Dormimos o universo

Este poema, de título secundado por uma flor, foi publicado por Pessoa ortónimo na revista “Contemporânea 3”, de 1926, e segue os moldes característicos dos “Ruba’iyat” de Omar Khayyam, nomeadamente, o esquema rimático AABA, em que um verso branco contrasta com os outros três da quadra. O padrão rítmico do ruba’i omariano obedece à versificação silábica do pentâmetro jâmbico, isto é, os versos são decassílabos com o icto marcando as sílabas pares.

«RUBA’IYAT

O fim do longo, inútil dia ensombra.
A mesma sp’erança que não deu se escombra,
Prolixa… A vida é um mendigo bêbado
Que estende a mão à sua própria sombra.

Dormimos o universo. A extensa massa
Da confusão das cousas nos enlaça,
Sonhos; e a ébria confluência humana
Vazia ecoa-se de raça em raça.

Ao gozo segue a dor, e o gozo a esta.
Ora o vinho bebemos porque é festa,
Ora o vinho bebemos porque há dor.
Mas de um e de outro vinho nada resta.»

Aro

renoir

“Menina com arco”, Renoir

esferaarmilar

Esfera armilar (1669) por Ferdinand Verbiest (em chinês, Nan Huairen, 1623–1688). Prata dourada e sândalo. Museu do Palácio de Pequim.

 

 

“So Alone”, music by Ty Segall, video by tab_ularasa

 

Barthes à deriva

Andava a ler Barthes, menos movida por pretextos ligados à actualidade do que à intemporalidade, mas nem por isso deixarei de corresponder às provocações do presente que passa e de lançar mais uma acha na fogueira (que só lamento não incendiar em francês).

A justificação de Monsieur François Wahl (vide este post com mais referências ao contexto) para censurar a anunciada publicação póstuma de inéditos de Roland Barthes precisa de ser confrontada com as formulações daquele em nome de quem pretensamente fala.

«Le registre de l’intime n’était en aucun cas, pour lui, destiné à la publication», diz o editor e crítico.

Esta frase alega que, para Barthes, o íntimo é o interdito, logo, texto de fruição, assim como é postulado em “O Prazer do Texto” (PT): «A fruição é in-dizível, inter-dita. Remeto para Lacan (…) “ela só pode ser dita entre as linhas”» (p. 59).

Nessa obra, Barthes aborda «a oposição do texto de prazer e do texto de fruição» (p. 58): «Texto de prazer: (…) aquele que vem da cultura. (…) Texto de fruição: aquele que coloca em situação de perda» (PT, p. 49 e sg.).

O íntimo, enquanto texto de fruição, escapa absolutamente à ordem da publicação literária: «O escritor de prazer (e o seu leitor) aceita a letra; renunciando à fruição (…), a letra é o seu prazer; está obcecado por ela, como o estão todos os que amam a linguagem (não a fala), todos os logófilos, escritores, epistológrafos, linguistas; (…) a crítica incide sempre sobre textos de prazer, nunca sobre textos de fruição (…). Com o escritor de fruição (e com o seu leitor) começa o texto insustentável, o texto impossível. Este texto está fora-do-prazer, fora-da-crítica (…): não se pode falar “sobre” um texto deste tipo, só se pode falar “dentro” dele» (PT, p. 59-60).

Tanto mais adentro, quanto ele é íntimo.

Olivier Corpet, director do IMEC e responsável pela polémica publicação, refere como contra-resposta, na “Magazine Littéraire” online, que o argumento da intimidade o faz sorrir: “Onde começa esta intimidade? Além disso, ele [Wahl] fala por alguém que já morreu” (in Público).

Onde reside a intimidade de alguém que já morreu? Um morto possui ainda «corpo de fruição»? «Um corpo de fruição composto unicamente de relações eróticas (…). O prazer do texto [inverso de “texto de prazer”, fruição] é o momento em que o meu corpo vai seguir as suas próprias ideias – pois o meu corpo não tem as mesmas ideias que eu» (PT, p. 53).

O que resta de um morto senão textos de cultura, textos de prazer? «A cultura que é tudo em nós excepto o nosso presente» (PT, p. 59).

Equívoco de Wahl: «quer por moralismo político, quer por crítica do significante» (PT, p. 50), estender a textos de prazer uma interdição que apenas se aplica em absoluto ao texto de fruição, «não por ser imoral, mas por ser atópico» (PT, p. 61).

Ironia do destino: a observação sobre Amiel (PT, p. 99), em que Barthes exprime «irritação por o editor, virtuoso (…) ter julgado proceder bem ao suprimir desse Diário os pormenores quotidianos», acabar por ser a antevisão dos precalços que estorvariam os seus próprios inéditos póstumos.

Mas são verosímeis os testemunhos de Wahl: «Roland m’avait très explicitement demandé de veiller à empêcher tout dérapage des publications après sa mort».

Irredutibilidade da morte, após a qual já nada pode derrapar. A derrapagem ou deriva consiste na fruição: «é um indirecto, um “derrapante”» (PT, p. 113), «é uma deriva, qualquer coisa que é simultaneamente revolucionária e a-social e que não pode ser fixada por nenhuma colectividade, por nenhuma mentalidade, por nenhum idiolecto» (PT, p. 61). Em virtude dessa deriva «revolucionária», se fosse vivo, certamente que, como declara Wahl, «Roland aurait été révolté». A deriva cabe aos que ainda se revoltam.

As três mulheres de Demóstenes

«We have “hetaerae” for pleasure, “pallakae” to care for our daily body’s needs and “gymnaekes” to bear us legitimate children and to be faithful guardians of our households».

– Demóstenes, “Contra Nero”.

 

Uma interpretação vulgar desta frase de Demóstenes é supor que alude a três estratos da hierarquia social feminina: das cortesãs (“hetaerae”) às esposas legítimas (“gymnaekes”), passando pelas concubinas (“pallakae”). Note-se a diferença de grau entre cortesã e concubina.

Mas por que não ler nela três regimes da mesma entidade feminina? Não faria mais sentido?

“Hetaera” significa “amiga, companheira, parceira, cúmplice”. “Hetera”, como prefixo de um substantivo, marca a diferença de elementos que o compõem, como, por exemplo, em “hetero-geneidade” ou “hetero-sexualidade”. As hetairas poderiam tornar-se aliadas na política ou nos negócios, pelo seu elevado estatuto intelectual e económico.

Quanto a “pallakae”, postula-se que derive em parte de “Pallas“, epíteto usurpado por Atena após a vitória contra o seu pai, um gigante demoníaco assim chamado, segundo algumas versões, ou após ter morto acidentalmente uma ninfa virgem, de acordo com outras. Atena adquire por herança os títulos dos que aniquila: Pallas, Pania, e, quiçá, mesmo Atena (“A Deusa”) não seja mais que uma apropriação subsequente à morte d’ “O Deus”, por excelência, Pã-Diónisos. “Pallas” é relacionado com “pallô”, o acto de brandir uma lança, mas também com “pala”, pedra, e “pallas”, virgem, signos característicos da deusa. Derivam deste termo nomes toponímicos como o monte Palatino e a Palestina (assim renomeada pelo imperador Adriano em 135 d.C.), e palavras como Palladium (a pedra caída do céu, roubada de Tróia para precipitar a sua destruição, considerada o pilar fundamental da cidade e a miniatura da deusa: «The Greeks learned from Helenus, that Troy would not fall, while the Palladium, image or statue of Athena, remained within Troy’s walls»), de que derivou palácio, mas também pertencem à mesma família Pilatos, Paulo, pilar, pelourinho, pila, pilha. Fora dos muros de Tróia, ocorre uma descaracterização e o Palladium, outrora depositário do fogo fálico, arrefece, solidifica-se em fria pedra, petrifica-se num monumento. “Phallas” precipita “Pallas”, tal como o fogo precipita a cinza: a ausência do som “ph” indica a dissipação do fogo sexual, a fria misoginia da deusa guerreira. Outrora troianos, tornamo-nos gregos, quer dizer, agregados, gregários, guerreiros. As “pallakae” consistiriam, pois, numa espécie de Amazonas, de guerreiras brandindo a lança ou o pénis (um dos outros títulos de Atena é “Pania”, que matou o pai “Pan” e substituiu-o pela flauta de Mársias), mas não o “phallus” nem a “phala” (falo e fala provenientes de “Phallas”). A razão pela qual se traduz “pallakae” por concubinas (literalmente, no latim, “aquelas com que me deito”; se se deitam por cima são “íncubos”, se se deitam por baixo são “súcubas”) deve-se ao facto de se equipararem às servas hebraicas com quem se procriava, apelidadas de “pilegesh”, étimo que remonta ao aramaico “palga-isha” para “meio-mulher”, facto assinalável na prática amazónica de extrair um dos seios, seccionando o corpo pela metade. A deusa ateniense é também estéril: quando o fogoso Hefesto, ferreiro dos deuses, ejacula na perna de uma Atena em fuga, ela limpa o sémen com um pedaço de lã e atira-o para a terra, fecundando Gaia, a autêntica mãe de todos.

“Gymnaekes”, à semelhança de “gymnon” do lado masculino (vide Derrida, “O animal que logo sou”, p. 43), designaria a nudez feminina. A ginástica (de “gymnastiké”, acto que se faz nu) e o ginásio (de “gymnasium”, lugar de actos que se fazem nus) na Grécia eram, respectivamente, uma actividade física e um lugar de movimento reservados a atletas de corpo inteiramente descoberto, cujo propósito era vir a integrar os Jogos do Olimpo e assim manter viva a chama do facho olímpico.

Demóstenes atribui a cada estirpe uma esfera distinta:
– por meio das amigas alcançavam-se prazeres;
– às guerreiras caberia cuidar das necessidades diárias do organismo (a luta do dia-a-dia pela subsistência);
– por último, esposar-se-iam fêmeas nuas, capazes de engendrarem filhos legítimos e de serem fiéis guardiãs do fogo do lar.

Passagens de nível, avanço ou recuo: do prazer hetáirico à realização do desejo de progénie, passando pela dessexualização das virginais concubinas.

Mas também uma mudança de meio ou de elemento: do mundo exterior da política e dos negócios ao interior do lar, atravessando campos de batalha; da heterogeneidade de reflexos, que pertence ao mundo das hetairas, até à conjunção ígnea das esponsais, domínios divididos pela cristalização intermediária das “pallakae”.

Para além do amor hetáirico e das guerras palacianas, descobrir a fogosidade atlética.

Em todo o caso, tê-las sempre às três, às três mulheres de Demóstenes, num “ménage à trois” (ou numa “hommage a Troie”) constitutivo de cada individualidade.

 

hetaera

“Hetaera” (1906), de Franciszek Żmurko (1859-1910).
Perdido entre 1939-1945.

 

palladium

Nikê (Vitória) oferece um ovo à serpente enrolada em volta da coluna encimada pelo “Palladium”, o qual a separa de um guerreiro, usando elmo e couraça, que depõe o seu escudo aos pés do troféu, interrompendo a sua actividade. Mármore grego, 1 d. C. Albani Collection.

 

chinese-olympic-stadium

Maquete de um projecto abandonado para o Estádio dos Jogos Olímpicos de Pequim.