Se és homem, ensina-te a ti mesmo

«A nossa política educacional baseia-se em duas enormes falácias.

A primeira é a que considera o intelecto como uma caixa habitada por ideias autónomas, cujo número pode aumentar-se pelo simples processo de abrir a tampa da caixa e introduzir-lhe novas ideias.

A segunda falácia é que todas as mentes são semelhantes e podem lucrar com o mesmo sistema de ensino.

Todos os sistemas oficiais de educação são sistemas para bombear os mesmos conhecimentos pelos mesmos métodos, para dentro de mentes radicalmente diferentes. Sendo as mentes organismos vivos e não caixotes do lixo, irredutivelmente dissimilares e não uniformes, os sistemas oficiais de educação não são, como seria de esperar, particularmente afortunados. (…)

Mas pode observar-se parenteticamente que os sistemas absurdos e irracionais de educação, sob os quais foram criados, não impediram no passado que homens e mulheres de talento notável desenvolvessem plenamente as suas faculdades. Apesar de nenhuma educação, apesar, o que é pior, da educação mecânica e brutal, eles foram eles próprios, fizeram a sua obra. Eram demasiado fortes para o seu ambiente: educaram-se a si próprios.

As pessoas vulgares sucumbem ao seu ambiente. Submetem-se a serem ensinadas (que é tudo quanto a maioria dos educadores deseja que elas façam), e assim tornam-se no que o sistema as faz, apagadas, gente sem curiosidade, não desejando saber, e totalmente ignorantes da maneira como o saber pode obter-se se alguma vez for preciso.

O que é necessário é um sistema que encoraje os rapazes e as raparigas (não somente na infância, como é o caso presentemente) a ensinarem-se a si próprios; um sistema calculado para estimular a curiosidade da criança durante todos os anos do crescimento, para fazer do desejo de saber um desejo crónico e habitual, e familiarizar cada criança com os melhores métodos de o adquirir pelo seu próprio esforço. O que é preciso, numa palavra, é um sistema de educação individual. (…)

A educação é principalmente passiva. Não mais se espera dele que use de iniciativa, que descubra coisas por si mesmo. A sua primeira obrigação agora é sentar-se quieto e deixar que o professor ou professora da escola o ensine. Ele é considerado como um recipiente vazio. A função do professor é enchê-lo. (…)

Espera-se que os seus talentos se harmonizem com o padrão médio do grupo. O pequeno pode ser excepcionalmente inteligente e rápido, ou excepcionalmente lento e obtuso. Em ambos os casos, ele é um aborrecimento para o seu professor e para os condiscípulos, e, em ambos os casos, a sua própria educação é prejudicada. Se é inteligente, é forçado a ficar para trás pela maioria dos rapazes vulgares. Se é estúpido, é arrastado com tanta pressa que lhe é impossível aprender qualquer coisa completa e cabalmente. Passivamente, (…) senta-se à sua carteira enquanto o professor bombeia e mecanicamente re-bombeia informações para dentro do seu receptáculo mental.

“Toca a empinar, toca a empinar!
O bestunto das crianças é oco.
Toca a empinar, toca a empinar!
Ainda há mais p’ra dar ao coco.” (…)

A lição é geralmente enfadonha e tem de ser constantemente repetida, devido à incapacidade de uma jovem mente fixar a sua atenção em qualquer coisa que não a interesse. Cada repetição torna a lição ligeiramente mais enfadonha. Mesmo o trabalho que as crianças têm que fazer por si mesmas – contas, traduções, respostas a perguntas relativas à última lição (…), e assim por diante – não pode verdadeiramente chamar-se ocupação. Porque tais tarefas são amiudadas vezes nada mais do que exercícios sem significado, sem relação com qualquer coisa na experiência da criança e executadas para o seu fim tolo, e porque o professor disse que devem ser executadas, sem interesse ou desejo. (…)

Primeiro: o sistema de ensinar grandes turmas é intolerante e rígido. Não se dá qualquer desconto às idiossincrasias da criança individual, que é sacrificada à média da turma. (…)

A criança que é viva e talentosa numa matéria e não em outras ( e todo o ser humano tem os seus dons especiais), é obrigada, pelo sistema corrente de educação em massa, a sacrificar os seus talentos às suas deficiências.

Segundo: no actual sistema de educação em massa por turmas, dá-se demasiada importância ao ensino e muito pouca à aprendizagem activa. A criança não é animada a descobrir coisas por sua própria conta. Aprende a confiar na ajuda alheia, não nas suas próprias forças, perdendo assim independência intelectual e toda a capacidade de julgar por si mesma.

A criança ultra-ensinada é o pai do homem devora-jornais, papa-anúncios, papa-propaganda, do demagogo-conduzido – do homem que faz da democracia moderna a farsa que ela é.

Além disso, as lições em turma deixam-na principalmente desocupada, e portanto, maçada. Tem de ser coagida a aprender aquilo que não lhe interessa, e a informação adquirida mecânica e relutantemente, pela força de uma repetição bruta, é rapidamente esquecida.

Terceiro: a criança, estando maçada e desocupada, torna-se também traquina. Passa a ser necessária uma estrita disciplina externa, senão será o caos e o pandemónio. A criança aprende a obedecer, não a controlar-se. Perde a independência tanto moral como intelectual. (…)

A educação actual e as actuais conveniências sociais premeiam o cidadão e imolam o homem. Nas condições modernas, os seres humanos vêm a ser identificados com as suas capacidades socialmente valiosas. (…) Sobre todas as tendências humanas que não conduzem à boa cidadania, a moralidade e a tradição social pronunciam uma sentença de banimento. (…) Quando os homens são criados para serem cidadãos e nada mais, tornam-se, primeiro, em homens imperfeitos e depois em cidadãos indesejáveis. A insistência nas qualidades socialmente valiosas da personalidade, com exclusão de todas as outras, derrota finalmente os seus próprios fins.»

– Aldous Huxley, “Sobre a Democracia e outros estudos” (1927), p. 85, 92 e sg, 110.

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