Da náusea

Hoje acordei com náuseas: ou estou outra vez doente ou a náusea tornou-se existencial.

«Isto está mau, muito mau: cá está ela, a porcaria da Náusea. (…)

Então a Náusea acometeu-me, deixei-me cair no assento, nem sequer já sabia onde estava; via as cores girarem lentamente à minha volta, tinha vontade de vomitar. E aqui está: desde então que a Náusea não me deixa; a Náusea apossou-se de mim. (…)

A Náusea não está dentro de mim: sinto-a além, na parede, nos suspensórios, em toda a parte à minha volta. Constitui um todo com o café; sou eu que estou dentro dela. (…)

A Náusea não me abandonou, e não creio que me abandone tão cedo; mas deixei de sofrer com ela, não se trata já duma doença nem dum acesso passageiro: a Náusea sou eu. (…)

A Náusea, o medo, a existência… É melhor guardar essas coisas para mim. (…)

A Náusea concede-me uma trégua curta. Mas sei que voltará: é o meu estado normal. Somente, hoje o meu corpo está cansado de mais para a suportar. Também os doentes têm fraquezas bem-vindas que lhes tiram, por algumas horas, a consciência do seu mal. Aborreço-me, é tudo. De vez em quando bocejo com tanta força que as lágrimas me correm pelas faces. É um aborrecimento profundo, profundo, o coração profundo da existência, a própria matéria de que sou feito.»

– “A Náusea”, Jean-Paul Sartre.

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