Cenas sobre o vento

«Muito estranho sempre me pareceu
os homens adorarem um deus
e a vida a esse deus dedicarem
e diante dele se curvarem.
Que os deuses são feitos por dentro
da matéria da sombra ou do vento»

– Yüan Mei (1716-1797), tradução de Mª Ondina Braga, in “A Rosa do Mundo”, Assírio & Alvim.

 
«Take the case of the wind. When it blows through a house it lifts the edges of the carpet, and the rugs flap and move about. It whisks sticks and straws into the air, ruffles the surface of the pool until it looks like a coat of mail, sets trees and twigs and leaves a-dancing. All those conditions appear distinct and different, yet from the standpoint of the object, the root and reality, they are one thing—the movement of the wind».

 – Rumi, “Fihi ma Fihi”

 

“The Wind”, Victor Sjöström (1928):

The Ghost and Mrs. Muir” (1947): «Did I close the window before I went to sleep? You did, and scraped your finger. (…) It was a stormy night like this with half a gale blowing from the south-southwest into my windows… so I shut them as any sensible man would. (…) I always slept with my windows open. (…) I opened the window because I didn’t want another accident with the blasted gas.»

“American Beauty” (1999), Sam Mendes – «Sometimes there’s so much beauty in the world I feel like I can’t take it, like my heart’s going to cave in»

“Mon Oncle” (1958), Jacques Tati – ao minuto 7:20

“Onibaba” (1964), Kaneto Shindo:

“Pour le Mistral” (1966), Joris Ivens – «One day I will offer you mastery of the weather» (…) «The rose writes the rose and the waves will not perish if man finds his eyes at the end of space.»

“Une histoire de vent” (1988), Joris Ivens

“Yokihi” / “A Imperatriz Kwei Fei” (1955), Kenji Mizoguchi – cena final

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Tom e timbre

Quando morrem, os cavalos – respiram,
Quando morrem, as ervas – secam,
Quando morrem, os sóis – se apagam,
Quando morrem, os homens – cantam.

– Velimir Khlébnikov, 1913 (tradução de Haroldo de Campos)

 

 O livro único

Vi que os negros Vedas,
o Evangelho e o Alcorão,
mais os livros dos mongóis
em suas tábuas de seda
– como as mulheres calmucas todas as manhãs –
ergueram juntos uma pira
de poeira da estepe
e odoroso estrume seco
e sobre ela pousaram.
Viúvas brancas veladas numa nuvem de fumo,
apressavam o advento
do livro único,
cujas páginas maiores que o mar
tremem como asas de borboletas safira,
e há um marcador de seda
no ponto onde o leitor parou os olhos.
Os grandes rios com sua torrente azul:
– o Volga, onde à noite celebram Rázin;
– o Nilo amarelo, onde imprecam ao Sol;
– o Yang-tze-kiang, onde há um denso lodo humano;
– e tu, Mississipi, onde os ianques
trajam calças de céu estrelado,
enrolando as pernas nas estrelas;
– e o Ganges, onde a gente escura são árvores de ciência;
– e o Danúbio, onde em branco homens brancos
de camisa branca pairam sobre a água;
– e o Zambeze, onde a gente é mais negra que uma bota;
– e o fogoso Obi, onde espancam o deus
e o voltam de olhos para a parede
quando comem iguarias gordurosas;
– e o Tamisa, no seu tédio cinza.
O género humano é o leitor do livro.
Na capa, o timbre do artífice –
meu nome, em caracteres azuis.
Porém tu lês levianamente;
presta mais atenção:
és por demais aéreo, nada levas a sério.
Logo estarás lendo com fluência
– lições de uma lei divina –
estas cadeias de montanhas, estes mares imensos,
este livro único,
em cujas folhas salta a baleia
quando a águia dobrando a página no canto
desce sobre as ondas, mamas do mar,
e repousa no leito do falcão marinho.

– Velimir Khlébnikov, 1920 (tradução de Haroldo de Campos)

Ivan, ‘o Terrível’

«Natural science does not consist in ratifying what others have said, but in seeking the causes of phenomena».

– Alberto Magno

«”Albertus repente ex asino factus philosophus et ex philosopho asinus”
[Alberto, de repente, de burro foi feito filósofo e de filósofo burro]»

– Em “O Conceito de Angústia”, Sören Kierkegaard usa esta citação de G. O. Marbach para declarar que Alberto Magno, ao vangloriar-se das suas especulações diante da divindade, mostrou-se estúpido.

Certa noite, sonhei com o nome próprio “Ivan Illich”. Na altura, cometi um erro de interpretação: julgava tratar-se da personagem de uma novela de Tolstoi. Só recentemente, por andar à procura da referência de uma citação que, erradamente, também supunha de Tolstoi (raios! sempre a meter-se no caminho), é que dei com o real Ivan Illich, cuja obra (IIIIII) soa muito mais consistente com o meu sonho.

Ivan Illich é, antes de mais, uma pedrada no estagnado charco das instituições ou um sapo que a Igreja Católica teve de engolir. Devotou-se afincadamente aos estudos (em Física, ramo da Cristalografia, depois, Filosofia, Teologia e História Medieval, com um Pós-Doutoramento sobre o cosmos em Alberto Magno, sendo fluente em alemão, serbo-croata, inglês, italiano, francês, português, espanhol, latim, grego, hindi, etc.), antes de ser ordenado padre católico e ter ocupado altos cargos no seio do clero, mas, após anos de várias polémicas com o Vaticano – numa conferência, comparou a Igreja à Ford Motor Company, acusando-a de não ser mais do que uma burocracia -, abandonou o sacerdócio.

Mas a Igreja era apenas um dos seus múltiplos alvos. Para Illich, tratava-se de exorcizar a sociedade de todos os tipos de sacerdócio – de padres a professores, passando por médicos e psicólogos. Sempre polémico, Illich declarou que «um programa político que não reconheça explicitamente a necessidade de descolarização não pode ser considerado como revolucionário» e ainda que «a maior ameaça para a saúde no mundo era a medicina moderna», referindo-se às três modalidades da iatrogenia médica: a clínica (os danos colaterais provocados pelos tratamentos), a social (resultante da medicalização de muitos aspectos da vida, como o nascimento, o sexo ou a morte), e a cultural, a mais perversa (a desmobilização das defesas naturais para enfrentar a dor e a doença).

A abordagem do ex-estudante de Física à energia, pautada pelo mote “less is more”, é particularmente importante, partindo do postulado de que «não há movimento de verdadeira libertação que não reconheça a necessidade de adoptar uma tecnologia de baixo consumo energético». Assim:
– «It is urgent to clarify the reality that the language of crisis obscures: high quanta of energy degrade social relations just as inevitably as they destroy the physical milieu» (“Energy and Equity”);
– «The illusion that a high culture is one that uses the highest possible quantities of energy must be overcome»; «Each man’s ability to produce change depends on his ability to control low-entropy energy» (“Tools for Conviviality”).

Quanto à circulação, Illich viu claramente a ameaça que a tecnocracia representava para os movimentos humanos: «Computers are doing to communication what fences did to pastures and cars did to streets».

De entre os inúmeros trabalhos dedicados à escola, destacam-se “Deschooling Society” (1971), “Education without School?” (1974), “Imprisoned in the Global Classroom” (1976). Noutras áreas de intervenção, sobressaem “Energy and Equity” (1975) sobre o consumo de energia e a circulação no sistema de transportes; Medical Nemesis” / “A Expropiação da Saúde (1976) e “Limits to Medicine: Medical Nemesis – The Expropriation of Health” (1977) sobre a profissão médica e os hospitais; “Tools for Conviviality” (1973) onde reflecte acerca dos limites do crescimento da sociedade humana; e ainda “Celebration of Awareness: a call for institutional revolution” (1970), “Toward a History of Needs” (1978) e “Shadow Work” (1981), obras nas quais aborda diferentes questões sociais, aspectos históricos e económicos, e perspectivas de futuro.

Alguns excertos:

Deschooling Society” / “Sociedade sem Escolas

«A educação universal por meio da escolaridade não é possível. Nem seria mais exequível se se tentasse mediante instituições alternativas criadas segundo o estilo das escolas actuais. Nem novas atitudes dos professores para com os seus alunos, nem a proliferação de novas ferramentas e métodos físicos ou mentais (nas salas de aula ou nos dormitórios), nem mesmo a intenção de aumentar a responsabilidade dos pedagogos até ao ponto de incluir a vida completa dos seus alunos, teria como resultado a educação universal. A busca actual de novos canais educativos deverá ser transformada na procura do seu oposto institucional: redes educativas que aumentem a oportunidade de cada um transformar cada momento da sua vida num outro de aprendizagem, de partilha e de interesse. Acreditamos estar a contribuir trazendo os conceitos necessários a quem realiza tais investigações sobre as grandes linhas na educação – e também para quem procura alternativas para outros tipos estabelecidos de serviços».

«A escola parece estar destinada a ser a Igreja Universal de nossa cultura em decadência».

«A escola é um rito iniciatório que introduz o neófito a carreira sagrada do consumo progressivo.»

Education without School?

«É etiquetando todas as coisas, fazendo delas utensílios educativos, que a escola lhes faz perder a sua virtude viva» (pp.21).

«Os diplomas representam um obstáculo à liberdade da educação, fazendo do direito de partilhar os seus conhecimentos um privilégio reservado aos empregados das escolas» (pp.38).

«…uma espécie de recreio (em grego, “scholê”), porque esta actividade contenta-se com ter um sentido para ambos, sem se propor qualquer objectivo particular» (pp.58).

«A descolarização da sociedade extinguirá inevitavelmente as distinções entre a economia, a educação e a política, sobre as quais repousam a estabilidade do mundo actual e das nações» (pp.62).

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Tools for Conviviality

«Os médicos ocidentais fazem ingerir medicamentos às pessoas que anteriormente tinham aprendido a viver com as suas doenças. O mal que se causa é muito pior que o mal que se cura, pois se provocam novas espécies de doenças que nem a técnica moderna, nem a imunidade natural, nem a cultura tradicional sabem como enfrentar». (pp.17)

«…a crise radica no malogro da empresa moderna, isto é, na substituição do homem pela máquina. O grande projecto metamorfoseou-se num implacável processo de servidão para o produtor e de intoxicação para o consumidor». (pp.23)

«Eu não quero dar receitas para mudar o homem e criar uma nova socirdade e não pretendo saber como vão mudar as personalidades e as culturas. Mas tenho a certeza: uma multiplicidade de ferramentas limitadas e de organizações convivenciais estimulariam uma diversidade de modos de vida, que teriam mais em conta a memória, ou seja a herança do passado, ou a invenção, isto é, a criação». (pp.31)

«Uma sociedade convivencial é uma sociedade que oferece ao homem a possibilidade de exercer uma acção mais autónoma e mais criativa, com auxílio das ferramentas menos controláveis pelos outros». (pp.37)

“Inverting the Institutions”

«Todas as actuais estruturas politicas, que os rótulos liberais, marxistas, ou conservadores possuem, exprimem e impõem a produtividade à custa da convivialidade. Fornecem clientes às mercadorias em lugar de bens às pessoas. Os consumidores são forçados a comprar e a utilizar coisas de que não têm necessidade; não lhes permitem participar, como pessoas autónomas, no processo da escolha e ainda menos na produção». (pp.8 e 9)

«O mundo material é um sistema que tem os seus limites e, por definição, não pode suportar um subsistema material sem limites. A acumulação inevitável de resíduos duráveis, numa sociedade onde tudo se consome rapidamente, é uma coisa tão evidente que não quero insistir sobre ela. Num certo ponto, o meio físico forjado pelo homem torna-se numa jaula cujo fedor asfixia a natureza». (pp.15)

«O vício essencial das nossas actuais instituições não é devido a uma má gestão, nem a uma desonestidade oficial, nem a um atraso técnico. É devido a uma inversão fundamental das funções respectivas da produtividade e da convivialidade». (pp.16)

«A crise no ensino só pode ser resolvida por uma inversão da estrutura institucional. Pode ser dominada somente se as escolas actuais, com ou sem paredes, que preparam e autorizam programas para os estudantes, forem substituídas por novas instituições, assemelhando-se mais às bibliotecas e aos seus serviços anexos, que permitem, a quem quiser instruir-se, ter acesso aos utensílios e aos encontros que lhe são necessários para aprender a realizar as próprias escolhas». (pp.34)

«As nossas actuais instituições são crateras de alta pressão que, pela sua própria estrutura, contribuem para a proliferação de profissões e de para-profissões hierarquizadas. As instituições desejáveis, pela sua própria estrutura, obrigariam os dirigentes a permitirem a não especialistas instruirem-se, tratarem-se, mudarem de casa, uns com os outros, com a esperança de que as pessoas que tivessem participado uma vez numa dessas actividades especializadas iniciariam outras pessoas nas funções que, provisoriamente, estão nas mãos dos especialistas». (pp.71)

Energy and Equity

«Na minha análise do sistema escolar assinalei que numa sociedade industrial o custo do controle social aumenta mais rapidamente do que o nível do consumo de energia. Tal controle é exercido em primeiro lugar pelos educadores e médicos, pelas organizações assistenciais e políticas, sem contar com a polícia, o exército e os psiquiatras. O subsistema social destinado ao controle social cresce a um ritmo canceroso, convertendo-se para a própria sociedade na razão da sua existência». (pp.21)

«No momento em que uma sociedade se faz tributária do transporte, não só para as viagens ocasionais, mas também para as suas deslocações quotidianas, torna-se evidente a contradição entre a justiça social e energia motorizada, liberdade da pessoa e mecanização da estrada. A dependência em relação ao motor nega a uma colectividade precisamente aqueles valores que se considerariam implícitos no melhoramento da circulação». (pp.33)

«O homem move-se com eficácia sem ajuda de qualquer aparelho. Faz caminho a caminhar. A locomoção de cada grama do seu próprio corpo ou da sua carga, por cada quilómetro percorrido em cada dez minutos, consome-lhe 0.75 calorias. Comparando-o a uma máquina termodinâmica, o homem é mais rendível que qualquer veículo motorizado, que consome pelo menos quatro vezes mais calorias no mesmo trajecto. Além disso, é mais eficiente que todos os animais de peso comparável. Só o vencem o tubarão e o cão, mas apenas por pouco. Com este índice de eficiência de menos de uma caloria por grama, organizou historicamente o seu sistema de circulação, baseado prevalecentemente no trânsito». (pp.69)

Bibliografia:

Illich, I. (1973). A Convivencialidade. Lisboa: Publicações Europa-América.

Illich, I. (1974). Educação sem Escola? Lisboa: Editora.

Illich, I. (1975). Energia e Equidade. Lisboa: Sá da Costa, 1ª edição (cadernos livres nº.7)

Illich, I. (1973). Inverter as Instituições. Lisboa: Moraes Editores.

Um voto limpo

Dirigi-me ao supermercado para comprar, entre outras coisas, artigos de limpeza. Calhou ter tempo para parar e re-parar nos rótulos e constatar que a esmagadora maioria traz este símbolo, usado para sinalizar “substâncias nocivas ou irritantes”:

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Então ia dar dinheiro pela nocividade e pela irritação?

Não devia ser mais selectiva sobre aquilo onde vou aplicar capital, dando continuidade à sua existência? Porque o dinheiro é o verdadeiro voto desta sociedade (o outro voto, o de papel, é só para calar acusações de inconstitucionalidade) – e, portanto, conforme esta lógica, quem tem mais dinheiro, possui maior permilagem de votos e poder de influenciar os destinos da macropolítica.

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Mas como é que produtos como estes – nocivos e irritantes (para não falar dos “Tóxicos”, o sinalzinho cadavérico) – conquistam os votos das pessoas? Gostamos de estar doentes e irritados?

Que incongruência esta: a do veneno ser usado como apanágio da higiene; o que é poluente, o que conspurca, ser considerado ingrediente de limpeza! O cúmulo da contradição: lavarmos através da sujidade (como os porcos que se esfregam na lama?).

Há que entender, de uma vez por todas, o ambiente como um invólucro que nos envolve, que vestimos como uma roupa larga: como podemos andar limpos quando emporcalhamos o vestido de nódoas (ou pior, de manchas corrosivas)? Ninguém se livrará de receber no corpo o plástico que andámos a espalhar durante décadas… Mas não vai a crise servir de justificação para a indústria dos plásticos continuar em plena actividade? Warhol dizia «Everybody’s plastic, but I love plastic. I want to be plastic», mas referia-se aos plásticos inertes e não-biodegradáveis ou à plasticidade de um movimento como as artes plásticas?

Escrevo também na esperança de que as corporações (como a Lever e que tais) despertem para um nicho de mercado por explorar e lancem detergentes biológicos. Por exemplo, desenvolvam soluções à base de vinagre, a suma essência da desinfecção inócua, entre outros produtos e fórmulas ecológicas e económicas.