‘Ao acaso dos encontros’

27/10/2008, Roma. Manifestazione Studentesca – Corteo di studenti sotto il senato per protestare contro la riforma Gelmini

«Encontramo-nos numa crise generalizada de todos os meios de confinamento, prisão, hospital, fábrica, escola, família. A família é um “interior”, em crise como qualquer outro interior, escolar, profissional, etc. Os ministros competentes não param de anunciar reformas supostamente necessárias. Reformar a escola, reformar a indústria, o hospital, o exército, a prisão; mas todos sabem que essas instituições estão condenadas, num prazo mais ou menos longo. Trata-se apenas de gerir sua agonia e ocupar as pessoas, até a instalação das novas forças que se anunciam. São as sociedades de controle que estão substituindo as sociedades disciplinares. “Controle” é o nome que Burroughs propõe para designar o novo monstro, e que Foucault reconhece como nosso futuro próximo. (…)

É o dinheiro que talvez melhor exprima a distinção entre as duas sociedades, visto que a disciplina sempre se referiu a moedas cunhadas em ouro – que servia de medida padrão -, ao passo que o controle remete a trocas flutuantes, modulações que fazem intervir como cifra uma percentagem de diferentes amostras de moeda. A velha toupeira monetária é o animal dos meios de confinamento, mas a serpente o é das sociedades de controle. Passamos de um animal a outro, da toupeira à serpente, no regime em que vivemos, mas também na nossa maneira de viver e nas nossas relações com outrem. O homem da disciplina era um produtor descontínuo de energia, mas o homem do controle é antes ondulatório, funcionando em órbita, num feixe contínuo. (…)

As conquistas de mercado se fazem por tomada de controle e não mais por formação de disciplina, por fixação de cotações mais do que por redução de custos, por transformação do produto mais do que por especialização da produção. A corrupção ganha aí uma nova potência. O serviço de vendas tornou-se o centro ou a “alma” da empresa. Informam-nos que as empresas têm uma alma, o que é efetivamente a notícia mais terrificante do mundo. O marketing é agora o instrumento de controle social, e forma a raça impudente dos nossos senhores. O controle é de curto prazo e de rotação rápida, mas também contínuo e ilimitado, ao passo que a disciplina era de longa duração, infinita e descontínua. O homem não é mais o homem confinado, mas o homem endividado. É verdade que o capitalismo manteve como constante a extrema miséria de três quartos da humanidade, pobres demais para a dívida, numerosos demais para o confinamento: o controle não só terá que enfrentar a dissipação das fronteiras, mas também a explosão dos guetos e favelas.

Não há necessidade de ficção científica para se conceber um mecanismo de controle que dê, a cada instante, a posição de um elemento em espaço aberto [GSM – Global System Monitoring], animal numa reserva, homem numa empresa (coleira eletrônica). Félix Guattari imaginou uma cidade onde cada um pudesse deixar seu apartamento, sua rua, seu bairro, graças a um cartão eletrônico (dividual) que abriria as barreiras; mas o cartão poderia também ser recusado em tal dia, ou entre tal e tal hora; o que conta não é a barreira, mas o computador que detecta a posição de cada um, lícita ou ilícita, e opera uma modulação universal. (…)

No regime das escolas: as formas de controle contínuo, avaliação contínua, e a ação da formação permanente sobre a escola, o abandono correspondente de qualquer pesquisa na Universidade, a introdução da “empresa” em todos os níveis de escolaridade. (…)

Uma das questões mais importantes diria respeito à inaptidão dos sindicatos: ligados, por toda sua história, à luta contra disciplinas ou nos meios de confinamento, conseguirão adaptar-se ou cederão o lugar a novas formas de resistência contra as sociedades de controle? Será que já se pode apreender esboços dessas formas por vir, capazes de combater as alegrias do marketing? Muitos jovens pedem estranhamente para serem “motivados”, e solicitam novos estágios e formação permanente; cabe a eles descobrir a que estão sendo levados a servir, assim como seus antecessores descobriram, não sem dor, a finalidade das disciplinas».

Deleuze, “Post-scriptum sur les sociétés de contrôle”, in L ‘autre journal, n°1, Mai 1990. Tradução de Peter Pál Pelbart.

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3 thoughts on “‘Ao acaso dos encontros’

  1. porque é que isto me soa a discurso de escravo? de ressentido? de pre-conceituoso? de fala-barato, de inconsequente? de profetico da desgraça e da salvação? de maniqueista?

    ah :-) já sei, porque se fala claramente dos “senhores”, os “outros”, que detém o poder (não se sabe bem como nem para quê) e os escravos, com quem ele se identifica, os sem poder (e sem capacidade de evitarem ser submetidos pelo poder)…tudo continua claramente clivado, como nas velhas historias aos quadradinhos (tal e qual se pensava antes de absorvermos as consequencias do trabalho de Foucault, Bourdieu, Deleuze)…

    Porque é que este texto me faz lembrar o “Contra-fogos” do Bourdieu ou o “Vigiar e Punir” do Foucault? ah… porque foram as obras que me ajudaram a perceber como estou longe desta geração que teve de se libertar a esforço do marxismo, como os exsitencialistas antes deles se tiveram de libertar ainda de Deus… eles querem ir além, mas permanecem aquem…algo embaraçoso ;) Querem estar para além do Bem e do Mal, mas Marx não os deixa.As as profecias sobre o “povo por vir” mantém o horizonte do “fim dos tempos” :)
    (Derrida põe bem o dedo na ferida e mostra como aí Deleuze não ultrapassa o romantismo de Schelling)

    Pessoalmente nasci e cresci sem origens nem profecias, seja de Isaias, seja de Marx :-)

    Por outro lado, dá-me esta alegria de não ter de ficar por ser “Deleuziano”, “Foucauldiano”, “Bourdiano”, por mais admiração que tenha pelas suas obras, reduzido a um papagaio que cita as autoridades sem ter de os adequar às problematicas do meu tempo,
    :-)

    P.s: gosto particularmente, claro, de saber que o “marketing é agora o instrumento de controle social, e forma a raça impudente dos nossos senhores”.
    Uf :-) estou do lado dos senhores!!! livra :-) podia ter-me descoberto do lado dos escravos ressabiados :-). Mesmo perante discursos maniqueistas não gosto de me sentir o impotente da historia ;). Nisso Nietzsche, que não teria pachorra para o profetismo apocaliptico de Marx, é-me bastante mais simpatico.

    De resto, este, como outros textos políticos de Deleuze, Foucault, Bourdieu, parecem-me bastante patetas (mas dou-lhes o devido desconto. São filhos do seu tempo ;-) Não tenho nada a ver com isto :-)
    … livra…

  2. Usas o método daquilo que reprovas. Por contágio, obrigas-me também a usá-lo. Quem quer que alimente um blog ou uma crónica de jornal sofre dessa doença.

    O teu acerto de contas poderia intitular-se «Tu-Tu», animado que está de uma grande vontade de julgar o outro. Nisso, não supera os autores que censuras.

    A partir do instante, em que levantas o dedo para acusar e abres a boca para dizer «Tu» (seja Deleuze, eu ou a classe de pedantezinhos), introduzes a clivagem dialéctica e o Juízo que declaras abominar.

    Não estou ao lado dos senhores nem dos escravos. Concebo a vida como uma polifonia, não uma omnisciência, nem uma omnipresença. Vejo bem que os que se julgam senhores têm patas de escravos e a língua vincada com o ferro de marcar gado.

    Não posso dizer «Eu sou». Podias tê-lo assimilado de Derrida, di-lo claramente na sua conferência de 2002, em Toronto. Mas é Kafka que me ocorre agora: «Não descanso em mim, nem sempre sou ‘algo’, e se alguma vez sou ‘algo’, tenho de o pagar com um ‘não ser’ de largos meses».

    Não te safas de ser papagaio só por não usares aspas (censura que já me havia sido feita por um certo professor). Basta respeitares o acordo ortográfico da língua portuguesa que se converteu em vaca sagrada para tanta gente. Mas quando me referia a polifonia não era nela que pensava, mas naquela matéria sonora de que as glossolalias de Artaud são já uma traição.

    Não falo a língua de ninguém. Falo sozinha.

    Não é exacta a tua sugestão de que cito autoridades sem as adequar às problemáticas do meu tempo. Foi exactamente isso que fiz: adequei Deleuze à recente manifestação em Roma. O que podes concluir é que é precisamente essa adequação às problemáticas do “meu” tempo que me leva a papaguear. Queda na representação.

    O tempo não é “meu”. E essas problemáticas estão longe de ser as de toda a gente, pese embora a homogeneização de mentalidades veiculada pelos dispositivos de massa. Não existe um tempo, mas vários ao mesmo tempo. Os teus problemas não são os meus. Papagueio algumas das nossas dissidências passadas, por hábito e memória, duas repetições.

    Mas não é isso que interessa. O que interessa é até que ponto o som se dissolve no mar. É só o que interessa. O resto são pormenores e já não sei quem foi que disse que Deus está nos pormenores.

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