Os estratos como Juízo de Deus

[Editado por Mecanosfera]

«Tradicionalmente, distingue-se, de modo sumário,
três grandes ESTRATOS:

  • físico-químico,
  • orgânico,
  • antropomórfico (ou “aloplástico”).

Cada ESTRATO , ou articulação, é composto de

  • meios codificados,
  • substâncias formadas.
    • Formas e substâncias,
    • códigos e meios

    não são realmente distintos.
    São componentes abstratos de qualquer articulação.
    Um ESTRATO apresenta, evidentemente,

    • formas e substâncias muito diversas,
    • códigos e meios variados.

    Portanto, possui a um só tempo

    • TIPOS de ORGANIZAÇÃO formal e
    • MODOS de DESENVOLVIMENTO substancial

    diferentes,

    que o dividem em

    • PARAESTRATOS
    • e EPISTRATOS:

    (…)
    Os ESTRATOS têm uma grande mobilidade.
    Um estrato é sempre capaz de servir de substrato a outro,
    ou de percutir um outro, independentemente de uma ordem evolutiva.
    Sobretudo, entre dois ESTRATOS ou duas divisões de estratos
    produzem-se fenômenos de interestratos:
    transcodificações e passagens de meio, misturas.
    Os RITMOS remetem a esses movimentos interestráticos,
    que são, igualmente, actos de estratificação.

    A estratificação é como a criação do mundo a partir do caos,
    uma criação contínua, renovada,
    e os ESTRATOS constituem o Juízo de Deus.
    O artista CLÁSSICO é como DEUS, ao organizar

    • as formas e as substâncias,
    • os códigos e os meios,
    • e os RITMOS,

    ele cria o mundo.

    Constitutiva de um estrato, a ARTICULAÇÃO é sempre
    uma dupla articulação (dupla-pinça).
    Com efeito, articula

    • um CONTEÚDO
    • e uma EXPRESSÃO.

    Se forma e substância não são realmente distintas,
    o CONTEÚDOe a EXPRESSÃO o são.
    Por isso, os estratos respondem à grade de Hjelmslev:

    • articulação de CONTEÚDO
    • e articulação de EXPRESSÃO,

    o CONTEÚDO e a EXPRESSÃO tendo,
    cada um por sua conta,
    forma e substância.
    Entre ambos, entre o CONTEÚDO e a EXPRESSÃO,
    não existe

    • correspondência,
    • nem relação causa-efeito,
    • nem relação significado-significante:

    • distinção real,
    • pressuposição recíproca,
    • e unicamente isomorfismo.

    Mas não é da mesma maneira que o CONTEÚDO e a EXPRESSÃO
    se distinguem em cada estrato:
    os três grandes ESTRATOS tradicionais
    não possuem a mesma repartição entre CONTEÚDO e EXPRESSÃO (por exemplo,

    • no estrato orgânico há uma “linearização” da expressão,
    • e nos estratos antropomórficos há uma “sobrelinearidade”).

    Por isso,
    o molar e o molecular,
    segundo o estrato considerado, entram em combinações muito diferentes.
    Qual movimento,
    qual impulso nos conduz
    para fora dos ESTRATOS (metaestratos)?

    Certamente, não há razão para pensar que

    • os estratos físico-químicos esgotem a matéria: existe uma Matéria não formada, submolecular.
    • Tampouco os estratos orgânicos esgotam a Vida: o organismo é sobretudo aquilo a que a vida se opõe para limitar-se, e existe vida tanto mais intensa, tanto mais poderosa quanto é anorgânica.
    • E do mesmo modo ainda, há Devires não humanos do homem que extravasam por todos os lados os estratos antropomórficos.»

     

    – Deleuze & Guattari, “Mil Platôs”, Vol.5, Editora 34, pp. 216.

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