Pessoa e os babuínos

Todos os comissários e bem-intencionados, que promovem discursos políticos e eventos sociais supostamente edificantes associando Pessoa à defesa da cultura nacional, deviam ter sempre presente esta frase:

«Não tenho sentimento nenhum político ou social. (…) Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente.» (“Livro do Desassossego”, p. 17).

E todos os jornalistas que gostam de enaltecer os dotes estilísticos do autor, também deviam estar cientes destas:

«Então a imprensa portuguesa é que é a imprensa portuguesa? / Então é esta merda que temos que beber com os olhos? / Filhos da puta! Não, que nem há puta que os parisse.» (Álvaro de Campos, p. 224).

«Não ler jornais, ou lê-los só para saber o que de pouco importante e curioso se passa» (“Livro do Desassossego”, p. 65).

E, já agora, todos os editores de livros escolares e professores de Português, que sejam honestos, deveriam facultar aos alunos, no âmbito do programa, o seguinte poema pessoano:

«Ai que prazer, / Não cumprir um dever, / Ter um livro para ler / E não o fazer! / Ler é maçada, / Estudar é nada. / O sol doira / Sem literatura. / O rio corre, bem ou mal, / Sem edição original. (…) / Livros são papéis pintados com tinta. / Estudar é uma coisa em que está indistinta / A distinção entre nada e coisa alguma. / (…) O melhor do mundo são as crianças» (F. Pessoa, “Poesias”).

 

“Hommage à Pessoa” de Jean-Michel Folon

 

Babuíno de Toth segurando o gnómon
(figura central do Zodíaco de Denderah, séc. I a.C.)

Nobel trouble

Harry Martinson (H.) ganhou o Prémio Nobel da Literatura em 1974, “for writings that catch the dewdrop and reflect the cosmos“.

Também foi agraciado nesse ano outro autor sueco: Eyvind Johnson.

Como H. era amigo deste outro nobelizado e ambos eram membros há muito tempo da Academia Sueca, a qual debate e determina quem vence o Prémio Nobel, gerou-se uma polémica nos “media” insinuando corrupção.

Em 1978, quatro anos após lhe ter sido atribuído o Nobel, deprimido e desgastado com as ofensas a que foi sujeito, H. comete suicídio abrindo o estômago com uma tesoura.

«With their round dance the electrons spin
chrysalises of that which abides,
the inmost cocoons
which do not open of their own accord
but are of that which abides.

There it is not a matter of hatching out.
There it is a matter of tending and protecting
the metamorphoses of the inmost
deeper-down swaying,
the innermost playing of women in dance.»

– “The Electrons”, in “Dikter om ljus och mörker” (“Poems of Light and Darkness”), 1971, translated by Stephen Klass.

 

«Nature’s laws are already on the way
to stand us all against the wall.
That wall is law’s own nature.
It is missing an evangel.
That great trouble all of us must share.
Then it will be possible to bear.
The great trouble is to take great trouble.
That is what all of us must learn.

Amid all shoulds and should have beens
there is one must for all.
All must learn to take great trouble with the world.
Now that man has gotten power enough
to bring about the trouble of the world
the time is now
to heal the trouble of the world in time
before all nature has become
everybody’s troubled child.

This is called taking trouble in time.
True trouble
which sees in time to what it sees».

– “The Great Trouble”, in “Dikter om ljus och mörker” (“Poems of Light and Darkness”), 1971, translated by Stephen Klass and Carolyn Skantz.

Drawings also by H.

Descobrir H.

«Como se a obra literária, por exemplo, ou a obra de arte ou ainda outras obras, as obras da sociedade, as da doença, as da vida em geral, envolvessem esse objecto muito particular que governa a sua estrutura. É como se se tratasse sempre de descobrir o que é H (…)».

– DELEUZE, “Como reconhecer o estruturalismo?”

Quero ir à Noruega

If you wanna be my friend
You want us to get along
Please do not expect me to
Wrap it up and keep it there
The observation I am doing could
Easily be understood
As cynical demeanour
But one of us misread…
And what do you know
It happened again

A friend is not a means
You utilize to get somewhere
Somehow I didn’t notice
friendship is an end
What do you know
It happened again

How come no one told me
All throughout history
The loneliest people
Were the ones who always spoke the truth
The ones who made a difference
By withstanding the indifference
I guess it’s up to me now
Should I take that risk or just smile?

What do you know
It happened again
What do you know

 

Using “The Guardian” as a shield,
to cover my thighs against the rain,
I didn’t mind about my hair.
Your jacket may be waterproof,
but knowing the moment you get home
you’re gonna get your trousers changed.
Failure is always the best way to learn,
retracing your steps ‘til you know,
have no fear your wounds will heal.
I wish I could travel overground
to where all you hear is water sounds,
lush as the wind upon a tree.
I wish I could travel overground
to where all you hear is water sounds
,
to capture and keep inside of me.
Failure is always the best way to learn,
retracing your steps ‘til you know,
have no fear your wounds will heal.
Failure is always the best way to learn,
retracing your steps ‘til you know,
have no fear your wounds will heal.

Para o amigo ébrio

«… Alcança-se um inferno de virtude através de um céu de vícios».

– KAFKA, “Diários”, p. 346

 

Ouve-se perguntar amiúde: Porque é que as pessoas se drogam? Resposta fácil: porque a droga torna possível um prazer. Um prazer efémero, volátil, fácil, que vem acompanhado das difíceis (às vezes, sobre-humanas) dores da sua interrupção: a ressaca.

O que nos dá prazer? O êxtase, o orgasmo, a descarga… O máximo de energia (do grego “en”+”ergos”, “em actividade”) que conseguirmos activar com o mínimo de esforço. Um drogado é sempre um preguiçoso, um tipo passivo, que deseja criar fácil e artificialmente uma natureza espasmódica activa através do corpo inerte. E isso aplica-se à senhora que toma o seu estimulante café pela manhã para se obrigar a acordar sem ter muito trabalho, sem se mexer muito.

Um drogado é como um cultor do prazer infinito, usando os meios menos eficazes, porque finitos: doses que se acabam, pacotes descontínuos de energia momentânea. O projecto do drogado está, por isso, condenado à frustração, enquanto se basear nestes recursos.

Um dia, um doente bipolar que coleccionava vícios disse-me: «Não desejo mais que ser escravo do prazer». E não há nada mais predisposto a tornar-se escravo do prazer do que um organismo. É assim para toda a gente.

Objecção: mas há pessoas que não se drogam… Há?! Depende da definição de droga. Se se entender por droga, toda a substância susceptível de criar dependência e habituação, agindo sobre os centros de prazer do organismo, então vemos por todo o lado viciados, não só das drogas socialmente representadas como tais – álcool, tabaco, café, barbitúricos, anfetaminas, drogas leves, drogas duras, etc. – como também das drogas menos suspeitas – comida, sexo, sol, música, dança, o consumo dos objectos favoritos, sonhos agradáveis, etc. O organismo sedimenta e conserva habituações a tudo o que dá prazer e desperta a emissão da hormona que nos recompensa com sensações aprazíveis: a dopamina.

Toda a humanidade se droga em dopamina, quando faz o que lhe convém, quando alimenta os seus desejos, as suas “paixões alegres”, quando atinge os seus orgasmos. E é do seu interesse que o faça: níveis deficientes ou desregulados de dopamina estão associados à doença de Parkinson, ao autismo, à apatia, à ansiedade, à desconcentração, desmotivação e hiperactividade nas crianças (em contextos que lhes não dão prazer…) e, curiosamente, aos comportamentos adictos de abuso de drogas. Níveis muito elevados de dopamina são detectados nos esquizofrénicos. A dopamina desempenha, além disso, um papel essencial relativamente à atenção, à motivação, à aprendizagem e à tomada de decisão: ela organiza os objectos e acontecimentos percebidos por graus de intensidade de satisfação, dirigindo as escolhas e os interesses. Segundo os especialistas, a emissão de dopamina está ligada ao «desejo antecipatório» (a vontade) por oposição ao prazer consumado (o gosto). A dopamina não é libertada quando nos cruzamos com algo desagradável ou inócuo, promovendo o comportamento evasivo, de evitação. Se alguém recusar insistentemente ir ao vosso encontro, já sabem: não lhe induziram dopamina.

É de supor que o organismo nos dotou do processo dopaminérgico no seio do sistema límbico (o qual, entre outras coisas, regula e conduz as emissões de dopamina) precisamente para que nos orientássemos em direcção ao prazer, para que nos tornássemos seres aprazíveis num mundo também aprazível (“o melhor dos mundos”, diria Leibniz).

Porque é que isso não acontece por meio das drogas que estamos habituados a ver? Porque são drogas abstractas. “Abstracto” quer dizer “extraído”. As substâncias que nos vendem são, de facto, extracções (extraem-se os grãos do café, as folhas da planta do tabaco ou do haxixe, os compostos laboratoriais do LSD, etc.). E, enquanto extracções, não valem mais do que pó, do que cinza apagada que o vento desintegra e dispersa. Pagamos caro esse pó, enquanto permanecermos na ignorância de que a melhor droga é concreta, não mediada, e gratuita. Não fica nem ao preço de uma bica ou de um cigarro “cravado” aos transeuntes.

Para alcançar o nosso fito, precisaríamos, pois, de buscar uma droga concreta.

Acaso o organismo teria evoluído no sentido de dotar-se de um sistema que nos recompensa com o prazer, se não fosse do seu real interesse que as pessoas buscassem fontes de prazer?

Aumentar para sempre o prazer… Não é o que todo o drogado almeja? E, no entanto, sabemos que as drogas mais representativas têm o efeito contrário: quanto mais são tomadas, menos efeito fazem. Os toxicodependentes tendem a ir aumentando as quantidades, já não sabem onde se hão-de picar, para reproduzir o efeito desejado. Querem obter o prazer epicurista, sem aguentar estoicamente a ressaca. Tanto a ressaca como o período refractório após o orgasmo são resultado da inibição da produção de dopamina (por outra hormona chamada prolactina).

A experiência dos drogados fá-los supor que: quanto maior o prazer, maior a ressaca (Foucault/Sade). Ora, é precisamente esta ideologia que queremos combater, contrapondo-lhe a inversa: quanto maior a ressaca, maior o prazer (Deleuze/Masoch).

Se toda a gente é drogada em qualquer coisa (o sal, o açúcar…), também toda a gente é ressacada (a comida está insonsa! está pouco doce!..), segundo graus diversos.

E agora que falámos do prazer, seria necessário falar do seu contraponto: o desejo. O desejo tem realmente um papel a desempenhar na ampliação do prazer. Por outras palavras: não se chega a ser um autêntico epicurista, se não se começar por ser um autêntico estóico.

Chegou a altura de operar a disjunção entre “ébrio” e “toxicodependente”, ou entre “embriagado” e “alcoólatra”. Não é de todo a mesma coisa. Um autêntico ébrio não é um toxicodependente. Mas pode acontecer que a mesma pessoa reúna ambos: Pessoa viveu na embriaguez a sua poesia, mas morreu enquanto alcoólatra, com uma cirrose.

Deleuze escreve: «Ao afecto que aumenta uma força de vida, de que Nietzsche fala frequentemente, ele dá um nome particular, chama-o: Embriaguez. A embriaguez, não é portanto beber, não é a droga, ainda que, à bebida e à droga, e mais não sabemos, Nietzsche faça por vezes referência.» “(Image-Mouvement Image-Temps”, 13/12/1983).

A principal ideia a reter é a seguinte: a embriaguez não pertence ao domínio da referência, mas antes ao campo das forças da vida. Neste sentido, Nietzsche fala dos homens que conhecem «instantes de deslumbramento sublime», em que «a embriaguez lhes parece ser a autêntica vida», ainda que «em tudo o resto, permaneçam adversários e inimigos da embriaguez».

Somos embriagados e toxicodependentes, ao mesmo tempo. Somos desejantes e ressacados, ao mesmo tempo. Por um lado, desejamos a embriaguez; por outro, intoxicamo-nos, tendo por consequência a ressaca. Duas lógicas muito diferentes.

À lógica da última estamos habituados: doses sucessivas intercaladas de ressacas sucessivas.

Mas a lógica daquela a que damos primazia é: «bebe de tal maneira que, de cada vez que bebas, estejas pronto a beber, voltar a beber e tornar a beber, uma infinidade de vezes. Ao teu ritmo. (…) Em tal momento, pelo menos, está de acordo contigo mesmo. Aquilo que, antes de mais, devemos reduzir na vida são as pessoas que não estão de acordo consigo mesmas, diz-nos Spinoza, admiravelmente. O veneno da neurose é isso! A propagação da neurose, eu propago-te o meu mal, é terrível, terrível. Antes de mais, são todos aqueles que não estão de acordo com eles mesmos. São vampiros.» (Deleuze, Aula sobre Spinoza, 09/12/1980).

Objectarão os drogados: mas nós drogamo-nos inúmeras vezes de acordo com o nosso ritmo de consumo. Ainda assim, digo eu, isso é neurose.

Seria necessário que vos drogásseis de uma só vez por toda a infinidade de vezes, que vos désseis o máximo – sem overdose, sem dose – conduzidos, não por um ritmo de consumo, mas por um ritmo de produção.

No entanto, para obter o máximo precisamos do mínimo. Para o máximo de ebriedade, precisamos do mínimo de toxicodependência. Para o máximo de embriaguez, precisamos do mínimo de dualidade saciedade/ressaca.

O mínimo quer dizer conter a tristeza, para produzir a alegria. «Menos é mais».

Há algo mais triste do que uma «overdose»?

Deleuze uma vez mais: «… tristeza: o meu poder de ser afectado tende a ser excedido. Nada é bom para alguém que excede o seu poder de ser afectado. Um poder de ser afectado é realmente uma intensidade ou um limiar de intensidade. (…) Enquanto vocês não conhecem as vossas intensidades, arriscam-se a ter um mau encontro, e poderão muito bem dizer que é belo o excesso, a desmedida… porém não há desmedida, não há senão fracasso, nada além do fracasso. Advertência quanto às overdoses. É precisamente o fenómeno do poder de ser afectado que é excedido com uma destruição total.» (Aula sobre Spinoza, 24/01/1978)

Nenhum cultor do prazer infinito alcançará o seu objectivo se não for cultor do desejo infinito.

É, por isso, que o estóico Epicteto pedia a Júpiter sempre nova chuva de paixões, ou que alguns santos valiam, menos pelos milagres, do que pelas tentações a que resistiam (na verdade, os antigos sacerdócios faziam um uso do desejo que os modernos esqueceram).

Situação semelhante é a do drogado que, exposto à imagem do que excita o seu desejo, renuncia ao seu consumo, não por abstenção ou abstinência ascética, mas porque o seu fito é a produção do desejo.

Assim o que é censurável nos drogados – que todos nós somos, cada qual na sua proporção – não é o facto de tomarem drogas, mas, ao contrário, o facto de abdicarem de tomar a droga principal, preterida por drogas secundárias.

Que nome possui essa droga? Não sei (cada um chame-a o que lhe aprouver). Mas há quem lhe chame «Sublime dinâmico da potência», engendrado pelo acordo consigo mesmo (acordo entre a imaginação e a razão, segundo a faculdade de desejar) quando «a dor torna possível um prazer» (“A Filosofia Crítica de Kant”, p. 58).

O estóico torna possível Epicuro:

«A sabedoria consiste em gozar os prazeres da vida sem deles ficar escravo, em libertar-se do temor dos deuses e da morte».

Não são meras ideias abstractas estas, mas dinamismos bem concretos para quem estiver receptivo, motivado, atento, entusiasmado, antecipadamente desejoso de os experimentar (com níveis dopaminérgicos próximos do esquizo).

É o que faz Henry Miller dizer: «A fome é o barómetro da alma» (“Sexus”, p. 491).