Pessoa e os babuínos

Todos os comissários e bem-intencionados, que promovem discursos políticos e eventos sociais supostamente edificantes associando Pessoa à defesa da cultura nacional, deviam ter sempre presente esta frase:

«Não tenho sentimento nenhum político ou social. (…) Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente.» (“Livro do Desassossego”, p. 17).

E todos os jornalistas que gostam de enaltecer os dotes estilísticos do autor, também deviam estar cientes destas:

«Então a imprensa portuguesa é que é a imprensa portuguesa? / Então é esta merda que temos que beber com os olhos? / Filhos da puta! Não, que nem há puta que os parisse.» (Álvaro de Campos, p. 224).

«Não ler jornais, ou lê-los só para saber o que de pouco importante e curioso se passa» (“Livro do Desassossego”, p. 65).

E, já agora, todos os editores de livros escolares e professores de Português, que sejam honestos, deveriam facultar aos alunos, no âmbito do programa, o seguinte poema pessoano:

«Ai que prazer, / Não cumprir um dever, / Ter um livro para ler / E não o fazer! / Ler é maçada, / Estudar é nada. / O sol doira / Sem literatura. / O rio corre, bem ou mal, / Sem edição original. (…) / Livros são papéis pintados com tinta. / Estudar é uma coisa em que está indistinta / A distinção entre nada e coisa alguma. / (…) O melhor do mundo são as crianças» (F. Pessoa, “Poesias”).

 

“Hommage à Pessoa” de Jean-Michel Folon

 

Babuíno de Toth segurando o gnómon
(figura central do Zodíaco de Denderah, séc. I a.C.)

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