Da liberdade assimptótica

Para o Tiago e para o Fábio

David J. Gross (Universidade da Califórnia, Berkeley), Frank Wilczek (Massachusetts Institute of Technology – M.I.T.) e H. David Politzer (California Institute of Technology – Caltech) receberam em 2004 o prémio Nobel da Física pela descoberta/invenção da chamada “liberdade assimptótica”, em artigos publicados na “Physical Review Letters” que datam desde 1973.

A “liberdade assimptótica” consiste numa relação não intuitiva – contrária ao que seria expectável – em que a força dita forte (que mantém a coesão entre os quarks, partículas constituintes do protão e do neutrão, os quais, por sua vez, constituem os núcleos dos átomos), a distâncias muito curtas, torna-se tão fraca que os quarks se comportam como partículas livres, enquanto que, aumentando a distância, ganha intensidade, impedindo que existam partículas isoladas. Passa-se algo de semelhante com a força elástica que actua numa mola: quanto mais esticada, maior é a força exercida. Quando os dois pólos de atracção tendem para uma vizinhança máxima, quando quase se tocam, a força forte torna-se fraca.

Este comportamento é contrário ao das outras três forças fundamentais: gravitacional, electromagnética e fraca (responsável pela radioactividade).

A “liberdade assimptótica”, extrapolada da dimensão subatómica para a dimensão molar, numa assumida apropriação filosófica de um postulado científico, coloca várias questões sobre a liberdade.

Somos mais livres na esfera da intimidade, isto é, em relação aos que nos são mais próximos, e somos propensos a sermos atraídos com mais força e intensidade para o que está mais longe de alcançar? A liberdade implica sacrificar ou restringir o espaço do seu território, fazer recuar o limite da sua propriedade ou privacidade? A excessiva proximidade provoca o enfraquecimento do desejo (fenómeno do orgasmo)? Para o fortalecimento do desejo contribui a distância relativamente ao pólo da atracção (fenómeno da saudade), numa relação directamente proporcional? O amável (atracção) à distância pode tornar-se detestável (repulsão) na intimidade? A liberdade e a força do desejo são grandezas inversamente proporcionais? A fórmula da velocidade é igual à distância percorrida dividida pelo intervalo de tempo que durou percorrê-la. Quanto maior for a distância e, logicamente, a duração de tempo do percurso, maior a velocidade adquirida (e, logo, a força da atracção), à semelhança do elástico de uma fisga que é tanto mais esticado quanto maior propulsão se pretende. Por outro lado, quanto menor a distância e, logo, maior a proximidade, mais liberdade e menor sujeição do movimento a qualquer força ou tensão. A onda-corpúsculo tende no limite para uma dança do acaso, um jogo de azar, puro caos.

Em que é que uma extrapolação mais, da esfera molar para a dimensão cósmica ou caósmica, nos poderia facultar um método para reverter, inverter ou subverter os efeitos da sobre-população? Um fractal do tipo “atractor estranho” é gerado, a partir do momento em que se atinge um determinado número de partes, interrelacionadas de forma íntima e, logo, caótica, com uma infinda liberdade de movimentos. É possível nova intensificação da força do desejo, recorrendo ao afastamento dos dois pólos que se atraem mutuamente, tal como se passa no “amor cortês” testemunhado pelas cantigas de amigo? Há sexualidade nos dois extremos – por um lado, sexualidade de comunhão, por outro, sexualidade de divórcio. Os dois extremos coexistem? São os dois mundos de Leibniz?

Sigo depressa, rápido demais, pateta, patética… quando é a lentidão que permite recuperar forças.

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