Miyazaki unplugged

«If we throw mother nature out the window, she comes back in the door with a pitchfork».

– Masanobu Fukuoka

 

Entrevista a um velho-criança:

«No mundo da animação, não há ninguém acima do co-fundador da Pixar, John Lasseter. Mas quando se fala com este homem ele diz que a sua maior fonte de inspiração foi Hayao Miyazaki, o desenhador japonês de animação em 2D que insiste em usar imagens desenhadas à mão. “Ele é o maior animador vivo do mundo”, diz Lasseter sobre Miyazaki, que é indiscutivelmente o produtor de cinema mais bem sucedido do Japão. O seu filme vencedor de um Óscar de 2001, “A Viagem de Chihiro”, acerca de uma rapariga de dez anos presa num mundo de espíritos, mantém-se como o maior sucesso de bilheteira do país, e a Studio Ghibli, a empresa que fundou nos arredores de Tóquio, transformou-se numa espécie de monumento (existe até um museu muito popular que homenageia o seu trabalho).

Enquanto Lasseter, na Pixar, se lançou para o futuro com a animação por computador em 3D, Miyazaki preservou a tradição da animação em 2D desenhada à mão. Agora que a Pixar faz parte da Disney, Lasseter usou a sua influência para conseguir que o estúdio distribuísse nos EUA o mais recente filme de Miyazaki, “Ponyo à Beira-Mar” (…).

A frágil relação entre os humanos e o meio ambiente é um tema recorrente no trabalho de Miyazaki. Se andas por aí a brincar com a natureza, é melhor que tenhas cuidado! No seu filme mais recente, a busca de Ponyo provoca um desequilíbrio na Natureza que desencadeia um gigantesco tsunami. “É minha convicção pessoal que não podemos separar-nos da Natureza”, afirma ele. “À medida que formos penetrando mais fundo dentro de nós, acabaremos por alcançar o ponto do nosso regresso ao oceano. Estamos ligados.” Ele encontrou o dele neste filme – embora a água do mar, explique, seja a coisa mais difícil de animar. “Disse ao meu pessoal que desenhasse o oceano com vida, pois é um ser vivo e mostrar a forma ou movimento da água e das ondas não chega. Eles desenharam o oceano com uma data de lixo, porque é assim que ele está hoje. Não estou a dizer se isso é bom ou mau, mas creio que o oceano neste filme está bastante mais limpo do que o oceano verdadeiro.”

A história da relação do Japão com o mar foi, diz, determinante para imaginar “Ponyo à Beira-Mar”. “Ao longo de muitos, muitos, muitos séculos, o nível das águas subiu e causou erosão da terra; noutros períodos, a água recuou e deixou a terra com uma forma diferente. Por isso, vamos esquecer o aquecimento global e todos os estados anormais da Natureza hoje, pois sempre houve constante interacção entre o Homem e a Natureza. O problema é que os seres humanos têm um tempo de vida limitado, de menos de cem anos”. Fala mais baixo: “Olhe, eu nunca quis fazer um filme para criar mais ansiedade ou receio de um contratempo. Esse é o lado negativo da emoção, não é o meu objectivo quando faço cinema. Os japoneses não são bons em explosões emocionais. Quando um terramoto atingiu o Japão e houve uma casa que ficou destruída, o proprietário apareceu na reportagem do noticiário com um sorriso na cara: ‘Oh, a minha casa ficou simplesmente destruída. Tenho de viver assim.’ Eu gosto desta mentalidade japonesa: as catástrofes naturais fazem parte da nossa vida e vivemos em consonância com elas, em vez de nos opormos.”

Na verdade, o homem que temos à frente possui claramente um sentido de humor de miúdo – ainda que sendo uma espécie de deus no Japão. (…) Miyazaki colhe inspiração para os seus filmes a observar as crianças de hoje. “Quando se observa com atenção crianças de três anos, nota-se como vivem uma tremenda quantidade de experiências num curto espaço de tempo. Talvez agora eu já seja suficientemente idoso para as admirar. Quando era mais novo, pensava sempre que as crianças eram demasiado barulhentas. ‘Calem-se!‘”, grita ele, rindo-se. (…)

Algumas coisas nunca mudarão para o Miyazaki mais velho: o modo como faz animação, por exemplo. Nunca permitiu que mais de dez por cento da extensão do filme fossem produzidos em computador.
“Utilizar o computador afecta lentamente o nosso sistema cerebral“, diz ele, “por isso, voltando ao desenho a lápis, o animador tem oportunidade de pensar, de tentar obter o melhor de si próprio. Eu sinto firmemente que, pelo desenho à mão, o trabalho se torna mais simples e, ao simplificar o trabalho real, levamos menos tempo. Em geral, fazemos um esforço para dar mais pormenores ao barco e não ao movimento; desta vez, fizemos um desenho simples do barco e dedicámos mais tempo aos movimentos”. (…)

Para falar com franqueza, não vejo filmes, não vejo televisão e, em geral, não leio banda desenhada. (…) Quero ter a certeza de que não perco tempo. Estou a tornar-me muito egoísta e faço coisas de que gosto. Andar a pé é uma maneira melhor de gastar o meu tempo. Gosto verdadeiramente do panorama e ao deslocar-me posso ver a vista mudar. Isso dá muito mais gosto do que o enquadramento fixo. Mas não faço ‘jogging'”, diz, abafando o riso. (…)

Embora não tenha planos de se reformar, Miyazaki está desejoso de transmitir o que sabe a animadores mais novos. “Preciso de lhes dizer que parem de usar a Internet e o correio electrónico, que voltem ao papel e ao lápis e utilizem os cinco sentidos para desenhar. Tenho o projecto de montar um estúdio inteiramente novo, afastado da cidade muito populosa, barulhenta e movimentada de Tóquio. E quero começar a ensinar uma jovem equipa desde o princípio. Quero tornar isso um programa de formação para novos animadores jovens”.

Nem esse projecto nem “Ponyo à Beira-Mar” são ainda um testamento, mas a verdade é que Miyazaki se divertiu claramente a desenhar as pessoas de idade do lar de idosos, que rejuvenescem graças à magia do mar. “Sabe, sou um homem idoso, também! Um idoso principante”».

 

– Hayao Miyazaki in Ípsilon, 28.08.2009.

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