Elogio e crítica de Heidegger por Deleuze

[Editado por Mecanosfera]

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NOTA SOBRE A FILOSOFIA DA DIFERENÇA DE HEIDEGGER.
Parece que os principais malentendidos que Heidegger denunciou
como contra-sensos sobre sua filosofia, após Ser e Tempo e Que é metafísica?,
incidiam sobre o seguinte: o NÃO heideggeriano remetia,
não ao negativo no ser,
mas ao ser como DIFERENÇA;
e não à negação,
mas à QUESTÃO.
Quando Sartre, no inicio de O ser e o nada,
analisava a interrogação,
ele fazia disto uma preliminar para a descoberta do negativo e da negatividade.
De certo modo, era o contrário do procedimento de Heidegger.
É verdade que não havia nisto qualquer malentendido,
visto que Sartre não se propunha a comentar Heidegger.
Mas Merleau-Ponty, sem dúvida, tinha uma inspiração heideggeriana mais real,
quando falava de “dobra” ou de “franzido”, desde a Fenomenologia da percepção
(em oposição aos “buracos” e “lagos de não-ser” sartrianos) –
e quando voltava a uma ontologia da diferença e da questão em seu livro póstumo. o visível e o invisível.

AS TESES DE HEIDEGGER PODEM SER ASSIM RESUMIDAS:

1.°, o não não exprime o negativo,
mas a diferença entre o ser e o ente.
Cf. prefácio de Vom Wesen des Grundes. 3″ éd., 1949:
“A diferença ontológica é o não entre o ente e o ser”
(e posfácio de Was ist Metaphysik?, 4e éd,, 1943:
“O que nunca é em parte alguma um ente não se desvela como o Se-diferenciante de todo ente? “
(p. 25);

esta diferença não é ” entre… “, no sentido ordinário da palavra.
Ela é a Dobra, Zwiefalt.
Ela é constitutiva do ser e da maneira pela qual o ser constitui o ente
no duplo movimento da “clareira” e do “velamento”.
O ser é verdadeiramente o DIFERENCIANTE DA DIFERENÇA.
Dai a expressão: DIFERENÇA ONTOLÓGICA.
Cf. Dépassement de la métaphysique, tradução francesa,
in Essais et conférences, pp. 89 sq.;

3.°, a DIFERENÇA ONTOLÓGICA está em correspondência com a QUESTÃO.
Ela é o ser da QUESTÃO que se desenvolve em PROBLEMAS,
balizando campos determinados em relação ao ente.
Cf, Vom Wesen des Grundes, tradução francesa, in Qu’est-ce que la métaphysique?, pp. 57-58;

assim compreendida, a diferença não é objecto de representação.
A representação, como elemento da metafísica,
subordina a diferença à identidade,
relacionando-a a um tertium como centro de uma comparação entre dois termos julgados diferentes
(o ser e o ente).
Heidegger reconhece que este ponto de vista
da representação metafísica
está ainda presente em Vom Wesen
(cf.tradução francesa, p. 59, onde o terceiro é encontrado na “transcendência do ser-aí”).
MAS A METAFÍSICA É IMPOTENTE PARA PENSAR A DIFERENÇA EM SI mesma
e a importância daquilo que separa como daquilo que une (o DIFERENCIANTE).
Não há síntese, mediação nem reconciliação na diferença,
mas, ao contrário.
Uma obstinação na diferenciação.

É esta a “virada”, para ALÉM DA METAFÍSICA:
“se o próprio ser pode aclarar em sua verdade
a diferença, que ele preserva em si, do ser e do ente,
ele o pode somente quando a própria diferença se manifesta especialmente… “
(Dépassement de la métaphysique, p. 89). Sobre este ponto, cf. Beda Allemann, Hölderlin et Heidegger, tradução francesa, Presses Universitaires de France, pp. 157-162, 168-172, e Jean Beaufret, Introdução ao Poème de Parménide, Presses Universitaires de France, pp. 45.ã5, 69-72;

5.°, portanto, a DIFERENÇA não se deixa subordinar ao idêntico ou ao igual,
Mas Deve Ser PENSADA NO MESMO e como o Mesmo.
Cf. Identitàt und Differenz (Günther Neske, 1957) e L’homme habite en poéte, tradução francesa, in Essais ei conférences, p. 231:
“O mesmo e o igual não se recobrem,
tanto quanto o mesmo e a uniformidade vazia do puro idêntico.
O igual sempre se liga ao sem-diferença,
a fim de que tudo se ajuste nele.
O MESMO, ao contrário, é o pertencimento mútuo do diferente
a partir da reunião operada pela diferença.
Só se pode dizer o mesmo quando a diferença é pensada…
O mesmo descarta todo desvelo em resolver as diferenças no igual:
sempre igualar e nada mais.
O mesmo reúne o diferente numa UNIÃO ORIGINAL.
O igual, ao contrário, dispersa na unidade insípida do uno simplesmente uniforme“.

RETEREMOS, COMO FUNDAMENTAL,
esta “correspondência” entre DIFERENÇA e QUESTÃO;
entre a diferença ontológica e o ser da questão.

É DE SE PERGUNTAR, TODAVIA,
se o próprio Heidegger não FAVORECEU OS MALENTENDIDOS
com sua concepção do “NADA”,
com sua maneira de “barrar” o ser, em vez de colocar entre parênteses o (não) do não-ser.
Além disso,
basta opor o Mesmo ao Idêntico para pensar a diferença original
e arrancá-la das mediações?

Se é verdade que certos comentadores puderam reencontrar ecos tomistas em Husserl,
Heidegger, ao contrário, está do lado de Duns Scot e dá um novo esplendor à Univocidade do ser.

Mas opera ele a conversão
pela qual o ser unívoco só deve dizer-se da diferença
e, neste sentido, girar em torno do ENTE?
Concebe ele o ente de tal modo
que seja este verdadeiramente subtraído a toda subordinação à IDENTIDADE da representação?

NÃO PARECE, levando-se em conta sua crítica do eterno retorno nietzscheano
– Deleuze, “Diferença e Repetição”, p. 134, nota sobre a Filosofia da Diferença de Heidegger, quando expõe centralidade do “Problema e da Questão” na conclusão do capítulo sobre a “Diferença em Si”.

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“Diferença e Repetição” tem 7 capítulos (1+2+1+2+1):
1.Introdução
2. Diferença em Si 3. Repetição Para Si
4. Imagem do Pensamento
5. Síntese Ideal da Diferença 6.Síntese Assimétrica da Repetição
7. Conclusão

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