A ecosofia segundo Nietzsche

«Interessa-me de modo bem diferente um problema do qual, muito mais do que qualquer curiosidade de teólogos, depende a saúde da humanidade: o problema da nutrição. Em forma corrente, pode cada homem pôr-se tal problema nestes termos: “Como hás-de alimentar-te para chegar a possuir o mais alto grau de “virtude””, segundo o estilo do Renascimento, de virtude liberta de todo o elemento moral?”. (…) As bebidas alcoólicas são-me prejudiciais; um copo de vinho ou de cerveja num só dia basta para tornar-me a vida um “vale de lágrimas” (…). A meio da vida, decidi libertar-me de toda a espécie de bebida “espirituosa” (…). A água basta… tenho especial preferência pelos lugares onde se oferece a possibilidade de acesso a mananciais (Nice, Turim, Sils); trago sempre comigo um copo. (…) Para mim, “o espírito é levado sobre as águas”… Ainda um par de observações (…). A primeira condição para a boa digestão é que o estômago entre totalmente em actividade. (…) Nada de refeições intermediárias, nada de café, o café ensombra-nos o ânimo. O chá só é bom pela manhã. (…) Estar o menos possível sentado; não confiar em ideia alguma que não tenha surgido ao ar livre e, quando caminhamos, em nenhuma ideia na qual os músculos não tenham festiva parte. (…) A sedentaridade – já uma vez o disse – é o autêntico pecado contra o Espírito Santo.

Liga-se estreitamente com o problema da alimentação o problema do “lugar” e do “clima”. (…) A influência climática sobre o metabolismo, sua inibição, sua aceleração, vai tão longe, que um erro na escolha do lugar e do clima, é bastante não só para tornar um homem desatento à sua tarefa, mas para lha esconder e até ocultar por completo. (…) O ritmo do metabolismo está em relação com a agilidade ou o embaraço dos “pés” do espírito; o próprio espírito nada mais é que uma forma deste metabolismo. (…) Quando agora, pela longa prática, me é dado inferir em mim, como em instrumento delicado e sensível, os efeitos das causas climáticas e meteorológicas, quando, numa breve viagem, como por exemplo de Turim a Milão, calculo através da minha própria fisionomia a alteração da humidade na atmosfera – penso com terror na funesta circunstância devido á qual a minha vida até há dez anos atrás decorreu em sítios não apropriados e, para falar com rigor, adversos à minha maneira de ser. (…) A ignorância “in physiologicis”, o maldito “idealismo”, é a autêntica fatalidade da minha vida, é o que há de dispensável e estúpido, coisa da qual nada de bom surgiu e para a qual não existe compensação alguma. (…) Toda a minha dieta intelectual, horário de trabalho inclusive, constituiu dispêndio, o mais insensato possível, de enormes energias, sem nenhum equivalente compensador e até mesmo sem me aperceber reflectidamente do dispêndio excessivo e da necessidade de compensação. Faltava toda a delicada autonomia, outra forma de protecção do instinto impetuoso; e assim me equiparava eu a qualquer outro, mostrando “desinteresse” (…). Quando atingi quase o fim, e por isso mesmo estava quase no fim, comecei a meditar nesta sem-razão fundamental da minha vida – o “idealismo”. A doença, e só ela, me conduziu à razão.

À escolha da alimentação, à escolha do clima e do sítio adequado para viver – uma terceira se acrescenta, na qual também cumpre evitar todo o erro, e é essa a escolha da forma de divertimento. (…) Não está por certo no meu modo de ser o ler muitas coisas nem muito diversas: uma sala de biblioteca põe-me doido. (…) Creio só na cultura francesa e tenho por equívoco tudo quanto na Europa se chame “cultura” (…)» – “Ecce Homo”, p. 42-46.

Artaud encontrou nos Tarahumara (“pé que corre”) algo de equivalente ao “homem corrente” de Nietzsche, à “água que corre” de Margueritte Yourcenar, e ao “atletismo afectivo” de Deleuze.

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