Anedota de Bocage

Conta-se que Bocage, ao chegar a casa um certo dia, ouviu um barulho estranho vindo do quintal.

Chegando lá, constatou que um ladrão tentava levar os seus patos de criação. Aproximou-se vagarosamente do indivíduo e, surpreendendo-o ao tentar pular o muro com os seus amados patos, disse-lhe:

– Oh, bucéfalo anácrono! Não te interpelo pelo valor intrínseco dos bípedes palmípedes, mas sim pelo acto vil e sorrateiro de profanares o recôndito da minha habitação, levando meus ovíparos à sorrelfa e à socapa. Se fazes isso por necessidade, transijo… mas se é para zombares da minha elevada prosopopeia de cidadão digno e honrado, dar-te-ei com a minha bengala fosfórica bem no alto da tua sinagoga, e o farei com tal ímpeto que te reduzirei à quinquagésima potência que o vulgo denomina nada.

E o ladrão, confuso, diz:
– Doutor, afinal levo ou deixo os patos?

Direito ao desemprego criador

«Recordaremos a Idade das Profissões como aquele tempo em que a política entrava em decomposição quando os cidadãos, guiados por professores, confiavam a tecnocratas o poder de legislar sobre suas necessidades, a autoridade de decidir sobre quem necessitava de tal coisa e o monopólio dos meios que satisfaziam estas necessidades. Lembraremos como a Idade da Escolarização os tempos em que se treinavam as pessoas durante um terço da vida para que acumulassem necessidades prescritas, para durante os dois terços restantes passarem a ser clientes de prestigiosos traficantes que dirigiam seus hábitos. Recordaremos a Idade das Profissões como aquela na qual as viagens de recreio significavam o olhar fixo e formal para os estranhos e na qual a intimidade era um requentado programa de televisão da noite anterior, e votar era dar sua aprovação a um vendedor só para alcançar mais dele. (…)

…seria importante distinguir três grandes passos pelos quais as atividades assalariadas adquiriram aquele significado com o qual hoje se define o desempregado dentro de uma categoria social.

Primeiramente, alguns dos grandes humanistas dos fins do Renascimento, como Giordano Bruno e Campanella, afirmaram claramente a superioridade da vida ativa em oposição ao contemplar passivo.

O passo seguinte ocorreu, segundo Hanna Arendt, quando «o trabalho se transformou, da atividade mais humilde à atividade mais apreciada, no momento em que Locke afirmou que o trabalho é a fonte de toda riqueza». Não se deve esquecer que mesmo para Adam Smith a terra e o capital também contaram como fonte de valor. Somente com Ricardo o trabalho institucionalizado se converteu na fonte determinante de todo valor.

Daí chegamos a Marx, o qual define o homem como animal laborans. Scheler descreveu por sua vez como a passagem do trabalho de«sofrimento» para «direito» do homem ao trabalho reflete uma transformação sem precedentes na visão social do que o homem é. Daí em diante, faltará ao homem a possibilidade de realizar sua humanidade se não tem a possibilidade de produzir bens ou serviços.

Agora o homem está feito para o emprego. Aquele que não tem emprego carece da condição básica para ser fonte de valor. Pela primeira vez na história, o trabalho é digno e confere dignidade. O desemprego converteu-se num mal, no Ocidente é causa de um desajuste da sociedade e é uma forma de exploração ao serviço da estabilidade dos preços, nos países socialistas é uma falta moral ou psicológica do indivíduo. (…)

Para terminar, a desvinculação das atividades produtivas da área do emprego ameaça a todos os feudos fechados cuja existência está fundamentada na percepção da mais-valia. Quero dizer a todo mundo que controle os meios de produção, em nosso nível de desenvolvimento, antes de mais nada, a todos os «capitalistas do saber», ou seja, aos que pertencem aos feudos profissionais».

– Ivan Illich, “Direito ao Desemprego Criador

The priest of knowledge as tax collector

«…the message which school teaches: that they should have school, and more and more of it. School instructs them in their own inferiority through the tax collector who makes them pay for it, or through the demagogue who raises their expectations of it, or through their children once the latter are hooked on it. So the poor are robbed of their self-respect by subscribing to a creed that grants salvation only through the school. (…) The New World Church is the knowledge industry, both purveyor of opium and the workbench during an increasing number of the years of an individual’s life. Deschooling is, therefore, at the root of any movement for human liberation.»

– Ivan Illich, “Deschooling Society

«The Roman Church is the world’s largest non-governmental bureaucracy… Men suspect that it has lost its relevance to the Gospel and to the world. Wavering, doubt, and confusion reign among its directors, functionaries, and employees. The giant begins to totter before it collapses. Some Church personnel react to the breakdown with pain, anguish, and fright. Some make heroic efforts and tragic sacrifices to prevent it…I would like to suggest that we welcome the disappearance of the institutional bureaucracy in a spirit of deep joy.».

– Ivan Illich, “The Vanishing Clergyman“, p. 59

«…it is indeed true that Europe is the Church and the Church is Europe. Nebrija and universal education in the modern state cannot be understood without a close knowledge of the Church, insofar as this institution is represented as a mother. (…) The popes then insist on an understanding of the Church as Mater, Magistra, and Domina – mother, authoritative teacher, sovereign. (…) The idea that humans are born in such fashion that they need institutional service from professional agents in order to reach that humanity for which by birth all people are destined can be traced down to Carolingian times. It was then that, for the first time in history, it was discovered that there are certain basic needs, needs that are universal to mankind and that cry out for satisfaction in a standard fashion that cannot be met in a vernacular way. The discovery is perhaps best associated with the Church reform that took place in the eighth century. The Scottish monk Alcuin, the former chancellor of York University who became the court philosopher of Charles the Great, played a prominent role in this reform. Up to that time the Church had considered its ministers primarily as priests, that is, as men selected and invested with special powers to meet communitary, liturgical, public needs. They were engaged in preaching at ritual occasions and had to preside at functions. They acted as public officials, analogous to those others through whom the state provided for the administration of justice, or, in Roman times, for public work. To think of these kinds of magistrates as if they were “service professionals” would be an anachronistic projection of our contemporary categories.But then, from the eighth century on, the classical priest rooted in Roman and Helenistic models began to be transmogrified into the precursor of the service professional: the teacher, social worker, or educator. (…) The idea that there is no salvation without personal services provided by professionals in the name of an institutional Mother Church is one of these formerly unnoticed developments without which, again, our own age would be unthinkable. True, it took five hundred years of medieval theology to elaborate on this concept. Only by the end of the Middle Ages would the pastoral self-image of the Church be fully rounded. And only in the Council of Trent (1545) would this self-image of the Church as a mother milked by clerical hierarchies become formally defined. Then, in the Constitution of the Second Vatican Council (1964), the Catholic Church, which had served in the past as the prime model for the evolution of secular service organizations, aligns itself explicitly in the image of its secular imitations».

– Ivan Illich, “Vernacular Values