Do assassínio enquanto função pública

Eles aparecem em qualquer altura: pode ser às oito da manhã ou às três da tarde, seja no Verão, seja no Inverno. Trazem moto-serras na mão e sacos negros. Vêm matar e amortalhar a morte. Têm a missão e a frieza dos psicopatas, mas, a coberto de se haverem banalizado como um qualquer serviço público, gozam de indiferença por parte dos contribuintes que não se importam de remunerar maus tratos, chacinas em massa, contaminações epidémicas, fomento de doenças respiratórias, etc.

Cometem-se barbáries ecológicas, em nome de um antropocentrismo cujo propósito, a curto prazo, é destruir a harmonia com as outras espécies, e, a longo prazo, contribuir para a auto-destruição da própria espécie humana. É que a autêntica ecologia não é a disciplina da condescência ou da piedade do homem pelas outras espécies, é, antes de mais, um método para o homem atingir o bem-estar conjunto. É que não existe real bem-estar que não tome em consideração o conjunto (quem pode considerar saudáveis as ruas desertas do Leblon, de condomínios de luxo fechados sobre si, expurgados de qualquer contacto com a favela e com o que vem de fora?).

Quem são eles? Neste caso específico, são os jardineiros camarários.

Muitas das situações resultam, quer da falta de planeamento das câmaras, quer da incompetência crassa e da falta de formação profissional por parte daqueles que perpetram os crimes de jardinagem.

Por exemplo:

– com frequência escolhem-se árvores que atingem facilmente grande porte e grande desenvolvimento radicular para serem plantadas em ruas estreitas e acanhadas – bastaria, tão só, adequar a espécie a plantar ao espaço disponível para esta se desenvolver, deixando choupos, tílias e plátanos para zonas mais amplas, como parques e jardins – ao falhar a mera consulta de manuais de botânica e jardinagem, a solução é passar o tempo a cortar e a replantar, nunca permitindo que as árvores atinjam a maturidade e a longevidade necessárias para se tornarem mais robustas e resistentes e darem o melhor de si, alcançando os níveis máximos de produção de oxigénio e renovação da atmosfera;

– muitas vezes também se planta um número exagerado de árvores, deixando pouco espaço entre elas, daqui resultando que, passados alguns anos, o crescimento das copas de umas começa a interferir com as copas vizinhas, e depois, já se adivinha, toca a podar de forma radical – bastaria plantar um menor número de exemplares e aguardar que estes desenvolvessem as respectivas copas naturalmente, sem mutilações;

– o Inverno é a estação por excelência para podar as árvores e arbustos, contudo, algumas espécies não devem ser podadas nesta época pois irão “sangrar” seiva abundantemente, é o caso de, entre outras, áceres, bétulas, cerejeiras, magnólias, nogueiras, ulmeiros, os quais devem ser podados no Verão ou no Outono – ora, é fácil de observar com quanta arbitrariedade os jardineiros camarários actuam, sem respeito algum pelos ritmos biológicos das espécies de que é suposto estarem encarregues de cuidar;

– as podas debilitam as árvores e originam copas desordenadas, pois provocam o desenvolvimento de rebentos de grande fragilidade mecânica e de ramos verticais que crescem de uma forma desorganizada e muito mais densa;

– quanto às alergias supostamente provocadas pelas árvores, e como há quem solicite podas à Câmara porque as flores, o pólen, os frutos ou as sementes, lhes causam reacções alérgicas, há que informar que é pior a emenda que o soneto, pois, no ano seguinte, irá aumentar a floração e, logo, a produção de pólen, frutos e sementes – as pessoas tendem a esquecer que, na base das alergias e das fragilidades respiratórias, estão as substâncias libertadas pelas várias indústrias e pelos automóveis, razão suficiente para levar a cabo uma cruzada anti-podas para poupar as árvores que nos fazem o favor de filtrar a poluição do ar que respiramos, além disso, as plantas que causam maior número de alergias são as gramíneas, como os cereais, e não penso que se esteja a considerar a hipótese de deixar de plantar o trigo ou o centeio, com o qual fazemos o pão que comemos todos os dias;

– quando os mais velhos nos diziam, com razão, “vai pela sombra”, eles viam grande vantagem em ter o sol do meio-dia cortado pelas grandes copas, que climatizavam o ambiente de forma mais económica e eficaz que o dispêndio energético com ares condicionados e ventoinhas, para além de nos protegerem de cancros na pele;

– a moda das “energias renováveis”, quando se limita a aderir ao “hype” mediático, em vez de se informar devidamente sobre os processos e ciclos naturais em que vai intervir, pode fomentar efeitos contrários aos anunciados: é o caso da colecta dos resíduos vegetais dos jardins que são encaminhados para a queima em centrais de biomassa (versão vegetal de incineradoras), promovendo o empobrecimento e a desertificação dos solos e destituindo assim o terreno e as espécies que o habitam dos nutrientes com que o húmus o enriqueceria, bastando, para isso, criar valas de compostagem.

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When music goes underground

nin

 Anaïs Nin

 

«We don’t have a language for the senses. Feelings are images, sensations are like musical sounds».

«The body is an instrument which only gives off music when it is used as a body. Always an orchestra, and just as music traverses walls, so sensuality traverses the body and reaches up to ecstasy».

«Jazz is the music of the body».

«I write emotional algebra».

«We write to taste life twice, in the moment, and in retrospection».

«To write is to descend, to excavate, to go underground».

«I am in a beautiful prison from which I can only escape by writing».

«The final lesson a writer learns is that everything can nourish the writer. The dictionary, a new word, a voyage, an encounter, a talk on the street, a book, a phrase learned».

«Only the united beat of sex and heart together can create ecstasy».

«I have the right to love many people at once and to change my prince often».

«What I cannot love, I overlook».

«Don’t let one cloud obliterate the whole sky».

«Anxiety is love’s greatest killer. It makes one feel as you might when a drowning man holds unto you. You want to save him, but you know he will strangle you with his panic».

«There came a time when the risk to remain tight in the bud was more painful than the risk it took to blossom».

«We don’t see things as they are, we see them as we are».

«Life shrinks or expands according to one’s courage».

«Living never wore one out so much as the effort not to live».

«Each friend represents a world in us, a world possibly not born until they arrive, and it is only by this meeting that a new world is born».

«We do not grow absolutely, chronologically. We grow sometimes in one dimension, and not in another, unevenly. We grow partially. We are relative. We are mature in one realm, childish in another».

« There are very few human beings who receive the truth, complete and staggering, by instant illumination. Most of them acquire it fragment by fragment, on a small scale, by successive developments, cellularly, like a laborious mosaic».

«I do not believe in man’s objectivity. In all his ideas, systems, philosophies, arts come from a personal source he does not wish to admit».

«Woman’s creation far from being like man’s must be exactly like her creation of children, that is it must come out of her own blood, englobed by her womb, nourished with her own milk. It must be a human creation, of flesh, it must be different from man’s abstractions. (…) Woman does not forget she needs the fecundator, she does not forget that everything that is born of her is planted in her. If she forgets this she is lost. What will be marvelous to contemplate will not be her solitude but this image of woman being visited at night by man and the marvelous things she will give birth to in the morning. God alone, creating, may be a beautiful spectacle. I don’t know. Man’s objectivity may be an imitation of this God so detached from us and human emotion. But a woman alone creating is not a beautiful spectacle. The woman was born mother, mistress, wife, sister, she was born to represent union, communion, communication, she was born to give birth to life, and not to insanity. It is man’s separateness, his so-called objectivity, which has made him lose contact, and then his reason. Woman was born to be the connecting link between man and his human self. Between abstract ideas and the personal pattern which creates them. Man, to create, must become man».

«Woman has this life-role, but the woman artist has to fuse creation and life in her own way, or in her own womb if you prefer. She has to create something different from man. Man created a world cut off from nature. Woman has to create within the mystery, storms, terrors, the infernos of sex, the battle against abstractions and art. She has to sever herself from the myth man creates, from being created by him, she has to struggle with her own cycles, storms, terrors, which man does not understand. Woman wants to destroy aloneness, recover the original paradise. The art of woman must be born in the womb-cells of the mind. She must be the link between the synthetic products of man’s mind and the elements».

«I do not delude myself as man does, that I create in proud isolation. I say we are bound, interdependent. Woman is not deluded. She must create without these proud delusions of man, without megalomania, without schizophrenia, without madness. She must create that unity which man first destroyed by his proud consciousness».

«Man today is like a tree that is withering at the roots. And most women painted and wrote nothing but imitations of phalluses. The world was filled with phalluses, like totem poles, and no womb anywhere. I must go the opposite way from Proust who found eternal moments in creation. I must find them in life. My work must be the closest to the life flow. I must install myself inside of the seed, growth, mysteries. I must prove the possibility of instantaneous, immediate, spontaneous art. My art must be like a miracle. Before it goes through the conduits of the brain and becomes an abstraction, a fiction, a lie. It must be for woman, more like a personified ancient ritual, where every spiritual thought was made visible, enacted, represented. “A sense of the infinite in the present, as the child has».

«Woman’s role in creation should be parallel to her role in life. I don’t mean the good earth. I mean the bad earth too, the demon, the instincts, the storms of nature. Tragedies, conflicts, mysteries are personal. Man fabricated a detachment which became fatal. Woman must not fabricate. She must descend into the real womb and expose its secrets and its labyrinths. She must describe it as the city of Fez, with its Arabian Nights gentleness, tranquillity and mystery. She must describe the voracious moods, the desires, the worlds contained in each cell of it. For the womb has dreams it is not as simple as the good earth. I believe at times that man created art out of fear of exploring woman. I believe woman stuttered about herself out of fear of what she had to say. She covered herself with taboos and veils. Man invented a woman to suit his needs. He disposed of her by identifying her with nature and then paraded his contemptuous domination of nature. But woman is not nature only».

«She is the mermaid with her fish-tail dipped in the unconscious. Her creation will be to make articulate this obscure world which dominates man, which he denies being dominated by, but which asserts its domination in destructive proofs of its presence, madness».

«Man can never know the kind of loneliness a woman knows. Man lies in a woman’s womb only to gather strength, he nourishes himself from this fusion, and then he rises and goes into the world, into his work, into battle, into art. He is not lonely. He is busy. The memory of the swim in amniotic fluid gives him energy, completion. The woman may be busy too, but she feels empty. Sensuality for her is not only a wave of pleasure in which she has bathed, and a charge of electric joy at contact with another. When man lies in her womb, she is fulfilled, each act of love a taking of man within her, an act of birth and rebirth, of child-bearing and man-bearing. Man lies in her womb and is reborn each time anew with a desire to act, to BE. But for woman, the climax is not in the birth, but in the moment the man rests inside of her».

 

Agnés Varda, “Réponse des femmes”

Da liberdade assimptótica

Para o Tiago e para o Fábio

David J. Gross (Universidade da Califórnia, Berkeley), Frank Wilczek (Massachusetts Institute of Technology – M.I.T.) e H. David Politzer (California Institute of Technology – Caltech) receberam em 2004 o prémio Nobel da Física pela descoberta/invenção da chamada “liberdade assimptótica”, em artigos publicados na “Physical Review Letters” que datam desde 1973.

A “liberdade assimptótica” consiste numa relação não intuitiva – contrária ao que seria expectável – em que a força dita forte (que mantém a coesão entre os quarks, partículas constituintes do protão e do neutrão, os quais, por sua vez, constituem os núcleos dos átomos), a distâncias muito curtas, torna-se tão fraca que os quarks se comportam como partículas livres, enquanto que, aumentando a distância, ganha intensidade, impedindo que existam partículas isoladas. Passa-se algo de semelhante com a força elástica que actua numa mola: quanto mais esticada, maior é a força exercida. Quando os dois pólos de atracção tendem para uma vizinhança máxima, quando quase se tocam, a força forte torna-se fraca.

Este comportamento é contrário ao das outras três forças fundamentais: gravitacional, electromagnética e fraca (responsável pela radioactividade).

A “liberdade assimptótica”, extrapolada da dimensão subatómica para a dimensão molar, numa assumida apropriação filosófica de um postulado científico, coloca várias questões sobre a liberdade.

Somos mais livres na esfera da intimidade, isto é, em relação aos que nos são mais próximos, e somos propensos a sermos atraídos com mais força e intensidade para o que está mais longe de alcançar? A liberdade implica sacrificar ou restringir o espaço do seu território, fazer recuar o limite da sua propriedade ou privacidade? A excessiva proximidade provoca o enfraquecimento do desejo (fenómeno do orgasmo)? Para o fortalecimento do desejo contribui a distância relativamente ao pólo da atracção (fenómeno da saudade), numa relação directamente proporcional? O amável (atracção) à distância pode tornar-se detestável (repulsão) na intimidade? A liberdade e a força do desejo são grandezas inversamente proporcionais? A fórmula da velocidade é igual à distância percorrida dividida pelo intervalo de tempo que durou percorrê-la. Quanto maior for a distância e, logicamente, a duração de tempo do percurso, maior a velocidade adquirida (e, logo, a força da atracção), à semelhança do elástico de uma fisga que é tanto mais esticado quanto maior propulsão se pretende. Por outro lado, quanto menor a distância e, logo, maior a proximidade, mais liberdade e menor sujeição do movimento a qualquer força ou tensão. A onda-corpúsculo tende no limite para uma dança do acaso, um jogo de azar, puro caos.

Em que é que uma extrapolação mais, da esfera molar para a dimensão cósmica ou caósmica, nos poderia facultar um método para reverter, inverter ou subverter os efeitos da sobre-população? Um fractal do tipo “atractor estranho” é gerado, a partir do momento em que se atinge um determinado número de partes, interrelacionadas de forma íntima e, logo, caótica, com uma infinda liberdade de movimentos. É possível nova intensificação da força do desejo, recorrendo ao afastamento dos dois pólos que se atraem mutuamente, tal como se passa no “amor cortês” testemunhado pelas cantigas de amigo? Há sexualidade nos dois extremos – por um lado, sexualidade de comunhão, por outro, sexualidade de divórcio. Os dois extremos coexistem? São os dois mundos de Leibniz?

Sigo depressa, rápido demais, pateta, patética… quando é a lentidão que permite recuperar forças.

Música barroca

«La musique
en effet
n’est pas sans ambiguïté,
surtout
depuis la Renaissance,
parce qu’elle est
à la fois
l’amour intellectuel
d’un ordre et d’une mesure supra-sensibles,
et le plaisir sensible
qui découle de vibrations corporelles.
Plus encore,
elle est
à la fois
mélodie horizontale
qui ne cesse de développer toutes ses lignes en extension,
et harmonie verticale
qui constitue l’unité spirituelle intérieure ou le sommet,
sans qu’on sache bien
où l’une finit et où l’autre commence.
Mais précisément,
il appartient à la musique baroque
d’extraire l’harmonie de la mélodie,
et de restaurer toujours
l’unité supérieure
à laquelle les arts se rapportent
comme autant de lignes mélodiques:
c’est même cette élévation de l’harmonie
qui constitue la définition la plus générale
de la musique dite baroque».

– Deleuze, “Un critère pour le baroque“.