Breve ensaio sobre a dádiva

Convém esclarecer antecipadamente que, quando falo de dádiva, penso em actos, fluxos, em detrimento de coisas ou ideias. Por extensão, quando falo de retorno, penso na curva de volta e contra-volta de uma sinusóide, ao invés da devolução de um objecto. Consequentemente, quando falo de valor, não se trata do preço de mercado de um item específico, mas do grau de desejo que o desejante nutre pelo que é desejado.

A dádiva é, tal como um tesouro (e nem tudo o que luz é ouro), algo de precioso, sobretudo por poder constituir-se motor de um fluxo em ziguezague ou vaivém (dar para receber, receber para dar) que expande as possibilidades e intensidades dos seres: quando a dádiva a nós retorna, a nossa potência de agir (de renovar e redobrar a dádiva da próxima vez) aumenta.

É, por isso, que é sempre mais inteligente dar do que tirar.

Tirar produz o mal-estar alheio, o qual, por contágio – e nós somos seres de contágio – se propaga e acaba por nos infectar também.

Tal não quer dizer que a dádiva deva ser atribuída indiscriminadamente. Se o objectivo é estender ao máximo o seu proveito, a dádiva só deve ser cedida a quem estime o seu valor e saiba agradecer, isto é, beneficiar da sua graça, e por ser de graça.

Em caso de dúvida, não dar nem tirar.

Dar, a fundo perdido, àqueles que não sabem (de)volver ou (re)tornar, é desperdiçar recursos (materiais, energéticos, afectivos) em vão, quando, ao lado desses, esperam outros mais capazes de gratidão, mais habilitados para atingir a graciosidade.

O altruísmo é, pois, uma arte comedida que se equilibra entre a generosidade (a que não deve faltar o génio nem a génese) e a temperança (“sophrosyne”).

Dar com moderação é mais frutífero do que cair, por um lado, no despesismo, no desbarato, por outro, no egoísmo, na avareza, na usura.

A solidariedade vulgar prima pelo esbanjamento sem contra-partida, ou seja, sem regresso (“há mar e mar, há ir e não voltar”), defeito que foi ultrapassado pelo sistema de micro-crédito concebido por Muhammad Yunus, o qual concede empréstimo a pobres, sob condição de honrarem o compromisso de gerarem receitas para poderem vir a retribuir.

Actualmente, o que precipitou a ruptura e a des-credibilização do sistema económico-financeiro a nível global deveu-se à desmedida com que se distribuíram créditos e se deu credibilidade a qualquer um. Contraíram-se dívidas irrecuperáveis, dispenderam-se recursos sem critério nem mérito. O sistema colapsou sob o peso da sua tara: a de investir em tara perdida.

O mesmo se aplica às relações afectivas: para quê insistir num afecto para o qual não se prevê qualquer condescendência? Pura exaustão ou esgotamento das forças anímicas.

Em qualquer caso, dar a quem o aproveita, ou seja, a quem possui apetite, a quem o deseja. “Lo aprovecha!” é o imperativo usado pelos espanhóis, como voto de “Bom apetite!”, e, de facto, se alguém não almeja intensamente receber determinada oferenda, não saberá dar-lhe apreço, isto é, apreciá-la como não tendo preço.

É o desejo o que nos move e colore a fruição.

«Lo aprovecha!»

Schopenhauer sobre Fichte, Schelling e Hegel

«A meu ver, Fichte, Schelling e Hegel não são filósofos; falta-lhes a condição primacial: o estudo sério e honesto. São simples sofistas; não querem ser mas parecer; não buscavam a verdade mas o interesse e vantagem próprios. Funções públicas, honorários pagos (…), e como meio, o maior ruído e ostentação com o ar de filosofia (….). Tiveram o talento incontestável – mas de modo nenhum filosófico – de iludir o público e mostrar-se o que não eram. Nada verdadeiro fizeram em filosofia, porque o seu intelecto não era livre, e estava subordinado à vontade, o que podendo ser muito útil a esta e aos seus fins, não o é à filosofia e à arte, que, pelo contrário, exige do intelecto o exercício independente da sua actividade e o abandono da vontade, isto é, do interesse pessoal. (…) Para ser filósofo, quer dizer, amigo da sabedoria (que não é senão a verdade) não basta amar a verdade até onde ela for conciliável com o interesse próprio, ou com as regras da Igreja, ou com os preconceitos e preferência dos contemporâneos (…).

Como os três sofistas citados, ora se adapta um falso “pathos”, ora uma seriedade artificial, ora um ar soberbo e concentrado, para dominar, na falta de poder convencer; escreve-se sem critério (…); os sofismas substituem as provas; recorre-se à intuição intelectual, a meditações absolutas, ao movimento próprio das noções (…).

Depois quando o impudor chega e além disso é estimulado pela ignorância da época, dir-se-á pouco mais ou menos: “Não é difícil compreender que o modo consistente em enunciar uma proposição, em dar as razões em que se funda e em refutar também por meio de razões a tese oposta, não é a forma em que pode aparecer a verdade. A verdade é o movimento de si mesma e por si mesma”, etc. (Hegel, prefácio à “Fenomenologia do Espírito”).

Quanto a mim, penso que “não é difícil compreender” que quem assim se apresenta é charlatão descarado no intuito de deitar poeira nos olhos dos tolos (…).

Daí que, naturalmente, um sentimento penoso nos domina, ao passar dos verdadeiros pensadores às obras de Fichte, de Schelling e em especial aos contrasensos que Hegel, com ilimitada mas justa confiança na imbecilidade (…), teve a audácia de produzir por escrito [nota de Schopenhauer: “Para embrutecer um adolescente e incapacitá-lo de pensar, não há melhor do que o estudo assíduo de Hegel, porque as monstruosas acumulações de palavras que se anulam e contraditam, e onde o espírito procura inutilmente assunto de reflexão até se esgotar no esforço, de tal modo lhe destruirão a faculdade de raciocinar que desde então as frivolidades mais ocas lhe parecerão pensamentos profundos”].

Nos primeiros há uma investigação leal da verdade e esforços leais para comunicar o pensamento. Por isso nos encanta e eleva ler Kant, Locke, Hume, Malebranche, Spinoza, Cartesius; solidarizamo-nos com um espírito nobre que pensa e faz pensar.

O contrário se dá com aqueles três sofistas alemães. Quem desprevenidamente os ler, em breve decidirá se se trata de um pensador que quer instruir ou de um charlatão que pretende enganar, a tal ponto ali se sente a deslealdade. O tom de investigação serena dos filósofos anteriores foi substituído pelo de segurança inabalável, própria do charlatanismo sempre e em toda a parte, fundado em uma pseudo-intuição intelectual imediata ou sobre um raciocínio absoluto, isto é, independente da falibilidade individual.  (…)

Esta pseudo-escola pós-kantiana caracteriza-se pela improbidade, tem por elemento o charlatanismo, por fim o interesse pessoal. Sofistas, não filósofos (…).

O tom de queixa e de censura, acompanhamento obrigado dos escritos de Schelling, condiz com as atitudes já referidas. (…) Schelling, decerto o melhor dos três, poderia ter tido em filosofia o lugar secundário de um ecléctico de grande utilidade provisória, por ter fabricado com as doutrinas de Plotino, Spinoza, Jacob Boehme, Kant, e com a ciência natural moderna um conjunto capaz de preencher transitoriamente o grande vácuo produzido pelos resultados negativos da filosofia kantiana, até nascer uma filosofia nova, capaz de satisfazer as exigências da anterior. (…) Revestir de carne e cor este esqueleto, dar-lhe quanto possível vida e movimento graças à ciência da natureza, já muito adiantada, embora muitas vezes aplicando-a falsamente, este o mérito incontestável de Schelling na sua filosofia natural, que é o melhor entre os seus ensaios. (…)

Schelling, com o sistema da identidade do real e do ideal, anula a diferença entre eles, de modo que tenta destruir e confundir o que longas meditações tinham separado (Schelling, “Da relação entre a filosofia natural e a de Fichte”). (…) Schelling identificou a metafísica e a física e baseou o alto título de Anima Mundi em uma pura diatribe físico-química. (…) Tudo isto é afinal um apelo ao senso chamado comum, isto é, ao senso bruto. (…)

Esta expressão inadequada recebida por Schelling levou Hegel, charlatão sem espírito nem gosto, e nesse ponto títere de Schelling, a deturpar mais a questão; na sua opinião é o próprio pensamento, portanto os conceitos, idêntico com a essência das coisas, o pensamento abstracto, como tal e directamente, seria idêntico ao que existe em si e objectivamente; e a lógica seria também a verdadeira metafísica; bastaria deixar mover os conceitos para conhecer absolutamente o mundo exterior. Todos os desvarios de uma caixa craniana seriam assim reais e verdadeiros. (…)

Se os professores de filosofia continuam a levar a sério os três sofistas e a dar-lhes lugar na história da filosofia é porque se trata do seu gagne-pain; assim expõem oralmente ou por escrito a pretensa filosofia pós-kantiana e discutem a sério a doutrina daqueles sofistas, que nem merecem referência; a não ser que se tomassem como drogas as escriturices de Hegel, mandando-as para as farmácias como vomitório psíquico; na verdade, provocam enjoo específico».

 

 – Schopenhauer, apêndice a “Esboço de História da Teoria do Ideal e do Real”.

‘Everyone is right from his own standpoint’

É vulgar pretender que a chamada “filosofia New Age” é parente pobre ou impostora em relação à filosofia pretensamente “séria”. Subscrevemos Fernando Pessoa, quando observava que, mesmo um charlatão, diz, sem saber, algumas verdades. O charlatão é percorrido por agenciamentos colectivos de enunciação que o falam, independentemente do que fala o seu ego consciente. Além do mais, há charlatães tanto no caldeirão cultural a que se convencionou chamar New Age (para onde se atira tudo o que não tresanda ao método científico ocidental) como na Academia (por exemplo, recorde-se que Schopenhauer apelida Hegel de «charlatão descarado», ou, mais recentemente, insinuou-se o charlatanismo de Derrida). Mas, para o leitor activo, mesmo o mais flagrante charlatanismo, lhe pode servir para fazer operar o processo de uma qualquer verdade. Não há, pois, disciplinas pobres, o que há são discípulos de visão empobrecida e alguma preguiça mental, pre-juízo causado pelo pre-conceito com que se pre-ocuparam.

O que se segue é uma confrontação (cf.) transdisciplinar entre os ditos da indiana Sri Anandamayi Ma e outros pensadores da cultura autêntica:

 

«I find one vast garden spread out all over the universe. All plants, all human beings, all higher mind bodies are about in this garden in various ways, each has his own uniqueness and beauty. Their presence and variety give me great delight. Every one of you adds with his special feature to the glory of the garden».

[cf. Kafka a Janouch: «Cada um de nós, do mais hirsuto cardo à mais elegante palmeira, tudo sustenta o espaço celeste acima de nós, a fim de que o edifício gigantesco, o edifício gigantesco do nosso universo, não desabe. É preciso olhar para além das coisas, e então talvez as compreendamos».]

 

«As you love your own body, so regard everyone as equal to your own body. When the Supreme Experience supervenes, everyone’s service is revealed as one’s own service. Call it a bird, an insect, an animal or a man, call it by any name you please, one serves one’s own Self in every one of them».

«All paths are my paths. (…) I have no particular path».

«Everyone is right from his own standpoint. How can one impose limitations on the Infinite by declaring: ‘This is the only path’?».

[cf. Ibn Arabí: «My heart has become capable of every form:/ it is a pasture for gazelles and a convent for Christian monks,/7and a temple for idols and the pilgrim’s Ka’bah,/ and the tables of the Torah and the book of the Qur’an./ I follow the religion of Love: whatever way Love’s camels take,/ that is my religion and my faith».]

 

«Seja qual for a situação em que a providência o colocar a qualquer instante, lembre-se de que é o que há de melhor».

[cf. Goethe: «O que acontece é o ensinamento»]

 

«Sorria o mais que puder. Fazendo isto, todos os nós rígidos no seu corpo serão afrouxados. Tornando seus os interesses das outras pessoas, busque refúgio a seus pés com total entrega. Então você verá o quanto o riso que flui do seu coração irá iluminar o mundo».

[cf. Nietzsche: «We should call every truth false which was not accompanied by at least one laugh».]

 

«The individual suffers because he perceives duality».

«Vocês lamentam e choram quando uma pessoa vai para outra sala da casa? A morte está inevitavelmente conectada à vida».

[cf. toda a crítica das dicotomias e oposições do logocentrismo analítico]

 

«Não é necessário comida alguma para preservar o corpo. Eu me alimento para manter uma aparência e um comportamento normal, de forma a que você não se sinta desconfortável comigo».

[cf. Deleuze sobre Kafka: «Há, pois, uma certa disjunção entre comer e falar – e mais ainda, apesar das aparências, entre comer e escrever. (…) A escrita transforma mais as palavras em coisas capazes de rivalizar com os alimentos. Disjunção entre conteúdo e expressão. Falar, e sobretudo escrever, é jejuar»; «… duas ciências, a da alimentação, que é da Terra e da cabeça baixa (“Onde é que a Terra vai buscar esta comida?”), e a ciência musical, que é do ‘ar’ e da cabeça levantada, como o comprovam os sete cães músicos do começo e o cão cantor do final. Há, no entanto, algo de comum entre ambas visto que a comida pode vir de cima e que a ciência da alimentação só progride com o jejum, assim como a música é estranhamente silenciosa».]

O tridente da matéria

Durga, Kali e Tarapith, diferentes aspectos de uma mesma matéria (de “mater”, mãe), não se confundem.

Encontra-se um desdobramento análogo:
–  nas três Moiras/Parcas greco-romanas (Cloto/Nona, Láquesis/Décima, Átropos/Morta);
– nas três matronas célticas;
– na tríade de deusas pré-islâmicas Uzza-Allat-Manat,;
– nas três mães da Cabala (Aleph, Mem, Shin);
–  nos trios femininos de Boticelli;
–  na tricéfala Dou Mu taoísta;
– nas três mulheres de Demóstenes – «temos as “hetaerae” para o prazer, as “pallakae” para cuidar das necessidades diárias do organismo, e as “gymnaekes” para engendrarem filhos legítimos e serem fiéis guardiãs do lar» (“Contra Nero”).

 

durga_kali

Os três aspectos da matéria: Durga, Kali e Tarapith


kali

Kali, com a característica língua de fora 

 

dippermother

Dou Mu (séc. XVIII)

 

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As três matronas célticas (“The Aufanian Mothers”, Rheinisches Landesmuseum, Bonn)

 

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Pintura de Botticelli: o desacordo das três estações à direita (Outono, Verão, Primavera) dobra-se no acordo dançante das três Graças à esquerda; entre um regime e outro, a Vénus de capa vermelha.

 fates

Fragmento de um relevo romano, de Schloss Tegel, Berlim. As três Moirai (“mortes”), Parcas (“as que pariram/partiram”) ou Fados/Fadas (“as que falaram”), filhas de Zeus e Témis. Cloto, tecedora do fio da vida humana, segura a roca; Láquesis, distribuidora da boa ou da má fortuna, transporta o rolo e o globo; Átropos, a exterminadora, carrega uma tesoura ou uma escala. Simbolizam, respectivamente, o nascimento, a plenitude e a velhice.

 

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“O Triunfo da Morte ou os Três Destinos”. Tapeçaria flamenga (c. 1510-1520), Victoria and Albert Museum, Londres. As três Mortes triunfam sobre o corpo quedo da Castidade, que jaz sob elas.