A potência da imaginação em Hume

«As paixões têm antes por efeito a restrição do alcance do espírito, a sua fixação em ideias e objectos privilegiados. Pois o fundo da paixão não é o egoísmo, mas, o que é ainda pior, a parcialidade: nós nos apaixonarmos inicialmente por nossos pais, nossos próximos e nossos semelhantes (causalidade, contiguidade, semelhança restritas). E isso é mais grave do que se fôssemos governados pelo egoísmo. (…)

O problema não é mais como limitar os egoísmos e os direitos naturais correspondentes, mas sim: como ultrapassar as parcialidades, como passar de uma “simpatia limitada” a uma “generosidade ampliada”, como estender as paixões, dar-lhes uma extensão que elas não têm por si mesmas? (…)

Como se pode inventar a extensão artificial que ultrapassa a parcialidade da natureza humana? É aí que a fantasia e a ficção tomam um novo sentido. (…)

Em suma, pertence à imaginação reflectir a paixão, fazê-la ressoar, fazer com que ultrapasse os limites da sua parcialidade e da sua actualidade naturais. Hume mostra como os sentimentos estéticos e os sentimentos morais são assim constituídos: paixões reflectidas da imaginação, que se tornam paixões da imaginação. Ao reflectir as paixões, a imaginação libera-as, estira-as infinitamente, projecta-as para além dos seus limites naturais. (…)
 

Deleuze, “Hume”, in “História da Filosofia – O Iluminismo, O século XVIII”, sob a direcção de François Châtelet.

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2 thoughts on “A potência da imaginação em Hume

  1. Concordo. a paixão é uma construção imaginativa, abstracta. por isso nos desiludimos tantas vezes quando o sonho da imaginação se perde. Mas a imaginação é isso mesmo. è estarmos sempre a sonhar :)

  2. Queria responder sem parecer truculenta, mas constato que leste demasiado depressa.

    As paixões tendem a restringir a imaginação e é só quando esta as reflecte que as paixões deixam de ser restrição para se tornarem liberdade e extensão ilimitada.

    Portanto, o que decepciona não é o sonho da imaginação, mas a paixão que não acedeu ao seu sonho e à sua imaginação. Foi assim que li.

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