Soon the music is over

Nouvelle Vague with Mélanie Pain, “Dance with me” from “Bande à Part” (2006), named after Godard’s movie (1964).

 

Let’s dance little stranger
Show me secret sins
Love can be like bondage
Seduce me once again

Burning like an angel
Who has heaven in reprieve
Burning like the voodoo man
With devils on his sleeve

Won’t you dance with me
In my world of fantasy
Won’t you dance with me
Ritual fertility

Like an apparition
You don’t seem real at all
Like a premonition
Of curses on my soul

The way I want to love you
Well it could be against the law
I’ve seen you in a thousand minds
You’ve made the angels fall

Won’t you dance with me
In my world of fantasy
Won’t you dance with me
Ritual fertility

Come on little stranger
There’s only one last dance
Soon the music is over
Let’s give it one more chance (…)

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‘Os artistas vivem ao lado’

«- Todos os escritores se queixam das restrições sob as quais trabalham e da dificuldade de escrever. Para se tornarem interessantes; e exageram.

Deviam falar um pouco mais dos seus privilégios e da sorte que têm em poder receber algum retorno financeiro pela prática de sua arte, uma prática que pessoalmente detesto, é verdade, mas que, de qualquer forma, é um nobre privilégio, comparado com a sina da maioria das pessoas, que vive como parte de uma máquina, que vive só para manter os eixos da sociedade girando inutilmente. Sinto pena delas, de todo o coração. Desde que voltei a Paris, venho me entristecendo como nunca diante da multidão anônima que vejo da janela, se aglomerando metrô adentro ou jorrando do metrô, em horários fixos. Falando sério, aquilo não é vida. Não é humano. Tem que ter um fim. E escravidão… não só para os pobres e humildes, mas o absurdo da vida em geral. Quando uma pessoa simples como eu, que acredita na vida moderna, que admira todas essas fábricas bonitas, todas essas máquinas sofisticadas, pára e pensa aonde tudo isso leva, não pode fazer outra coisa a não ser condenar esse tipo de vida porque, realmente, não é bem o que se chamaria de encorajador.

– E seus hábitos de trabalho? Disse uma vez que se levanta de madrugada e trabalha horas a fio.

Nunca esqueço que o trabalho é uma praga – e, exatamente por isso, jamais fiz dele um hábito. Logicamente, para ser igual a todo mundo, nos últimos tempos quis trabalhar regularmente de uma dada hora a outra; já passei dos cinqüenta e cinco anos e queria produzir quatro livros seguidos. Quando terminei, estava cansado demais, Não tenho nenhum método de trabalho. Experimentei um, funcionou, mas isso não é motivo para me ater a ele pelo resto da vida, Tenho mais o que fazer na vida, além de escrever livros. Um escritor jamais deveria se instalar diante de uma paisagem, por mais grandiosa que ela seja. Como são Jerônimo, o escritor deve trabalhar em sua cela. Dar as costas. A escrita é um panorama do espírito. “O mundo é minha representação”. A humanidade vive em sua própria ficção. É por isso que os conquistadores sempre querem transformar a face do mundo à sua própria imagem. Hoje, cubro até mesmo os espelhos. A sala de trabalho de Rémy de Gourmont ficava em um beco, 71 rue des Saint-Péres, em Paris, No 202 Boulevard Saint-Germain, Guillaume Apollinaire, que tinha uma cobertura enorme, com quartos amplos, um mirante e um terraço magníficos, escrevia de preferência na cozinha, em uma mesinha de jogo, muito desconfortável, que precisou diminuir ainda mais, para conseguir colocar debaixo de uma clarabóia da mansarda, que também dava para um beco. Édouard Peisson, que tem uma casinha simpática nas colinas perto de Aix-en­-Provence, não trabalha nos quartos da frente, de onde poderia desfrutar de uma bela paisagem do vale e do jogo de luz e sombra à distância. Ele mandou construir um cantinho que usa como biblioteca, nos fundos da casa, onde a janela dá para um aterro contornado por lilases. Eu mesmo, no campo, em minha em rembla-sur-Mauldre, nunca trabalho no andar de cima, que dá para os pomares, mas na sala de baixo, que só dá para duas direções: um beco sem saída atrás do estábulo e um muro que cerca o jardim. Entre os pouquíssimos escritores que tive oportunidade de visitar várias vezes, apenas um homem de letras, celebrado por seu culto alucinado a Napoleão, instalou-se diante de uma paisagem para trabalhar – uma paisagem histórica -; a janela de seu estúdio tinha vista completa do arco do Triunfo. Mas a janela ficava quase sempre fechada, porque o espetáculo vivo da glória de seu ídolo, ao invés de lhe trazer inspiração, cortava suas asas. Dava para ouvir, através da porta, o pobre homem andando de um lado para outro do estúdio, se debatendo, berrando algumas frases, experimentando sentenças e ritmos, gemendo, chorando, sofrendo como Flaubert em seu “gueuloir”. A mulher dele dizia então aos empregados: “Não dêem atenção. É apenas Monsieur corrigindo seu estilo”.

– Leu muito em sua vida?

Muitíssimo. É a minha paixão. Em toda parte, em qualquer circunstância, todo tipo de livro. Tudo que cai na minha mão eu devoro.

– Para o senhor a leitura não é, como já disse anteriormente, um meio para se viajar no tempo ou no espaço, mas sim uma maneira de se penetrar sem grande esforço na pele de um personagem.

Não, a leitura tem sido a minha droga – eu me drogo com tinta de impressão!

– Poderia citar algumas das leituras fora do comum que já fez? Captain Lacroix é um velho marinheiro, e seus livros são um verdadeiro banquete. Nunca tive a sorte de conhecê-lo. Procurei por ele em Nantes, Saint-Nazaire. Disseram-me que estava com mais de oitenta anos, e continuava firme. Quando não pode mais navegar, tomou-se agente de uma seguradora marítima, e parece que não hesita em vestir o traje e o equipamento de mergulho a fim de ver com seus próprios olhos o estado dos cascos, Na sua idade, admirável. Imagino que as noites de inverno parecessem longas para ele, ao lado da lareira, quando o vento do mar trazia a chuva ao vilarejo do Loire-Inférieure e soprava ao redor de sua chaminé; acho que foi para matar o tempo que esse homem, que percorreu os Sete Mares a bordo de todo tipo de embarcação possível e imaginável, começou a escrever livros. Livros grossos, densos, repletos de documentação séria, às vezes um pouco pesados demais, mas quase sempre vivos e, por isso mesmo, nunca entediantes; e nem têm como ser cansativos, já que o velho marinheiro encontra até reproduções de cartões postais e fotos de portos felizes da sua juventude, e conta as coisas como elas aconteceram, sua experiência, tudo que aprendeu, tudo que viu do cabo Horn ao mar da China, da Tasmânia a Ushant, falando de tudo, dos faróis, correntes, ventos, recifes, tempestades, tripulações, tráfico, naufrágios, peixes e pássaros, fenômenos celestes e catástrofes marítimas, história, costu­mes, nações, povos do mar, contando milhões de casos pessoais ou dramáticos, toda a sua vida de marinheiro honesto levada pelo próprio movimento do mar e dominada pelo amor excepcional que sente pelos navios, Ah, certamente não é a obra de um littérateur. Sua caneta é uma espicha e cada página sempre traz alguma coisa para você, e são dez volumes enormes! É emocionante ao máximo, e simples como um bom-dia. Em uma palavra, miraculoso. A gente toca o mundo com um dedo . E há as profecias de Nostradamus, escritas em linguagem grandiosa, que são um prazer para mim, embora continuem indecifráveis, Leio essas profecias há quarenta anos, gargarejo com elas, me divirto com elas, gosto imensamente delas, mas não as entendo, Nunca busquei a interpretação; li quase todas as interpretações que já foram publicadas, elas não têm sentido, são inteiramente falsas, já que a cada dois ou três anos alguém inventa um novo método, um novo mecanisno sem conseguir matar a charada, Mas, entre os grandes poetas franceses, Nostradamus é um dos melhores. É mais um para a minha Anthologie de la poésie française, se algum dia vier a compila-la. Todas as suas transformações improvisadas a partir de uma linguagem convencinal superam, de longe, as maluquices do Dadaísmo, a escrita automática dos surrealistas e a decalcomania dos Calligrames de Apollinaire.

– E o que mais descobriu desde então? O que está lendo atualmente?

O último livro que descobri é o grande dicionário da Administração Alfandegária, que existe graças a um decreto de Vincent Auriol, antigo ministro da Fazenda. Chama-se Répertoire général du tarif e foi publicado em 1937. Dois volumes in-quarto. Peso: cinqüenta quilos. Levo os volumes comigo a lodos os lugares, porque vou precisar deles em breve, quando começar a escrever La Carissima, a vida mística de Maria Madalena, a única mulher que fez Cristo chorar.

– E o senhor precisa das tarifas alfandegárias para escrever este livro?

Meu caro amigo, é uma questão de linguagem. Há muitos anos, toda vez que me preparo para escrever um livro, primeiro preparo o vocabulário que vou empregar. Assim, para o L’homme foudroyé, tinha uma lista de três mil palavras preparada com antecedência, e usei todas elas. Isso me economizou um bocado de tempo e deu uma certa leveza ao trabalho. Foi a primeira vez que usei esse sistema. Não sei como vim a pensar nisso…. É uma questão de linguagem. A linguagem é uma coisa que me seduziu. A linguagem é uma coisa que me perverteu. A linguagem é uma coisa que me formou. A linguagem é uma coisa que me deformou. É por isso que sou um poeta, provavelmente porque sou muito sensível à linguagem – correta ou não, faço de conta que não e. Ignoro e desprezo a gramática, que está às portas da morte, mas sou um grande leitor de dicionários e, se a minha ortografia é nula, com certeza é porque sou muito atento à pronúncia, essa idiossincrasia da linguagem viva. No início não era o verbo, mas a frase, uma modulação. Ouça o canto dos pássaros!

– O senhor diria, então, que a linguagem não é algo morto, congelado, mas algo em movimento, fugaz, que se liga sempre à vida e à realidade.

É por isso que esse grande dicionário de Administração Alfandegária me fascina. Por exemplo, pegue a palavra “fita”. Descubro, com espanto, todos os significados que a palavra “fita” pode ter e, sobretudo em usos industriais ultramodemos: são vinte e uma páginas!

– Onde começou seu interesse por literatura folclórica?

Durante toda a minha vida fui profundamente influenciado pelas obras de Gérard de Nerval. Devo a Gérard de Nerval meu amor à música e à poesia populares e, em todos os países do mundo, procurei ouvir, anotar e ler alguma coisa da música, poesia e da literatura do povo, em especial na Rússia, China e Brasil. Lê-se muito Alexandre Dumas, romances de capa e espada, histórias de amor para datilógrafas – até certo ponto, todas as estenografas do mundo têm a mesma mentalidade. Mas também existem, em todos os países, certas obras destinadas ao interesse popular, como A interpretação dos sonhos, A linguagem das flores e outras tantas. Se a literatura de cordel está um pouco fora de moda em Paris, em um país como Brasil (que é um país novo, tudo parece novo para ele), camadas inteiras da população, que mal aprenderam a ler, estão descobrindo essas histórias de bruxarias, lobisomem. mula-sem-cabeça, fantasmas, humor negro, romance, contos de fada, novelas de cavalaria, contos infantis, aventuras de bandoleiros e célebres crimes passionais; um repertório de maravilhas que não é mais banal e medíocre em si do que, em países muito mais avançados, as novelas policiais da Inglaterra, as histórias de gângsters dos Estados Unidos e os grandes filmes de amor nos cinemas do mundo inteiro, que também fazem parte das antigas tradições do folclore, da literatura popular.

– Mas no Brasil esse folclore não é inteiramente herdado dos negros?

De forma alguma. O folclore literário é de origem portuguesa. A literatura de cordel foi importada de Portugal; e está, por sinal, muito mais presente na base da literatura brasileira do que as obras dos acadêmicos brasileiros, que, por sua vez, sempre foram mais ou menos influenciados, até há poucos anos, pela literatura acadêmica francesa, da mesma forma que a última geração de escritores jovens brasileiros é hoje influenciada pelos novos romancistas norte-americanos do período entre-guerras, que se encontravam, na grande maioria, morando em Paris e bastante em evidência por aqui, em Saint-Ger­main-des-Prés e Montparnasse: Hemingway, John Dos Passos, Henry Miller.

– Mas os negros que foram levados para lá, eles escreviam?

Os negros levados para lá – quer dizer, os escravos – não escreviam. Eram proibidos de escrever e foi algo completamente excepcional o fato de alguns conseguirem aprender a ler ou escrever. Mais ainda, era proibido imprimir livros no Brasil, vinha tudo de Portugal. A primeira máquina impressora só foi instalada em 1818 no Rio de Janeiro, durante o império. Assim, as Obras completas de Gregório de Matos (1633-96), chamado, com toda a razão, de o François Villon do Brasil e a quem seus contemporâneos chamavam de Boca do inferno, tamanha a violência de suas sátiras à sociedade colonial, não foram publicadas no Rio até 1882, Até então, tinham sido transmitidas por tradição oral e por cópias manuscritas, que circulavam em um determinado grupo da sociedade brasileira: os boêmios da Bahia.

– Ele era negro?

Não, no máximo, bastante moreno, um mestiço, um pardo, como dizem por lá. Os pais tinham uma plantação de cana e eram donos de 130 escravos negros, Ele teve a sorte de ser enviado a Coimbra para estudar Direito, na famosa universidade portuguesa. Quando voltou à Bahia, sua boca maldita e invectivas infernais custaram a ele uma temporada em Angola, no exílio, de onde voltou, mais enfurecido do que nunca, para se fixar em Pernambuco, em regime de prisão domiciliar. Ao invés de se emendar, levou uma vida de embriaguez e devassidão com as garotas negras da beira do cais, Todas as suas canções de amor, algumas realmente muito bonitas, celebram a Vênus negra. Ele morreu na miséria. Diz a tradição que foi enterrado como o mais miserável entre os miseráveis, com o violão, seu único bem.

– Quando fugiu de casa, com quinze anos, o senhor havia planejado sua fuga? Tinha algum objetivo ou alguma esperança de voltar?

Eu sei lá. Fui para o leste porque o primeiro trem que passou na estação me levou para o leste; se fosse um trem indo para o oeste, eu teria chegado em Lisboa e seguido para a América em vez da Ásia.

– Aquele foi um dia extremamente importante para o senhor, porque, daí em diante, sua vida dividiu-se em duas: suas aventuras no Oriente e suas aventuras no Ocidente. Desde então nunca teve um teto.

A gente diz estas coisas quando quer contar histórias, por um pouco de ordem na existência Mas a minha vida nunca se dividiu em duas. Seria muito conveniente: qualquer um pode dividir sua vida em dois, em quatro, em oito, em doze, em dezesseis.

– Gostaria de perguntar por que não continuou a experiência que havia começado com Pâques à New York, Transsibérien e Panama. Nesses poemas, particularmente no Dix-neuf poemes élastiques, que inovaram a técnica poética, existe um movimento de estrofes que, desde então, abandonou.

Em 1917 eu havia acabado de escrever um poema que me espantava pela plenitude de sua modernidade, por tudo que eu havia colocado nele. Era tão antipoético! Fiquei encantado. E, naquele exato momento, decidi não publicá-lo, para deixar a poesia moderna seguir seu caminho sem mim, para ver o que aconteceria. Guardei o poema não publicado em uma caixa no sótão da casa de campo; e dei a mim mesmo um prazo de 10 anos antes de publicá-lo. Isso foi há mais de trinta unos, e acho que ainda não chegou a hora de publicar esse poema.

– E esse poema é Au Coer du Monde”?

É, e embora não tenha sido publicado, é famoso. Outro dia um editor me ofereceu um milhão (de francos) por ele, mas não mordi a isca. Eu disse a você, outro dia, que não escrevo mais poemas. Faço poemas que recito para mim mesmo, que saboreio, com os quais brinco. Não sinto nenhuma necessidade de comunicá-los a outras pessoas, nem mesmo a pessoas de quem gosto muito. Não os escrevo. É tão bom sonhar acordado, ficar murmurando uma coisa que continua sendo um segredo só seu. É o pecado da gula. Escrever… é uma profissão ingrata; com toda sinceridade, traz pouca satisfação. É excepcional ser capaz de dizer a si mesmo! “Não está tão ruim, Blaise, até que ficou muito bom”. Tem-se essa satisfação muito, muito, muito raramente, porque, quando se publica um livro, a gente pensa, principalmente em tudo que deixou de fazer, tudo que não colocou nele, tudo que queria ter colocado, tudo que acrescentaria para que ficasse completo, porque é tão difícil delimitar as coisas com a escrita e dizer tudo em palavras. Quando o livro está pronto, fica-se inevitavelmente decepcionado.

– O seus Pâques à New York, Transsibérien, Pamana, os Dix-neuf poèmes élastiques. São discutidos e citados exatamente por estarem na base da poesia moderna, na origem do lirismo moderno.

Não, não, de jeito nenhum, não estou na base do que quer que seja. É o mundo moderno que está na base, “enorme e delicado” como a Idade Média. E quanto à origem, é Villon. Se a correspondência de Max Jacob viesse a ser publicada, você encontraria origens, bases e pontos de partida e de chegada. Ali estava alguém que sabia como balançar o coqueiro, e por abaixo, com o tumulto, os falsos e os verdadeiros gênios, os puros e os impuros! Ele tinha uma língua ferina que só vendo, e podia criar mais confusão do que o diabo com água benta. Parece que os poetas não se divertem mais. O que me preocupa mais do que qualquer outra coisa, hoje em dia, é ver a seriedade com que tratam todas as coisas.

– O senhor era mais alegre porque a vida era mais divertida nos bons e velhos tempos?

Meu caro amigo, na Belle Époque, escritores ganhavam um sou por linha nos jornais e um Apollinaire teve que esperar meses, anos, antes que pudesse assinar seus artigos e contar com um emprego estável, com pagamento regular. Por isso ele ele escrevia pornografia: era seu ganha-pão. Você não pode imaginar como todas as portas estavam completamente fechadas para nós. Tenho a impressão de que hoje em dia se é muito mais bem recebido. Encontro jovens escritores por toda parte, nos jornais, nas rádios, nos estúdios cinematográficos. Antes de 1914, aqueles que queriam um emprego faziam fila na porta, ou guichê de um balcão de empregos que nunca se abria. Os outros se contentavam em bancar o bufão, o touro brabo, pelas ruas. Para o inferno com o emprego e a vida decente. Nós dávamos risada. As garotas de Paris eram bonitas.

– Essa geração de agora não tem se saído muito mal em matéria de bufonaria.

Cada um tem que passar por isso, é o direito de toda a geração jovem. Felizmente, o touro brabo ainda existe e não foi enlatado para exportação, como carne bovina. Um conselho: quando vir uma porta aberta, seja de um jornal, do estúdio, de uma rádio, de cinema, de um banco, qualquer coisa – não entre. Quando chegar aos trinta anos, vai estar louco porque deixou o riso do lado de fora da porta. Essa é a minha experiência. A poesia está nas ruas. Anda de braços dados com o riso. Eles saem juntos para beber, na fonte, nos bares da vizinhança, onde o riso das pessoas é tão vivo e saboroso e a fala que jorra de seus lábios tão bela. “Il n’est bon bec que de Paris

– Em 1912, o senhor estava em Nova York.

Em 1912, na Páscoa, eu estava passando fome em Nova York, há meses. De tempos em tempos arranjava um emprego, por força da necessidade, mas não ficava uma semana, e, se desse um jeito de conseguir meu pagamento antes disso, saía, impaciente por prosseguir com minhas sessões de leitura na biblioteca pública central. Minha penúria era extrema, e eu piorava a cada dia, com a barba por fazer, calças amarrotadas, sapatos gastos, cabelo comprido, paletó manchado, desbotado e sem botões, sem chapéu e sem gravata, porque os havia vendido por um penny para comprar um naco do pior fumo de mascar existente no mundo. O tempo foi passando. Veio a Páscoa. No domingo de Páscoa a biblioteca não abriu. À noitinha, entrei numa igreja presbiteriana onde estava havendo um oratório, A criação de Haydn, de acordo com o cartaz pendurado na base da torre. Havia poucas pessoas e, num tablado, jovens bem-vestidas tocavam instrumentos antigos e cantavam divinamente. Mas um bispo miserável interrompia o oratório, a cada cinco minutos, para fazer seu sermão carola e apelar aos corações bondosos dos fiéis. Quando o oratório recomeçou, um outro pregador agourento, tão chato quanto o primeiro, veio para o banco em que eu estava e tentou me converter com uma exortação sub-reptícia, sempre de olho no meu bolso para ver se conseguia tirar de mim um dólar ou dois para as despesas da congregação, sacudindo o prato da coleta bem debaixo do meu nariz. Pobre de mim! Saí antes do encerramento e fui andando para casa, na West Sixty-seventh Street, onde estava morando, completamente deprimido, arrasado. Devia ser umas duas ou três da manhã. Roí um pedaço de pão seco e bebi um copo d’água bem grande. Fui para a cama. Dormi na mesma hora. Acordei com um sobressalto. Comecei a escrever, escrever… Voltei a dormir. Acordei pela segunda vez com um sobressalto. Escrevi até o nascer do dia, voltei para a cama e dormi para valer. Acordei às cinco da tarde. Reli o texto. Eu tinha escrito Les pâques à New York.

– Inteiro?

Como foi publicado. A não ser por três emendas.

– Onde está o manuscrito agora?

O original, não sei, tive que vendê-lo num díade aperto. Mas o amigo dos poetas, o editor Pierre Seghers, que, em 1948, dedicou um pequeno volume da série Poetes d`aujour’hui ao meu trabalho, falou comigo a respeito de uma cópia do manuscrito, cópia que hoje pertence a Paul Éluard, senão me engano. Ao chegar chegar a Paris, lembro-me de ter deixado essa cópia com Guillaume Apollillaire, que morava em Passy, rue Gros, em frente ao gasômetro. Quem a vendeu ou de quem Paul Éluard poderia ter comprado o manuscrito e quando? Não sei e nunca lhe perguntei, porque não conheço Éluard. Mas Seghers, que chegou a ter essa cópia na mão, pediu detalhes precisos do aspecto do manuscrito, e o que eu lhe disse parecia confirmar o que ele já sabia: papel americano, caligrafia inclinada para a direita etc.

– Esse seu poema foi publicado quantos anos depois de escrito?

Depois que o escrevi, só queria uma coisa – sair de Nova York, e embarquei em menos de uma semana de volta a Paris. Paguei cinco dólares, cerca de vinte e cinco francos. Imagine, naquele tempo dava para voltar de Nova York a Paris por vinte e cinco francos! Verdade que era um navio de gado. Assim que cheguei em Paris, publiquei o poema.

– Em que condições? Encontrou um editor?

Nem em sonho! Encontrei um tipógrafo, um anarquista que tinha uma impressora clandestina instalada em uma caixa de piano, em Buttes-Chaumont, rue Botzaris, Villa des Boers. Trabalhei com ele para ganhar um dinheirinho e cobrir o custo da edição. Na ocasião, meu maior lucro foi o aprendizado das técnicas de tipografia. Compus mais da metade do texto sozinho. O livrinho saiu com uma foto minha, horrível. A coisa toda custou uns cem francos. Tiramos cento e vinte e cinco cópias. Eu as pus à venda por vinte sous. Não vendi uma sequer.

– Nenhuma?

Nada.

– O que foi feito de todas essas cópias?

Ora, para onde vai o papel velho? Eu mesmo não tenho uma cópia dessa edição.

– Isso fez com que ficasse conhecido entre os poetas?

Eu já era conhecido entre os poetas por ter zombado deles e por ter perturbado suas reuniões no Closerie des Lilas, no Café Fleurus, no Procope; por isso eu não precisava publicar nada para ficar conhecido entre os poetas. Mas ter publicado Les pâques à New York, em outubro de 1912, fez com que eu ganhasse a inimizade dos bonzos e pontífices que, no ano seguinte, quando publiquei Le transsibérien, “o primeiro-livro simultâneo”, em junho de 1913, me chamaram de epígono e me acusaram de plágio. Não era muito bom ser um jovem autêntico, no meio de todos aqueles medalhões que ainda viviam do que restava do simbolismo, que se consideravam, todos, bardos sagrados. Barbados, isso sim, que só me faziam rir. Naquela época, Apollinaire era o único a quem eu visitava. Ele era sempre gentil comigo e me arranjou para que eu conseguisse uns trocados. Não dê ouvidos às más línguas! Hoje em dia dizem que Apollinaire foi influenciado por mim e eu digo que isso pouco importa. Cantei a torre Eiffel. Ele cantou a torre Eiffel. E tantos outros cantaram a torre Eiffel desde então.

– Mesmo assim é uma coisa muito estranha Apollinaire mudar a orientação poética que seguia logo depois de vocês terem se conhecido.

Foi Jules Romains o primeiro a reparar nessa mudança de direcionamento. Quanto a mim, não dou atenção, Não é da minha conta. São os críticos que dizem isso. Não é minha função. Não estou preparado para tanto. Escrevi sobre a torre Eiffel quando senti vontade.

– Mas isso não tem nada a ver com a torre Eiffel. Tem a ver com…

… com a influência que eu possa ter exercido sobre Guillaume Apollinaire. Foi Robert Goffin quem levantou esta lebre, e já vieram não sei quantos outros repetir esta crítica, como se fosse um crime sofrer a influência de alguém. Às vezes tenho a impressão, em relação a isso, de que não estou lidando com críticos, com estudantes de poesia, com historiadores, mas sim com detetives amadores que medem, marcam, tiram impressões digitais …

– Existe sempre essa demora – de dez anos ou mais – entre a aventura vivida e o momento de registrar por escrito essa aventura, como em Panamá?

Uma incubação bem longa. Tem todo um trabalho inconsciente de trazer a coisa a um ponto em que possa ser realizada. Geralmente começo com um título. Primeiro encontro o título. Geralmente encontro títulos muito bons – as pessoas me invejam por isso, e não só me invejam, um bom número de escritores me procuram para me pedir um título. Quando tenho meu título me entrego à reflexão. As coisas vão se acumulando. Produz-se uma cristalização, tanto consciente quanto inconsciente, em torno do título, e não escrevo nada enquanto não sei tudo sobre meus personagens, desde o dia em que nasceram até o dia de sua morte, e enquanto não consigo fazer com que eles se desenvolvam em todas as circunstâncias possíveis e imagináveis, de acordo com a sua personalidade e situações fictícias ou reais. Isso pode levar anos. Faço anotações. Assim, crio dossiês repletos de notas e esboços. Dossiês imaginários, não verídicos. Documentação verídica me deixa entediado.

– O senhor falou comigo algo sobre seu próximo romance, “um romance de verdade”.

É, um romance de verdade, ou não virá a público.

– Em todo caso, esse romance vai conter alguns elementos da sua vida, não?

Não, não, não, de jeito nenhum, você não vai achar nada de mim nesse romance, vou escrever um romance-romance, e não vou aparecer nele, porque, em todos os meus livros, só enxergam uma personagem: Cendrars! L’or é Cendrars; Moravagine é Cendrars; Dan Yack é Cendrars – já estou cheio desse tal de Cendrars! Afinal de contas, não se deveria creditar que o romancista está encarnado em suas personagens – Flaubert não é Madame Bovary. Não lhe valeu de nada ficar doente quando descreveu o envenena­mento de Emma – ainda assim, ele não era Madame Bovary, mesmo que acre­ditasse que fosse e dissesse “Eu sou Madame Bovary!”. Aquele normando ma­ciço, uma mulher frágil e insatisfeita??? O maior perigo para um escritor é ele se tornar vítima de seu próprio mito, cair na sua própria armadilha.

– O senhor anunciou trinta e três livros para o futuro. Por que trinta e três?

A lista de trinta e três livros, que venho anunciando há quarenta anos, não é exclusiva, restritiva ou proibitiva; o número trinta e três é o número-chave da atividade, da vida. De modo que essa não é, de forma alguma, uma lista negra. Se se apresenta como um índex, não tem nada a ver com O index. Não incluí nela os títulos dos romances que nunca escreverei – outro dia fiquei surpreso ao descobrir que La main coupée, que publiquei em 1948, estava nesta lista desde 1919. Tinha me esquecido disso por completo! Na lista há livros que vou retomar, e que aparecerão futuramente. Também encontram-se relacionados os dez volumes de Notre pain quotidien, que já estão escritos, mas que deixei em diversas caixas-fortes em bancos da América do Sul e que, se Deus quiser, serão encontrados por acaso algum dia – os papéis não estão assinados e foram depositados com um nome falso. Também incluí um grupo de poemas que amo mais do que os meus próprios olhos mas que não me decidi a publicar – não por timidez ou orgulho, mas por amor. E tem os livros que estavam escritos, prontos para publicação, mas que eu queimei para a infinita tristeza de meus editores: por exemplo, La vie et Ia mort du soldat inconnu, em cinco volumes. E, por fim, há os bastardos, as larvas e os abortos que provavelmente nunca virei a escrever.

– John Dos Passos consagrou um capítulo ao senhor em Orient Express, chamando-o de o Homero do Transsibérien.

Quando John se casou,eu estava em Périgord. Estava vivendo o processo de incubação do meu livro sobe Galmont. Ele veio, em lua-de-mel, direto de Nova York a Monpazier, onde Gaumont nasceu. Monpazier é uma cidadezinha histórica. Um povoado fortificado, construído pelos reis da Inglaterra, a partir de 1426. É muito pequena, seiscentos e vinte c cinco habitantes, no máximo. Tem a disposição e uma cidade norte-americana. Há duas vias principais e toas as ruas cruzam essas duas vias principais em ângulo reto. Dá para contar essas tranversais, como nos Estados Unidos, acho que são vinte e uma Eu estava hospedado no melhor hotel da região, o Hotel de Londres, onde se come como um rei. É mantido por Madame Cassagnol – o marido dela é a cara do Charles Chaplin. Madame Cassagnol tem bigode e canta de galo na casa. Quando John dos Passos me avisou que estava a caminho, eu disse a Madame: “Alguns amigos meus estão vindo diretamente de Nova York para se hospedar aqui em seu hotel. Tente se superar”. E não pensei mais nem no menu e nem no vinho, Durante uma semana, Madame Casagnol nos ofereceu o melhor da cozinha do Périgord, planejando os menus, preparando surpresas cada dia mais incríveis: trufas, um pot-au-feu com alho, de fazer você comer e chorar por mais – com vinho, estilo bem caseiro; buisson d’écrevisses, champignons à la creme, cogumelos boletos à la bordelaise, peixe frito, peixes do Dordogne e do Garone. Brochettes de passarinhos, galinhola à l’armagnac, veado à caçadora, cujo principal fornecedor era o cura de um povoado vizinho, assados, terrine de foie gras, alface brava, queijo caseiro, figos ao mel com nozes moídas, pruneaux d’Agen, crêpes flambées, vinho tinto, encorpado, à vontade, meia garrafa de Monbazillac para cada um, café, licores, tudo por doze francos e cinqüenta, mais cinqüenta cêntimos extras pela surpresa do último dia. No último dia, na despedida de John e de sua mulher, comemos cisne selvagem. Eu nem sabia que ainda existiam cisnes selvagens, mesmo em migração. Que região incrível é o Périgord! Visitei John muitas vezes, mas sempre em Paris. Estranho, por sinal, que eu nunca tenha encontrado um dos meus amigos escritores americanos nos Estados Unidos, por mais que fosse para lá. Como se por acaso, eles nunca estavam em casa, e se eu insistia, me diziam, por telefone, que o senhor com quem eu desejava falar estava em férias, num tour ou na Europa. Tentei em vão encontrar pelo menos um desses amigos nos jornais em que trabalhavam, em seus clubes ou na casa dos editores. A resposta era a mesma em toda a parte: “Ele não está!”. Eu costumava desligar o telefone com uma sensação estranha. Não quero tirar disso nenhuma conclusão que venha a ser indelicada para com quem quer que seja, mas acabei tendo que admitir que os escritores americanos não são livres em seu próprio país e que aqueles que voltam da Europa não têm a consciência tranqüila, ficam se recriminando com a lem­brança, para eles dolorosa, de brincadeiras inofensivas que fizeram por lá. Têm medo da opinião pública e, ao contrário dos ingleses, não têm sequer uma atitude gentil de agradecimento. É um complexo tipicamente norte-americano.

– Entre os escritores americanos, o senhor conhece Henry Miller. Ele é um de seus melhores amigos?

Eu conheci Henry Miller, em Paris, e nunca o encontrei em outro lugar, fora Paris. Ele era um companheiro alegre, animado.

– Conhece outros também?

Conheço, certamente, centenas, centenas e centenas de poetas que vieram e que se foram: esqueci seus nomes, de tantos que havia em Paris no período que antecedeu a Segunda Guerra.

– Dizem que o senhor serviu de modelo para eles e que influenciou muito alguns romancistas norte-americanos.

Isso é completamente falso. Se fui capaz de influenciar esse ou aquele sem o meu conhecimento ou o dele, então não servi de modelo. Victor Hugo e Maupassant serviram de modelo, quando os americanos vieram para Paris, no final da Primeira Guerra. Vieram para a França sem pensar duas vezes, como soldados, motoristas de ambulância, diplomatas. Terminada a guerra, permaneceram por algum tempo, curto ou longo, em Paris, sendo que uns poucos acabaram ficando até a outra guerra; freqüentavam o Montparnasse, depois Saint-Germain-des-Pres, e, se foram influenciados por alguma coisa, foi muito mais pela ambiance, pelo ar de Paris e pelo modo de vida francês do que por esse ou aquele autor francês, John Dos Passos me disse um dia: “Vocês têm na França um gênero literário que nós realmente não conhecemos nos Estados Unidos, a grand reportage à la Victor Hugo”.

– É uma declaração espantosa.

Fiquei surpreso com ela porque, como você, acreditava ser a reportagem um gênero estritamente norte-americano, Bem, parece que não é. Do ponto de vista da reportagem, então, influenciamos terrivelmente os romancistas americanos, que ainda não escreviam para grandes revistas e tinham uma tendência a se encastelarem em uma torre de marfim para se dedicar à literatura às belles-lettres, Desde então, eles se equipararam; é só ler a reportagem de guerra mais recente ou outra reportagem qualquer de um Seabrook, de um Hemingway, do próprio John Dos Passos, que têm a nossa marca e são ótimas. Eles renovaram o gênero. Asylum de Seabrook é uma obra-prima da reporta­gem, como La mort de Balzac de Victor Hugo, o primeiro modelo do gênero. Dos Passos tinha razão.

– E Faulkner, o senhor o conhece?

Não, não conheço Faulkner. Nunca nos encontramos, Malraux me pediu para fazer o prefácio da tradução de Light in August; eu não quis, por achar que era regional demais, literário demais e escrito como não se escreve mais, bem demais.

– Conheceu Hemingway em Nova York?

Não, foi no Closerie des Lilas em Paris. Eu estava bebendo; ele estava bebendo na mesa ao lado. Estava com um marinheiro americano. Estava de uniforme – provavelmente o de auxiliar de ambulância não-com­batente, se é que não estou enganado. Foi no fim de outra guerra, “a última das últimas”. Começamos a conversar, os dois numa mesa e eu na outra; os bê­bados gostam de conversar. Conversamos. Bebemos. Bebemos mais. Eu tinha um compromisso em Montmartre, na casa da Viúva de André Dupont, um poeta morto em Verdun. Ia lá toda sexta-feira para comer bouillabaisse com Satie, Georges Auric, Paul Lombard e, às vezes, Max Jacob. Levei meus amigos bêbados norte-americanos comigo, achei que assim daria a eles alguma coisa boa de chez nous para comer. Mas os americanos não sabem apreciar a boa comida; não têm uma boa comida em seu próprio país, não sabem o que é. Hemingway e seu amigo marinheiro não deram a mínima para os meus argumentos – preferiam ficar bebendo até acabar com a sede. Então larguei os dois num bar da rue des Martyrs, e fui correndo me tratar na casa da viúva do meu amigo.

– Conhecia Sinclair Lewis também, não é?

É, essa é outra história… Foi em 1930, em Roma. Ele já estava bastante comentado na Itália, onde se encontrava excursionando com um grupo de animadas garotas nova-iorquinas, que estavam causando um verdadeiro escândalo. Um belo dia ele aterrissou em Roma, onde eu estava fazendo um filme. Ele me mandou um recado dizendo que precisava me encontrar urgentemente. Pedi-lhe que viesse ao estúdio, mas ele me disse que estava resfriado, não gostava de filmes e que, de qualquer forma, não tinha tempo, porque partia para Estocolmo na manhã seguinte, para receber o Prêmio Nobel. Eu também estava sem tempo, estava ocupado trabalhando, mas acabou dando um problema no estúdio por volta das dez horas e fui ao hotel em que ele estava; lá encontrei seis garotas americanas, completamente bêbadas, preparando um coquetel gigante numa sopeira cheia de creme batido, onde – enquanto discutiam umas com as outras sobre quanto iam colocar – despejavam dois, três litros de vermute. Achei que eu não ia conseguir fazer parte dessa loucura feminina assim, logo de cara – uma delas estendeu uma tesoura na minha direção e me desafiou a cortar o seu cabelo -, então, achei melhor ir dar uma volta. Mas mudei de idéia e resolvi procurar o dono da festa pelo apartamento, pois ainda não o tinha visto. A porta do banheiro estava entreaberta e a água quente corria pelo corredor. Entrei. A banheira estava transbordando e as torneiras abertas ao máximo. Dois pés, ostentando sapatos finos, novíssimos, pendiam para fora da banheira e, no fundo, um homem de smoking estava se afogando. Foi esse o Sinclair Lewis que conheci. Puxei-o para fora, tirando-o daquela posição infeliz e foi assim que salvei sua vida, de modo que, na manhã seguinte, ele pôde pegar o trem para Estocolmo e receber seu prêmio. No dia seguinte eu o coloquei no trem – ele nem sequer me pagou um drinque. É verdade que estava com uma ressaca e tanto, e que provavelmente não queria saber de bebida, ou, talvez, tivesse feito um juramento de nunca mais beber. Mas promessa de bêbado não vale nada, você sabe.

– E onde morou em Paris quando voltou dos Estados Unidos em 1912?

Avenue Montaigne. É um bairro maravilhoso e eu o conheço bem. Morei nos números 12, 60, 51, 33, 5 e finalmente voltei para o 12. Poderia escrever um livro sobre o bairro, aparentemente tão tranqüilo, até con­fortável, e onde acontece de tudo, mas de tudo mesmo! Tinha até um título para o livro: Vayage autour de l’Alma. Mas, provavelmente, jamais, o escre­verei, como tantos outros livros com que sonhei acordado durante anos.

– Qual a melhor recordação que guarda dessa vizinhança, desse bairro?

Não sei, são tantas. É lá que os ratos-terriers são treinados pelos meus bons amigos costureiros da cidade de Paris, em um “ratódromo” subterrâneo. Tinha também o varredor de ruas Don Juan, que cumprimentava todas as empregadinhas do bairro e que costumava se fechar com elas no interior de uma coluna Morris, onde havia instalado um pufe de veludo vermelho. Ficava bem na frente da embaixada brasileira, onde eu encerrava as noites bebendo cafezinhos, fumando charutos e conversando horas a fio com o bom e velho amigo Souza-Dantas, conhecido como o Embaixador Boêmio, porque não tinha cama para dormir – quando estava com sono, virava o colarinho para cima, puxava a aba do chapéu para baixo e se esticava em um canapé russo de couro, fechava os olhos e dormia feito criança, sem se importar se você já havia saído ou não, Até escrevi um livrinho em 1913 sobre música russa para a inauguração do Grand Théâtre des Champs-Élysées e na noite da premiere de Petruchka, uma mulher coberta de diamantes, enlouquecida com a música de Stravinsky, arrancou um dos assentos novinhos do teatro para arrebentá-lo em minha cabeça, o que fez com tanta perfeição que passei o resto da noite bebendo champanhe em Montmartre com Stravinsky, Diaghilev e alguns dos bailarinos do Balé Russo, usando o assento como colarinho, o rosto todo riscado de sangue e arranhões. Vi o bairro crescer, os grandes costureiros – de Madeleine Vionnet a Boyd – vieram se estabelecer ali … os táxis substituíram os fia­cres … Jouvet abriu a Comédia, Batbedat o Studio, Hébertot transformou a Salle de Perret – que havia sido construída para produzir Parsifal quando a ópera de Richard Wagner caísse em domínio público, sobrepujando Bayreuth, com a ajuda de máquinas de fazer fumaça instaladas debaixo do palco, ao custo de milhões, e que jamais foram usadas – em uma casa de espetáculos de alto luxo, para a qual afluía a Paris elegante e refinada; isso sem falar dos balés suecos de Rolf de Maré, que montou o meu balé afro, La création du monde, com música de Darius Milhaud e cenários de Fernand Léger; Les mariés de la tour Eiffel, de Cocteau; Relâche, de meu bom amigo Eric Satie, para o qual escrevi o argumento – e Fancis Picabia roubou-o de mim -, o tema e o interlúdio cinematográfico de Entre-acte, graças ao qual René Clair pôde fazer sua estréia como diretor,tendo Picabia se aproveitado do fato de eu e viajado para o Brasil. Como se vê, era uma época e tanto.

– Dentre as pessoas estranhas e queridas que conheceu, quais encontrou em Paris?

O ser mais estranho que já encontrei na Avenue Montaigne foi a louca em que Giraudoux se inspirou para a sua La folie de Chaillot. Ela não era o “diabrele de diamantes” de Montmartre, como disseram os jornais da época, na legenda de uma foto. Madame Leffray era inglesa, viúva de um autêntico cocheiro cockney. Morava na rue Lauriston. Eu costumava segui-la com freqüência: todo dia ela vinha de Chaillot para a avenue Montaigne, onde se sentava num banco em frente ao Hôtel Plaza-Athénée. Ela ficava lá, em êxtase, igualzinha à atriz Rita Moreno, só que muito mais magra; enfeitada com um chapéu de penas de avestruz sujas; bugigangas encardidas; um vestido longo cheio de furos e rendas; uma estola de arminho imunda que não tinha mais nada a ser as caudas pequenas e negras; sapatos de salto absurda­mente altos; jóias grotescas; um binóculo de teatro; uma bolsa arrastando pelo chão. Todo mundo na vizinhança conhecia essa mulher, e se divertia às suas custas. E ela era louca de verdade; nunca falava com quem quer que fosse e jamais respondia ao que perguntavam. Tinha uma dignidade toda sua, era orgulhosa, auto suficiente. Foi lá, sentada naquele banco que já não existe mais, que Giraudoux deve tê-Ia visto, tantas vezes quanto eu, porque Jean vinha para o bairro praticamente todos os dias

– O que faz quando está viajando? Escreve em sua cabine em alto-mar ou espera a volta?

Gosto das longas viagens marítimas, da vida diferente que se tem no mar, boa demais para se pensar em trabalho. É a apoteose da preguiça; um triunfo- não fazer nada enquanto o convés balança, o navio se move, o motor trabalha, o oceano ruge, o vento sopra, a terra gira com os céus e as estrelas e todo o universo se apressa em abrir caminho para a sua passagem. Nunca tenho pressa de chegar e inclusive tentei inúmeras vezes convencer o capitão a levar o barco a um outro lugar qualquer, que não fosse o porto de destino. “Ah… Não tem jeito”, foi o que um velho holandês me falou, “Há trinta anos venho fazendo a rota entre Rotterdam e Buenos Aires, como se eu fosse o maquinista de um trem. Impossível se mudar qualquer coisa, a rota é estipulada com antecedência, o horário fixado, tenho que chegar lá em tal dia e hora, tudo esquematizado com antecedência pelos donos da companhia, que, depois de Deus, são os Todo-Poderosos. Mas a coisa mais chata é que são sempre as mesmas pessoas a bordo, sempre as mesmas caras que sou obrigado a ter à mesa – os mesmos chargés d’affaires, os mesmos diplomatas, os mesmos ricaços, os mesmos banqueiros graúdos. Depois de trinta anos, conheço a todos bem demais! Se ao menos tivesse a coragem de seguir sua idéias infernais, girar o timão e apontar para uma outra direção qualquer, para leste ou oeste, não importa… passar o Cabo, navegar os mares do sul.” Tudo isso para lhe dizer que, a bordo, não escrevo.

– Não disse uma vez que se fortalece no amor e na solidão?

Na verdade, os artistas vivem ao lado, à margem da vida e da humanidade; é por isso que são grandes demais ou pequenos demais.

– À margem da humanidade? Então não se considera um artista?

Não. Já tive trinta e seis profissões e estou pronto para começar outra coisa inteiramente diferente amanhã mesmo.

– O senhor nunca teve problemas para ganhar a vida. Durante a ocupação, viveu a maior parte do tempo da venda de plantas e ervas cultivadas por suas próprias mãos, em seu jardim em Aix-en-Provence.

Algumas folhagens e plantas medicinais.

– Tem interesse em abelhas?

Tenho interesse em abelhas porque elas me fazem ganhar um bom dinheiro, nunca teria o interesse de um Maeterlinck – estudar os hábitos das abelhas e daí tirar conclusões morais absurdas para aplicar ao homen. Há milhares de pessoas parecidas no mundo todo que estudam com paixão a vida das abelhas e das formigas e depois referem-se à sua organização social como sendo um exemplo a seguir; isso é completamente errado, eu acho, porque para os insetos não existe ética ou senso de justiça. Criei abelhas porque era um trabalho fácil e bem pago. Tudo que você precisa é uma boa clientela.

– O senhor disse que, ao contrário de muitos escritores, não foi à guerra para escrever, e que, na época em que era soldado, carregava uma arma.

É por isso que nunca fui um daqueles escritores-soldados. Ou se é um combatente, ou se é um escritor. Quando se escreve, não se está atirando e quando se está atirando, não se está escrevendo, escreve-se depois. Teria sido muito melhor escrever antes e evitar tudo aquilo.

– E qual a sua opinião sobre Jean-Paul Sartre?

 Não tenho nenhuma opinião sobre ele, Sartre não me envia seus livros. Existencialismo? Quanto à doutrina filosófica, foi Schopenhauer quem, nos colocou em guarda contra os professores de filosofia que, depois de completar seus estudos formais, meditam, escrevem, pensam, rabiscam mani­festos – e Sartre é um professor. Peças filosóficas são maçantes no teatro, e Sartre apresenta suas teses no palco. Romances acadêmicos ou são bem escri­tos, ou são mal-escritos; os de Sartre não são nem uma coisa nem outra. Os escritores jovens de hoje – encontrei muitos deles desde minha volta a Paris e me pergunto o que os torna especificamente existencialistas. Será por que eles se disfarçam toda noite para ir a Saint-Germain-des-Pres da mesma maneira que seus pais se vestiam toda noite para freqüentar a sociedade ou ir ao clube? Isso é um modismo que vai passar, que já passou. Não me deixo levar pelo barulho de um desfile. Mas o mundo se entedia consigo mesmo. O cinema, o radio, a televisão… A verdade é que muito poucas pessoas sabem viver e aquelas que aceitam a vida como ela é são ainda mais raras.

– Não sei o que pode ser dito exatamente a respeito dessa inva­são dos professores à literatura, uma coisa é certa: o movimento de Jean-Paul Sartre não produziu poetas. Não é formado por poetas. Dele não surgiu nenhum poeta.

Provavelmente você está certo. No caso dos surrealistas, eu faria uma única exceção: Robert Desnos. Robert era uma boa criatura e muito inteligente mesmo. Ri muito e bebi muito com ele em um bar onde costumávamos nos encontrar, e que batizei de “L’Oeil de Paris” porque ficava na rue de Rivoli, embaixo das arcadas, a poucos passos da Concorde e onde você podia ver, sem sair de sua mesa, toda Paris passar por você, e que Robert, por sua vez batizou maliciosamente de “Chez Madame Zyeux” por causa das mulheres que entravam para usar o toilette e que saíam de lá olhando para a frente, para não amarrotar seu ar de dignidade admitindo que tinham ido lá para mijar.

– O senhor disse uma vez que inveja Maiakovski por causa do painel iluminado do qual ele estava encarregado, na praça Vermelha em Moscou.

Não conheço nenhum outro poeta onde quer que seja que tivesse a sorte de e a oportunidade de usar um jornal iluminado para publicar – ou melhor, exibir – seus poemas em plena rua. Não se tratava de publicidade ou de propaganda. Talvez, em parte, fosse mera propaganda de um membro do partido, mas Maiakovski tinha um amor muito grande ao povo e à poesia. Pense nos milhões de analfabetos que existiam na Rússia. Nada a não ser o gênio de Maiakovski poderia mover uma multidão como essa. E é nisso que invejo Maiakovski – seus poemas não eram falados, seus poemas não eram escritos, eram desenhados. Até mesmo analfabetos entendem desenhos. Só posso compará-lo a Walt Disney, que também é um criador fantástico, talvez menos puro, e que é o grande poeta dos Estados Unidos, apesar de comercializado. Tenho certeza de que hoje Maiakovski gritaria seus poemas na praça Vermelha, com um alto e que os improvisaria todas as noites em uma rádio para que pudessem ser ouvidos nos quatro cantos do mundo – mais e mais poemas, novos, revolucionários na forma e no espírito.

– O senhor disse que existem outras coisas para se fazer na vida além de escrever livros, mas, mesmo assim, se revela um trabalhador extraordinário.

Vocês é que são os extraordinários! Todos vocês querem que nós escritores, escrevamos livros sem parar. E aonde isso leva? Me diz … Vai dar uma voltinha na Bibliotheque Nationale e você vai ver aonde é que isso leva, qual o destino. Um cemitério submerso. Milhões de livros entregue às traças. Ninguém sabe mais de quem eles são. Ninguém sequer pergunta. Terra incógnita. É um bocado desanimador. Não, não sou um trabalhador extraordinário, sou um sonhador extraordinário. Fui além de todas as minhas fantasias – até mesmo a de escrever.

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BLAISE CENDRARS (pseudónimo de Frédéric Sauser, 1887-1961), entrevistas radiofónicas concedidas a Michel Manoll, emitidas de Outubro a Dezembro de 1950, posteriormente publicadas com o título “Blaise Cendrars vous parle” pela Éditions Venoel, e republicadas no livro “Os escritores 2: as históricas entrevistas da Paris Review”. São Paulo: Cia. das Letras, 1989. Tradução de Luiza Helena Martins Correia. Fonte

The 4th way

«No “faith” is required on the fourth way; on the contrary, faith of any kind is opposed to the fourth way.» – Gurdjieff

 

Surpassing the way of the Fakir (Sufi tradition), the way of the Yogi (Sikh and Hindu tradition) and the way of the Monk (Christian and Buddhist traditions), Gurdjieff conceived the Fourth Way.

According to Gurdjieff:
– “fakir” denotes a physical path of development;
– “yogi” is a path of mental development;
– “monk” follows a path of emotional development.

The fakir undergoes extreme physical torture and reconditioning to suppress his body to his will, but has no outlet for the emotional and intellectual.

The yogi studies and ponders the mysteries of life, but has no emotional or physical expression.

The monk possesses great faith and gives himself to his emotional commitment to God, but suffers pains of the body and intellectual starvation.

Names for the Gurdjieffian system were the Fourth Way or the Way of the Sly or Cunning Man.

In the Fourth Way, people do not need to suffer physical, emotional or intellectual tortures, but merely start their own life experiences. They work on themselves as they are, trying to harmonize all paths and using every cunning trick they know to keep themselves “awake.”

Though, Gurjjieff might have been unfair to Yoga and have not seen that, originally, Yogi path was already the fourth, as stated in the Bhagavad Gita, chapter 6 verse 46:

«Greater is the Yogi than body disciplining ascetics, greater even than the followers of wisdom’s path. Greater than the path of action. Be thou Arjuna a Yogi!»

‘Master of fuck’

«Accept despair and anguish and frustration and see it through. Don’t go to a doctor, don’t go to an analyst above all…»

Henry Miller

«huh, here’s a wonderful zen story. it’s huh, about, huh, a monk called roshi bobo, which in english means master of fuck. now the title shouldn’t throw anyone and may not mean exactly what people think. huh, but there’s one thing you can say about the master of fuck, that this fuck is an extraordinary one like none that ever was before. and the whole story concerns a young man fifteen years of age whose parents sent him to a zen monastery to become a monk and of course to receive enlightenment. umm… he was a fairly bright young man, good looking, obedient and huh, as far as anyone can see huh… good material. but umm, after a few years, huh, nothing seemed to happen, he didn’t seem to be getting anywhere. five years past, nothing, ten, and even his masters began to despair of him. finally after fifteen years he decided that he didn’t have it in him, he didn’t have what it takes, and, he would go out and enjoy earthly, huh, life, you know… be a man of the world, if he couldn’t be a monk. so he slipped out one night with his bag and baggage and huh, he wandered in to the red light district. and there he encountered a girl… seemed to him like a geisha, and he went to bed with her, immediately. well, it was his first experience with a woman, and umm… instead of being awkward though, and embarrassed and shy, and so on… he seemed to be very adept, his senses were highly attune from his zen training. he was aware of her body, the touch, the smell… everything! even when the clothes dropped to the floor… created a sensation in him. so, in the midst of this huh, marvelous, huh, experience, he suddenly has what he couldn’t get in the monastery; the experience of satori. he saw things as they are and were and always will be, once and forever, clearly, you know… which is, huh, really what enlightenment is all about, don’t ya know! the important thing was he had allowed himself to go to the very end of doubt and despair. had he not, you see, this would never had happened. but he went to the very end of the tunnel and saw the light. and huh, this is, of course, huh, something does not happen to people in psychoanalysis. they may be adapted to our corrupt world when they’re finished, but they never reach satori, do you see… and they never see things as they really are, in my opinion. and of course, there’s another aspect to it, huh, and a very wonderful one… it’s like william blakes idea of going, of reaching heaven through hell. it doesn’t matter what road you take to, huh, reach paradise. and beside that even, one might say that paradise is not even just around the corner but right under your nose, if you, you know, if you happen to be lucky and aware enough, you know… and i think that’s the great burden of it, that one should, huh, one should, how shall i say… accept his doubts completely, as the buddha once advised, you know… accept despair and anguish and frustration and see it through. don’t go to a doctor, don’t go to an analyst above all, heh, heh heh…»
Henry Miller Asleep and Awake
“Henry Miller Asleep and Awake” (2007), directed by Tom Schiller, filmed when the author was 81. It is a voyage through his bathroom’s improvised gallery, talking about life, sex, spirituality, nightmares, philosophers, writers, painters, mad kings, women, friends and New York.