Medice, cura te ipsum

O nome “Quíron” deriva da palavra χείρ, “mão”, e relaciona-se com a destreza do cirurgião — note-se que a palavra χειρουργία, “trabalho manual, cirurgia” deriva do mesmo radical. Os “cheironidae”, uma família de médicos da Magnésia, afirmavam descender de Quíron (Plu. Quest. conv. 647a, cf. Smith, 1867, s.v. Cheiron).

O centauro Quíron (gr. Χείρων) era filho do titã Cronos e de Philyra, uma das oceânides. Apesar de ser imortal e meio-irmão dos deuses Zeus, Poseídon e Hades, vivia entre os mortais, numa gruta do monte Pélion, na Tessália.

Quíron não tinha a natureza selvagem dos outros centauros, filhos de Íxion e da nuvem. Ele era sábio, exímio caçador, conhecedor de música, de plantas medicinais, de cirurgia e de outros conhecimentos práticos prezados pelos antigos. Os conhecimentos médicos foram transmitidos aos mortais por seu intermédio.

Quíron foi mestre de vários heróis, entre eles, Herácles, Peleu, Áquiles, Asclépio, Jasão (o futuro líder dos argonautas).

Durante uma peleja, Quíron foi atingido acidentalmente por uma flecha de Héracles, embebida no veneno da Hidra de Lerna, produzindo uma ferimento incurável. O centauro sofria de dores horríveis, que nem os seus conhecimentos médicos eram capazes de mitigar. Desesperado, o imortal Quíron preferiu morrer. Zeus concedeu-lhe esse desejo e colocou-o entre as constelações (Sagitário).

As menções mais antigas a Quíron estão na Ilíada (4.219, 11.832, 16.140-4 e 19.387-91). As principais fontes do seu mito, no entanto, são Píndaro (P. 3.1-7, 4.101-15 e 9.26-65), Apolónio Ródio (2.506-15), o Pseudo-Apolodoro (1.2.4, 2.5.4, 3.4.4 e 3.13.5), Plutarco (Quest. conv. 647a) e Eratóstenes (Cat. 1.18).

Quíron e as suas actividades são mencionadas (nem sempre positivamente) em muitas obras literárias, notadamente na “Aquileida” de Estácio (séc. I), numa das Imagens de Filóstrato, o Jovem (865.12, séc. III), no “Polycraticus” de John of Salisbury (1159), no “Emblematum Liber” de Andreas Alciato (1546), na “Divina Comédia” de Dante (Inferno, canto 12, 1308-1321), em “O Príncipe”, de Maquiavel (1532, cap. 18) e no “Fausto”, de Goethe (parte 2, ato 2, cena 5, 1832). O mito inspirou uma novela de John Updike, “The Centaur” (1963).

O tema do médico doente, incapaz de se curar a si próprio, está presente em Ésquilo (Pr. 473-4) e consta também do Evangelho de Lucas (4.23): ἰατρέ, θεράπευσον σεαυτόν, “médico, cura a ti mesmo”. Na forma latina da Vulgata, traduziu-se por “medice, cura te ipsum”.

Na cerâmica do início do século VI em diante, Quíron é representado como meio-homem, com pernas humanas, e a parte traseira do corpo semelhante à de um cavalo. Posteriormente, tinha aspecto humano apenas do umbigo para cima. Frequentemente, para enfatizar a sua natureza civilizada, o artista colocava-lhe roupas e, para destacar a sua competência de caçador, ocasionalmente trazia no ombro uma vara com diversos animais pendurados.

O pacto ("dexiosis"): Peleu (pai) entrega Áquiles (filho) ao mestre Quíron, centauro. Ânfora com figuras negras, ca. 520 a. C., Boulogne-sur-Mer.
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