarei a ensinar.»
- Vitorino Magalhães Godinho, in “O livro: contra a corrente?“, Público, 11.07.2012