A arte do fantasma

«Je me dis que ce n’est pas par hasard si Michel attache une certaine importance à Sade, et moi au contraire à Masoch. Il ne suffirait pas de dire que je suis masochiste, et Michel, sadique. Ce serait bien, mais ce n’est pas vrai. Ce qui m’intéresse chez Masoch, ce ne sont pas les douleurs, mais l’idée que le plaisir vient interrompre la positivité du désir et la constitution de son champ d’immanence (…)» – Deleuze, “Désir et Plaisir”.

«Do corpo à obra de arte, da obra de arte às Ideias, vai toda uma extensão que se deve realizar à chicotada. Um espírito dialéctico anima Masoch. Tudo começa em “A Vénus” com um sonho que se segue a uma leitura interrompida de Hegel. Mas trata-se principalmente de Platão; se há spinozismo em Sade, e uma razão demonstrativa, há platonismo em Masoch, e uma imaginação dialéctica. (…) Sade invoca uma Razão analítica universal (…). Masoch invoca um espírito dialéctico (…). Em Sade, a função imperativa e descritiva da linguagem ultrapassa-se no sentido de uma pura função demonstrativa e escolarizante; em Masoch, ela também se ultrapassa, mas no sentido duma função dialéctica, mítica e persuasiva. (…) A maneira como Masoch define o seu idealismo ou “supra-sensualismo” parece banal à primeira vista; não se trata (…) de julgar o mundo perfeito, mas sim de “ganhar asas” e evadir-se pelo sonho. (…) Contesta-se o fundamento do real para pôr em destaque um puro fundamento ideal; tal operação está de acordo com o espírito jurídico do masoquismo. (…) O masoquismo é a arte do fantasma. (…) O masoquista precisa de crer que sonha, mesmo quando não sonha. (…) Sade precisa de crer que não sonha, mesmo quando sonha. (…) O importante para Sade eram as sociedades racionalistas e ateias, maçónicas e anarquistas. Para Masoch, são as seitas místicas agrícolas (…). “Objectem o que quiserem os psicanalistas e os sexologistas, mantenho que o local de nascimento do masoquismo é a fantasia”. (…) Ao frio pensamento do sádico opõe-se a imaginação gelada do masoquista. E, de acordo com as indicações de Reik, tem de se fazer intervir a “fantasia” como lugar de origem do masoquismo.» – Deleuze, “Présentacion de Sacher-Masoch”, p. 21, 33-34, 72, 79, 106, 117, 139.

«”Lógica do Sentido” pode ler-se como o livro mais distanciado que se possa conceber da “Fenomenologia da Percepção”: nela o corpo-organismo estava unido ao mundo por uma rede de significações originárias que a percepção das mesmas coisas tinha. Em Deleuze, o fantasma forma a incorporal e impenetrável superfície do corpo (…). Não transporta consigo uma metafísica vergonhosa; conduz alegremente a uma metafísica (…) liberta de profundidade originária como que dum ente supremo, mas capaz de pensar o fantasma fora de todo o modelo e no jogo das superfícies (…). “Lógica do Sentido” dá-nos a pensar o que durante tantos séculos a filosofia havia deixado em suspenso: o acontecimento (…) e o fantasma (…). Depois disto, existe, no século XX algo mais importante por pensar do que o acontecimento e o fantasma? (…) Deleuze analisou claramente o que era necessário para pensar o fantasma e o acontecimento. Não tentou reconciliá-los (dilatar a ponta do acontecimento com toda a espessura imaginária do fantasma, ou lastrar a flutuação do fantasma com um grão de história real). Descobriu a filosofia que permite afirmá-los, um e outro, disjuntivamnete. Deleuze tinha formulado esta filosofia, inclusivamente antes da “Lógica do Sentido”, com uma audácia sem comparação, em “Diferença e Repetição”. (…) A supressão das categorias, a afirmação do carácter unívoco do ser, a revolução repetitiva do ser em redor da diferença, são finalmente a condição para pensar o fantasma e o acontecimento.» – Foucault, “Theatrum Philosoficum”, p. 42 e sg.

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