Máquinas abstractas

[Editado por Mecanosfera]

«Num primeiro sentido,

não existe a máquina abstracta,

nem máquinas abstractas

que seriam como Ideias platónicas,

transcendentes e universais,

eternas.

As máquinas abstractas operam em agenciamentos concretos:

definem-se pelo quarto aspecto dos agenciamentos,

isto é, pelas pontas de

  • · descodificação
  • · e de desterritorialização.

Traçam essas pontas; assim, abrem o agenciamento territorial para outra coisa,

para agenciamentos de um outro tipo,

para o molecular, o cósmico,

e constituem devires.

Portanto, são sempre singulares e imanentes.

Contrariamente ao que se passa nos estratos,

e também nos agenciamentos considerados sob seus outros aspectos,

as máquinas abstractas ignoram as formas e as substâncias.

Por isso são abstractas,

mas também é esse o sentido rigoroso do conceito de máquina.

As máquinas excedem toda mecânica.

Opõem-se ao abstracto no seu sentido ordinário.

As máquinas abstractas consistem em

  • · matérias não formadas
  • · e funções não formais.

Cada máquina abstracta

é um conjunto consolidado

de matérias-funções

  • · (PHYLUM
  • · e DIAGRAMA).

Isto se vê claramente num “plano” tecnológico:

um tal plano não é composto simplesmente por

  • · substâncias formadas,

o alumínio, plástico, fio elétrico, etc,

  • · nem por formas organizadoras,

o programa, protótipos, etc,

mas por

  • · um conjunto de matérias não formadas

o que só apresentam graus de intensidade

(resistência, condutibilidade, aquecimento, estiramento, velocidade ou retardamento, indução, transdução…),

  • · e funções diagramáticas

o que só apresentam equações diferenciais ou, mais geralmente, “tensores“.

Certamente, no seio das dimensões do agenciamento,

a máquina abstrata ou máquinas abstratas

efetuam-se em

  • · formas
  • · e substâncias,

com estados de liberdade variáveis.

Mas foi preciso, simultaneamente,

  • · que a máquina abstracta se componha
  • · e componha um plano de consistência.

Abstractas,

singulares e criativas,

aqui e agora,

reais embora não concretas,

actuais ainda que não efectuadas;

por isso, as máquinas abstractas são

  • · datadas
  • · e nomeadas

(máquina abstracta-Einstein, máquina abstracta-Webern, mas também Galileu, Bach ou Beethoven, etc).

Não que remetam

  • · a pessoas
  • · ou a momentos efectuantes;

ao contrário,

  • · são os nomes
  • · e as datas

que remetem

  • · às singularidades das máquinas,
  • · e a seu efectuado.”

 

– Deleuze & Guattari, “Mil Platôs”, Vol. 5, Editora 34, p. 227.

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Último capítulo de “Mil Platôs”, “Regras Concretas”, subdividido em 6 pontos (3+3):

1. Estratos 2. Agenciamento (territorializante) 3. Rizoma

4. Plano de Consistência 5. Desterritorialização 6. Máquina Abstracta

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