Não virem trapos de hospital

«CP: Você não se sente responsável por pessoas que tomam drogas, que podem ter lido “O Anti-Édipo” um pouco literalmente demais, como se, como Catão, pudesse ter incitado os jovens a cometer asneiras [“conneries”]?

GD: Sentimo-nos responsáveis por tudo, se algo dá errado.

CP: E os efeitos de “O Anti-Édipo”?

GD: Sempre me esforcei para que desse certo. Em todo caso, nunca, acho, é minha única honra, nunca me armei em esperto com essas coisas, nunca disse a um estudante: é isso, drogue-se você tem razão. Sempre fiz o que pude para que ele saísse dessa, porque sou muito sensível à coisa minúscula que de repente faz com que tudo vire branco [“état de blanc”]. Que ele beba, muito bem… Ao mesmo tempo, nunca pude criticar as pessoas, não gosto de criticá-las. Acho que se deve ficar atento ao ponto em que a coisa não funciona mais. Que bebam, se droguem, o que quiserem, não somos policiais, nem pais, não sou eu quem deve impedi-los ou… mas fazer tudo para que não virem trapos. No momento em que há risco, eu não suporto [“je ne le supporte pas”]. Suporto bem alguém que se droga, mas alguém que se droga de tal modo que… de modo selvagem [“état sauvage”], de modo que digo para mim: pronto, ele vai-se ferrar, não suporto. Sobretudo o caso de um jovem, não suporto um jovem que se ferra, é insuportável [“insupportable”]. Um velho que se ferra, que se suicida… ele teve sua vida. Mas um jovem que se ferra por asneira, por imprudência, porque bebeu demais… Sempre fiquei dividido entre a impossibilidade de criticar alguém e o desejo absoluto, a recusa absoluta, de que ele vire trapo [“état de loque”]. É um desfiladeiro estreito, não posso dizer que há princípios, a gente sai fora como pode, cada caso é um caso. É verdade que o papel das pessoas, nesse momento, é de tentar salvar os garotos, o quanto se pode. E salvá-los não significa fazer com que sigam o caminho certo, mas impedi-los de virar trapo. É só o que quero.

CP: Mas sobre “O Anti-Édipo”, houve efeitos? (…) Porque era um livro revolucionário, na medida em que parecia, para os inimigos desse livro, e para os psicanalistas, uma apologia da permissividade, e dizer que tudo era desejo…

GD: De forma alguma… Esse livro, ou seja, quando se lê esse livro, ele sempre teve uma prudência, me parece, extrema. A lição era: não se tornem trapos. Quando nos opúnhamos… não paramos de nos opor ao processo esquizofrénico como o que ocorre num hospital, e para nós, o terror era produzir uma criatura de hospital. Tudo, menos isso! E quase diria que louvar o aspecto de valor da “viagem”, daquilo que, naquele momento, os anti-psiquiatras chamavam de viagem ou processo esquizofrénico, era um modo de evitar, de conjurar a produção de trapos de hospital [“loques d’hôpital”], a produção dos esquizofrénicos, a fabricação de esquizofrénicos.»

– “L’ Abécédaire de Gilles Deleuze”

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