O cântico de glória do ateu

 

«Não sei se o leitor é atreito a estas coisas. Por exemplo: vai descansadamente pela rua fora, a olhar para quem passa ou não reparando em ninguém – e de repente, ao virar de uma esquina, sem aviso nem prévia suspeita, descobre uma verdade fundamental, uma nova lei da natureza, a explicação final dos destinos, a quadratura do círculo, o moto-contínuo. Isto passa-se em um segundo fulgurante, findo o qual volta à sua condição de todos os dias, isto é, de homem sem problemas mais altos do que a sua cabeça. Mas se tem segundos desses, acautele-se: é sintoma de paranóia. (…) A mim, que já estou desenganado, também acontecem coisas destas. Há dias, imagine, descobri que a vida é uma longa violência. (…) No dia seguinte, com restos de vaidade da minha descoberta, quis transmiti-la a pessoa amiga normalmente capaz de perceber estes excessos de supravisão – e ouvi em resposta que já muita gente dissera antes de mim a mesma coisa. Fiquei ofendido nos meus brios de iluminado e eleito, e amuei. (…) Fiz um esforço, obriguei-me a concordar, e decidi que estas coisas não são transmissíveis, que santos da casa não fazem milagres, que o silêncio é de ouro, etc., etc. (…) Resmunguei agressivamente: “Pois é, já outros disseram, mas será menos verdade por isso?” (…) A meta está num ponto qualquer, não sabemos onde, mas já que temos de atravessá-la, que seja (como direi?) em glória. Não se trata de aplausos, note-se. É, sim, o canto, o cântico, o hino, a simples ária íntima que dá a cadência do nosso passo acelerado. E para isto é precisa muita violência. A que sujeita os desânimos e as renúncias, a que transforma em corda esticada e vibrante o ser (paranóico ou não) em que habita. (…) O meu vizinho, que por cortesia lê todas as crónicas que escrevo, chegou-se a mim no outro dia e, em tom meio envergonhado, meio vingativo, disse-me que quase nunca as entende. (…) Mas agora, chegado a este ponto da crónica e à procura do fecho para ela, encontro a resposta que não achei então e que por inteiro me vinga: “Leia duas vezes, amigo, leia duas vezes!”».

– José Saramago, “A vida é uma longa violência”, in “Deste mundo e do outro”, p. 119.

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