De «John Thomas & Lady Jane»

AMOR

«Amor, que poderia querer-lhe dizer a ela essa misteriosa ideia nascida de visões fetichistas? Nada, nada no seu caso pessoal. A palavra não passava de uma mala de viagem contendo no seu grande bojo muito pouco ou mesmo nada.»

 

 – SEXO

«Quanto a sexo (…) que significado tivera para si? Não muito! De resto não há significado por aí além no sexo pelo sexo. (…) Talvez fosse uma função necessária à juventude.»

 

 – MATERNIDADE

«Pensou que mesmo que tivesse tido filhos essa condição não a modificaria realmente (…). Pura actividade mecanicista da vida – se é que a isso se podia chamar vida. Em tais ocupações não havia nada de profundo e muito menos de experiência real (…). Eram coisas que não ultrapassavam a craveira normal de um conjunto de exercícios físicos e emocionais: autodisciplina.»

 

 – DESEJO

«Mas agora! Agora! O coração acabara de ser tocado pela chama de uma nova experiência, chama que deixara o prurido de uma queimadura, um sítio inflamado que não era capaz de acalmar com o suave bálsamo do esquecimento. Mas que coisa era aquela? Certamente nada que pudesse estar contido na fantasista palavra amor. Algo que se aproximava mais da beleza, mas uma beleza viva e perigosa, coisa que tocada constituiria um choque.»

«A mentalidade e o espírito do homem eram coisas em bruto, toscas, vulgaríssimas. Só o corpo é que possuía uma beleza fremente, divinamente viva, mas ignorada no invólucro exterior. Era uma beleza palpitante, de movimentos suaves e ligeiros, perigosamente viva, como uma chama, como a curvatura do universo contendo a raiz da existência.»

«Encontrara um velho exemplar da segunda parte do Hajji Baba e estava a lê-lo em voz alta. (…) Podia sentir nas situações do livro certa parcela do antigo deleite persa na vida corpórea, como distinta da vida intelectual e espiritual. (…) Pobres persas que ficavam à mercê dos mecanismos e da lógica do mundo ocidental!»

«Atingia um enorme grau de divertimento quando Hajji proferia em voz alta as suas catilinárias aflitivas a respeito dos rostos não velados das inglesas. Ah! se ao menos aquelas huris tivessem as caras tapadas, que fogo de paixão inflamaria o físico imponente do persa! Mas a crua e indecente nudez do semblante exposto era um balde de água fria no ardor de Hajji e repugnava-o. Oh, se ao menos em Londres as mulheres tapassem o rosto com um simples lencinho, que adoráveis seriam! Mas nenhum homem, nenhum, poderia sobreviver ao aspecto cruamente monótono dos rostos nus de infindáveis mulheres. Em Hajji não ficara nem a mais leve centelha de desejo.»

«- Não pensas que o Hajji tem razão? – perguntou ela. – Não achas que as caras das pessoas são na verdade a parte pior que têm? (…) São como relógios, que apontam as horas dos seus pensamentos pessoais, batem as horas daquilo que sentem. Detesto caras. São tantos os rostos, mas, embora de várias formas e feitios, todos eles mostram mais ou menos as mesmas horas, tal como os relógios. (…) Sentem com uma tal monotonia, embora pretendam disfarçá-lo, queiram dar o ar de que são coisas de interesse, profundas, como relógios a marcarem uma hora errada. Estou cansada das caras das pessoas. Desejaria que houvesse uma lei que obrigasse a velá-las, como as maometanas. Se tapassem os rostos não me importaria nada que exibissem tudo o resto nu… com a condição de não se lhes verem as caras.»

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