Resposta ao crente na representação de Roma

«Não creria nos Evangelhos se não me levasse a isso a autoridade da Igreja Católica».

– Santo Agostinho, “Contra epistulam Manichaei quam vocant fundamenti”, 5,6: PL 42, 176.

Todo o crente se pretende detentor da verdade.

Qualquer leitura que não vá ao encontro das crenças do fiel, será a do infiel, naturalmente do lado  “mau e errado”.

Esse lado pode, por vezes, ser a ciência ou a razão humana: «Não queira ver Deus pela Física ou pela ciência, o caminho para Deus é pela Fé, e essa não é um objecto, ou uma sensibilidade especial, é um Dom…»

A EQUIVOCIDADE do discurso é então usada para legitimar a função do detentor da verdade que “revela” e faz comércio de um ÚNICO significado como verdadeiro.

Outras vezes, idolatra-se a letra morta.

Alega-se então que se adulterou uma “tipificação veterotestamentária”, e tenta-se prová-lo, tecendo considerações históricas subjectivas, isto é, aquele tipo de historicidade que tudo submete à razão auto-suficiente do Sujeito, elevado a divindade.

Jesus histórico

Usar a historicidade para legitimar a fé em Jesus Cristo é dos argumentos mais refutáveis e refutados – não há registos que constituam prova irrefutável de que Jesus tenha existido historicamente:

«Most Biblical scholars, historians, archeologist and even the clergy are knowledgeable about one fact of Christianity that the Christian worshipper is not, there is limited historical facts to establish finite historical evidence that Jesus Christ existed. The vast majority of what Christians believe today is based purely on the New Testament, a collection of writings and testimony of those who knew Jesus and from those who never saw him. The origin of the New Testament was not the “bible” of the Christians until after 150 A.D. The actual “bible” of the early Christians was the Septuagint, the Greek Old Testament. For more than a century after the death of Christ, the early Christians relied on the Old Testament» – fonte.

Josefo

Flávio Josefo (37-100 d. C.) foi um fariseu (judeu ortodoxo) que escreveu em grego “Antiguidades Judaicas” (c. 93-94 d. C.), onde consta o trecho conhecido por “Testimonium Flavianum” (XVIII, parágrafos 63-64):

«Por esse tempo apareceu Jesus, um homem sábio, se é lícito chamá-lo de homem, porque realizou milagres e foi mestre daqueles homens que recebem a verdade com prazer. Atraiu a muitos judeus e gentios. Era o Cristo. Denunciado pelos principais judeus, Pilatos condenou-o a morrer na cruz. Aqueles que antes o amaram não o esqueceram, porque ele lhes apareceu vivo ao terceiro dia; como os profetas tinham prenunciado este e outros feitos maravilhosos a respeito dele. Desde então até hoje, existe a congregação dos cristãos, assim chamados por causa dele».

A obra original não nos chegou. A cópia conhecida mais antiga é do bispo Eusebius (séc. IV d.C.) e já contém o referido trecho onde se toma Jesus por Cristo, o que entra em contradição com um texto anterior do cristão Orígenes (séc. III d.C.), o qual, conhecendo a obra de Josefo, não a cita quando procura legitimar historicamente o cristianismo, e assevera que jamais Josefo teria reconhecido Jesus como Cristo. Tais factos levam os estudiosos a concluir que os copistas de fé cristã teriam interpolado o texto original com adições de sua lavra.

Voltaire já havia intuído a “falsificação” de Eusébio, na entrada ‘Cristianismo’ do “Dicionário Filosófico”: «Como teria esse judeu obstinado afirmado que Jesus era o Cristo? Que absurdo colocar na boca de Josefo palavras de um cristão!».

Suetónio

Gaius Suetonius Tranquillus (c. 69–140 d.C.) redigiu “De Vita Caesarum” (também conhecido como “Os doze Césares”) algum tempo depois da morte de Domiciano em 96 d.C. e publicou-a por volta de 119 – 120 d. C. Nela, relata o que se passou durante o reinado do imperador Cláudio (41-54 d. C.), anterior ao nascimento do próprio Suetónio:

«Iudaeos, impulsore Chresto, assidue tumultuantis Roma expulit» [“aos Judeus, impulsionados por Chresto, expulsou-os de Roma, por causa de seus assíduos tumultos”] (“Divus Claudius”, XXV).

“Chrestos” vs. “Christos”

“Chresto” deriva do grego “Chrestos”, que significa “bom”, “sábio”, “inspirado” [por Deus], e era usado como título para designar um (a)divinho (dos mistérios pagãos, que se sentava no lugar próprio para oráculos chamado “chresterion”, onde lhe calhava profetizar, “chreo/chrao/chraomai”, o destino/fado, “to chreon”), profeta, mestre ou guia de uma comunidade – tanto o deus Osíris, como o rei da Judeia, Herodes Agrippa I, eram apelidados de “Chrestos”.

Outro termo era “Christus”, derivado do grego “Christos”, com o significado de “o Ungido”, análogo ao hebraico “Messias”. “Chrio” ou “chriso” era o óleo com que os pastores ungiam a cabeça das ovelhas para afastar certos parasitas que lhes entravam para os ouvidos e as matavam.

O primeiro termo é o mais antigo, mais lato e de uso comum, enquanto o segundo possui um significado mais recente, restrito e distintivo.

Polus (nome grego de S. Paulo) nunca usou “Christian” nos seus escritos, tanto quanto é possível aferir pelas traduções gregas que nos chegaram (séc. II d. C.), pois estas usam “Chrestian” e uma série de palavras da mesma família etimológica: chrestotes, chrestos, chrestologia, chresteuomai, chresis, chresimos, chrematismos, chrematizo, chrezo, chreia, chraomai… Não é, pois, de admirar que os Gregos de Antióquia tenham apelidado Polus de “Chrestian”. Há, inclusive, um certo truque de linguagem que joga com o nome de Polus (que, em aramaico, quer dizer “trabalhador”, e que é também um dos significados de “Chrestian”).

A mais antiga inscrição cristã datada (1 de Outubro de 318 d.C.), encontrada na igreja dos Marcionitas (gnósticos cristãos), na Síria, menciona “Isu Chrestos”, logo, “Jesus, o Bom”.

Os mais antigos manuscritos do Novo Testamento conhecidos são o Sinaiticus (c. 325-360 d. C.) e o Vaticanus (séc. IV). Ambos contêm o termo original grego XPHCTIAN (“Chrestian”), que, em cópias posteriores (a primeira sendo o “Codex Alexandrinus”, séc. V d.C.), será substituído por XPICTIAN (“Christian”).

O Chi-Rho, as duas consoantes que foram a insígnia primitiva da cristandade, tanto podiam ler-se “Chrestos”, como “Christos”.

Durante um certo período, ambos os termos foram usados, como atesta Clemente (150-211 d. C.):

«Now those who have believed in Christ both are and are called Chrestians, as those who are cared for by the true king are kingly. For as the wise are wise by their wisdom, and those observant of law are so by the law; so also those who belong to Christ the King are kings, and those that are Christ’s Christians.» – “Stromata”, IV.

No entanto, o termo mais moderno começou a ser privilegiado em relação ao anterior por alguns autores.

Tertuliano (160-220 d.C.), Ad nat. 1.3, 8-9:

«Even when by a faulty pronunciation you call us ‘Chrestians’ (for you are not certain about even the sound of this noted name), you in fact lisp out the sense of pleasantness and goodness».

Inácio de Antióquia (c. 40-117 d. C.) usou-o para destacar uma determinada linhagem (a dos crentes não judeus em detrimento dos judeus Nazarenos), demonstrando a luta que travavam as diversas seitas que constituíam o cristianismo primitivo para tomar o poder, e cuja consequência mais imediata era proclamar heréticos ou infiéis os vencidos:

«Let us therefore prove ourselves worthy of that name which we have received. For whosoever is called by any other name besides this, he is not of God; for he has not received the prophecy which speaks thus concerning us: The people shall be called by a new name, which the Lord shall name them, and shall be a holy people. This was first fulfilled in Syria; for the disciples were called Christians at Antioch, when Paul and Peter were laying the foundations of the Church. …Abide in Christ, that the stranger may not have dominion over you. It is absurd to speak of Jesus Christ with the tongue, and to cherish in the mind a Judaism which has now come to an end» – “Magnesians”, ch. 10b.

Por seu lado, o cristão Lactâncio (c. 240-320 d.C.) sublinha a diferença entre “Chrestos” e “Christos”, relatando que este último epíteto era o preferido pelas seitas heréticas:

«For Christ is not a proper name, but a title of power and dominion; for by this the Jews were accustomed to call their kings. But the meaning of this name must be set forth, on account of the error of the ignorant, who by the change of a letter are accustomed to call Him Chrestos. The Jews had before been directed to compose a sacred oil, with which those who were called to the priesthood or to the kingdom might be anointed. And as now the robe of purple is a sign of the assumption of royal dignity among the Romans, so with them the anointing with the holy oil conferred the title and power of king. But since the ancient Greeks used the word “Chrestos” to express the art of anointing, which they now express by “Christos”, as the verse of Homer shows,

“But the attendants washed, and anointed [“chriso”] them with oil;”

on this account we call Him Christ, that is, the Anointed, who in Hebrew is called the Messias. Hence in some Greek writings, which are badly translated from the Hebrew, the word “eleimmenos” is found written, from the word “aleiphesthai”, anointing. But, however, by either name a king is signified” – Divine Institutes, Book IV Ch. VII.

(…)


”…all the separate assemblies of heretics call themselves Christians in preference to others” – Divine Institutes, Book IV, ch. XXX

Epifânio (315-403 d. C.), “Panarion”, 29, relata como o termo “Cristãos” se vem a constituir por oposição aos Nazarenos (judeus), embora Jesus fosse nazareno:

«1:2 For this group did not name themselves after Christ or with Jesus’ own name, but “Natzraya.” 1:3 However, at that time all Chrestians were called Natzraya in the same way. They also came to be called “Jessaeans” for a short while, before the disciples began to be called “Christians” at Antioch. 6:5 And no wonder the apostle admitted to being a Natzar! In those days everyone called Christians, this because of the city of Natzrat, there was no other usage of the name then. People thus gave the name of Natzraya to believers in Christ, of whom it is written, “He shall be called a Natzar.” 7:1 But these sectarians whom I am now sketching ,disregarded the name of Jesus, and did not call themselves Jessaeans, keep the name of Jews, or term themselves Christians but [rather] Natzraya’ from the place-name, Natzrat, if you please! However they are simply completed Jews».

Plínio, o Novo

Uma outra fonte tardia – mais de um século depois da suposta existência de Jesus – é Plínio, o Novo (c. 61-112 d. C.), governador das províncias romanas de Pontus e Bitínia, que escreveu uma carta ao imperador Trajano (“Epistulae”, X, 96), por volta de 112 d.C., perguntando sobre como lidar com os “Christiani” que adoravam a “Christo”. Esta carta fornece algumas das primeiras descrições por um observador não cristão sobre o estilo de vida dos cristãos primitivos (recolhidos em caves):

«They stated that the sum of their guilt or error amounted to this, that they used to gather on a stated day before dawn and sing to Christ as if he were a god, and that they took an oath not to involve themselves in villainy, but rather to commit no theft, no fraud, no adultery; not to break faith, nor to deny money placed with them in trust. Once these things were done, it was their custom to part and return later to eat a meal together, innocently, although they stopped this after my edict, in which I, following your mandate, forbade all secret societies. All the more I believed it necessary to find out what was the truth from two servant maids, which were called deaconesses, by means of torture. Nothing more did I find than a disgusting, fanatical superstition. Therefore I stopped the examination, and hastened to consult you. For it appears to me a proper matter for counsel, most greatly on account of the number of people endangered. For many of all ages, all classes, and both sexes already are brought into danger, and shall be [in future]. And not only the cities; the contagion of this superstition is spread throughout the villages and the countryside; but it appears to me possible to stop it and put it right. Certainly the temples which were once deserted are beginning to be crowded, and the long interrupted sacred rites are being revived, while food from the sacrifices is selling, for which up to now a buyer was hardly to be found».

 

Tácito

Tácito (c. 56-117 d. C.) descreve a perseguição de Nero aos cristãos logo após o grande fogo de Roma (c. 64 d.C., teria Tácito cerca de oito anos), passagem cuja menção mais antiga conhecida nos surge em textos do séc. XV (“Codex Mediceus II”, de Johannes de Spire, Veneza, 1468), o que justifica a incongruência etimológica de derivar “Chrestians” de “Christus”:

«Portanto, abolindo os rumores, Nero subjugou aos réus e os submeteu a penas e investigações, por suas ofensas, o povo os odiava e chamava-os de “Chrestians”, nome que tomam de “Christus”, que no tempo de Tibério tinha sido entregue ao suplício pelo procurador Pôncio Pilatos; reprimida na altura, a fatal superstição irrompeu de novo, não só na Judeia, donde provém o mal, senão também na metrópole [Roma], onde todas as atrocidades e vergonhas do mundo confluem e se celebram» – “Anais”, XV, 44:2-3, c. 116 d. C.

Imperador Adriano

Há também uma carta do imperador Adriano ao cunhado Servianus, escrita em 134 d.C. (citada por Flavius Vopiscus, Vita Saturnini, séc. IV d.C.) que faz coincidir o culto de Cristo com o de Serápis:

[Two different translations:]

«Egypt, which you commended to me, my dearest Servianus, I have found to be wholly fickle and inconsistent, and continually wafted about by every breath of fame. The worshipers of Serapis are called Christians, and those who are devoted to the god Serapis call themselves Bishops of Christ. The truth is, there is no one, whether Ruler of a synagogue, or Samaritan, or Presbyter of the Christians, or mathematician, or astrologer, or magician, that does not do homage to Serapis.  The Patriarch himself, when he comes to Egypt, is by some compelled to worship Serapis, and by others, Christ.  It is a race of men, of all the most seditious, vain and mischievous.  The state is powerful, rich, and abounding, and of so active a disposition, that no one is allowed to live without occupation.  Some are glass-blowers, some paper-makers, some weavers of thread.  All are professors of some one art or other.  The blind, and those who have the gout in their feet or hands, find something to do.  There is one God whom all worship (Serapis) both Christians, Jews, and Gentiles. I wish this place maintained a better character, worthy of its rank as the first city in Egypt. I have made great and liberal grants to it. I have restored to it its ancient privileges; I have laid it under much obligation by immediate benefits; and after all, as soon as I had left this people, they began to calumniate my son Verus, and I reckon you heard what they have said concerning Antinous. I wish them no further harm, than that they may live upon their own chickens, hatched on their own dunghills, according to that disgusting practice of theirs, which it is disagreeable even to allude to.»

«8 From Hadrian Augustus to Servianus 22 the consul, greeting. The land of Egypt, the praises of which you have been recounting to me, my dear Servianus, I have found to be wholly light-minded, unstable, and blown about by every breath of rumour. 2 There those who worship Serapis are, in fact, Christians, and those who call themselves bishops of Christ are, in fact, devotees of Serapis. 3 There is no chief of the Jewish synagogue, no Samaritan, no Christian presbyter, who is not an astrologer, a soothsayer, or an anointer. 4 Even the Patriarch himself, when he comes to Egypt, is forced by some to worship Serapis, by others to worship Christ. 5 They are a folk most seditious, most deceitful, most given to injury; but their city is prosperous, rich, and fruitful, and in it no one is idle. 6 Some are blowers of glass, others makers of paper, all are at least weavers of linen23 or seem to belong to one craft or another; the lame have their occupations, the eunuchs have theirs, the blind have theirs, and not even those whose hands are crippled are idle. 7 Their only god is money, and this the Christians, the Jews, and, in fact, all nations adore. And would that this city had a better character, for indeed it is worthy by reason of its richness and by reason of its size to hold the chief place in the whole of Egypt. 8 I granted it every favour, I restored to it all its ancient rights and bestowed on it new ones besides, so that the people gave thanks to me while I was present among them. Then, no sooner had I departed thence than they said many things against my son Verus,24 and what they said about Antinous25 I believe you have learned. 9 I can only wish for them that they may live on their own chickens, which they breed in a fashion I am ashamed to describe.26 10 I am sending you over some cups, changing colour27 and variegated, presented to me by the priest of a temple and now dedicated particularly to you and my sister. I should like you to use them at banquets on feast-days. Take good care, however, that our dear Africanus28 does not use them too freely.»

Dionysius Exiguus

O calendário romano (de dez meses por ano) foi instituído em 753 a.C.  e foi sendo actualizado: por Numa Pompílio (que o transformou para luni-solar) e depois por Júlio César em 46 a.C. (calendário juliano, predominantemente solar). Passou a contemplar doze meses por ano.

Com a ascensão do Cristianismo, os monges das diversas seitas encetaram disputas intelectuais para implementar um novo calendário, cristão.

Um monge ortodoxo da Cítia, actual Roménia, Dionysius Exiguus, “O Exíguo”, c. 470-544 d. C., adaptou umas tábuas pascais bizantinas provenientes de Alexandria, as quais obedeciam a ciclos lunares de dezanove anos, e acrescentou-lhes o “nihil“, o Ano Zero (marcando o nascimento de Jesus), numeral de que é o precursor no Ocidente, pois não existia nos numerais romanos. Esse calendário adoptado por Dionysius tinha como principal propósito calcular o período pascal em cada ano, estritamente definido de acordo com  um fenómeno astrológico/astronómico (ambas as disciplinas ainda não estavam dissociadas à época). O dia da ressurreição de Cristo, assim como vários acontecimentos da vida de Cristo e de S. João Baptista estavam intimamente relacionados com momentos determinados do curso dos astros ao longo do tempo:

«Argumentum 9. On the Easter moon in the month of March.
If you want to learn which moon it is on which the feast of Easter occurs; if Easter is celebrated in the month of March, compute the months from September to February, yielding 6. To this always add the correction 2, yielding 8; add the epacts, that is, the lunar increments of the year you want, say 12 for the third indiction, yielding 20; and the day of the month on which Easter is celebrated, that is March 30, yielding together 50. Deduct 30, 20 are left over; the twentieth [moon] is on the day of the resurrection of the Lord. (…)

Argumentum 15. On the day of the equinox and the solstice.
The day on which the Lord Jesus Christ was born into flesh from the Virgin Mary in Bethlehem is the one on which the day begins to increase. The first equinox is on March 25, when day is equal with night. On this very day Gabriel annunciates to Holy Mary, saying:   The Holy Ghost shall come upon thee, and the power of the Highest shall  overshadow thee. Therefore also that which shall be born of thee shall be called the Son of God. [Luke 1.35, courtesy King James] Also on this day Christ has suffered in the flesh. The second solstice is on June 24, from which the day starts to decrease, and also when Saint John the Baptist was born. The second equinox is on September 24, on which day John the Baptist was conceived. And right from then on until the birth of the Lord and Saviour, the day becomes shorter than the night. From March 25 and until December 25, the days number 271. And that number of days after our Lord Christ was conceived on Sunday March 25, our Lord Christ was born on Tuesday December 20. On the day on which he has suffered death, 133 [? 33] years and 3 months have elapsed, which are 12 [thousand] 414 days. And that number of days after his birth took place on a Tuesday, he suffered death on a Friday: he was born on December 25 and suffered death on March 25. From when our Lord Jesus Christ was baptized, there were 2 years and the days numbered 90, yielding 820, with its leap days, and so he was baptized on the day January 06, a Thursday, and suffered death, as I said above, on March 25, a Friday. With its leap days this yields 12 [thousand] 415 days altogether, and 90 days (from) January 06 to March 25.

Argumentum 16. On the rationale of the leap day.
One must not believe what some people maintain, that the leap day has arisen from that day on which Joshua commanded the sun to stand still: that day has been and is long gone. But it is called leap day because it gains one punctus in each month. The punctus is indeed the fourth part of an hour. And 4 puncti make one hour; and 12 puncti explain 3 hours. Hence in 4 years three hours each, which are 12, making 1 day which is added to February, so that when it is February 24, it is the same the next day. For instance, if today is February 24 and that day is added if 4 years are complete; then it will nevertheless be February 24 tomorrow. And it is called bisextile because February has two times the 6th of the calends of March.»

Dionysius Exiguus, “The Pascal Cycle“.

 

No século XVI, o Papa Gregório XIII faria novas adaptações ao calendário cristão (calendário gregoriano, promulgado a 24 de Fevereiro de 1582).

Padre António Vieira

Leia-se como o Pde. António Vieira abre a sua obra, consciente de que qualquer representação é NECESSARIAMENTE má, e, por extensão, toda a representatividade, todo aquele que se arrogue a representante de uma verdade “superior” é um mau representante:

«”Representação” chamo também a este papel, como ao primeiro. E necessariamente será muito MAL representada, porque me faltam e lhe faltam as principais figuras com que se havia de animar».

E acrescenta:

«Espero que se veja deste papel mais do que nele se lê: e que dos fundamentos toscos e rudes (que é somente o que poderei apontar) ou se julgue a firmeza do edifício, que só estava delineada no pensamento, ou quanto menos que teve bastante ocasião o mesmo pensamento para se enganar consigo, e cuidar que não ia mal fundado. A segunda parte desta disjuntiva é o que só pretendo mostrar, com a graça divina, em tanto desamparo de meios humanos».

Nas páginas seguintes, ele vai referir-se à falibilidade dos “meios humanos”, desdobrando-a nos quatro vícios dos Doutores da Lei (p. 6):
– os que se ficam pelos floreados do texto sem encetarem uma experimentação;
– os que tomam por verdade a letra morta do texto (sentido literal);
– o seguidismo dos meros papagueadores da tradição que não a adaptam aos tempos (a “jurisdição temporal” é entendida por Vieira como uma das “duas coroas de Cristo”);
– os que destacam excertos dos textos destruindo as relações e a coerência do todo.

E caso não haja sido suficientemente explícito, vem a sublinhar que o entendimento do mistério da fé é obra do tempo e não do saber doutrinário dos profetas e Doutores da Lei (p. 10):

«E este mesmo mistério que Daniel então não entendeu, porque não era chegado o tempo, depois que chegou o tempo, que foi o da paixão de Cristo, até os mininos de mama o entenderam. Assi que os mesmos mistérios que foram ocultos aos mais sábios e doutores, podem ser manifestos aos que sabem muito menos; porque isto não é prerrogativa do saber, senão ventura do tempo».

Para Vieira, «os príncipes e potestades deste Mundo são os demónios» (p. 43) a quem Deus «há-de sacudir essas cabeças e lançar fora o penacho da soberania» (p. 104) e, quanto às religiões acidentais, que são todas as religiões de comércio humano sem excepção, ele advoga que: «todas as seitas de sorte, que não haja em parte alguma do Mundo pública profissão delas, como hoje há» (p. 82).

O que António Vieira andava a fazer? – razão pela qual foi preso durante quatro anos pela Inquisição portuguesa – andava a colocar em causa a representatividade do pseudo-profeta e do conto “do Vigário” (que, ele, sendo padre, conhecia melhor do que ninguém) – p. 20 e sg.:

«O Sumo Pontífice sucedeu no Império Romano como Vigário de Cristo (…). O Império Romano é significado no ferro e barro da estátua, e o Império de Cristo na pedra, que a derrubou e desfez, que são figuras e cousas muito distintas [cf. profecia de Daniel]. (…) O Império Romano se descreve nas ditas visões, como corruptível, e o de Cristo como eterno; o Império Romano, como particular, o de Cristo, como universal; o Império Romano como violento e tirânico, o de Cristo como justo, legítimo e santo; o Império Romano como adquirido por ferro e força de armas, o de Cristo, como dado por Deus. (…) Quem haverá que diga que o Império de Cristo foi significado no ferro e pés de barro da estátua? Ou que foi significado na quarta besta, feríssima, cruelíssima, monstruosíssima? (…) O Império Romano enquanto romano, em qualquer parte ou pessoa, que se ache (seja só a do Imperador, ou só a do Pontífice, ou de ambos) sempre é o quarto Império. (…) O Império Romano tinha dez cornos, os quais significam o mesmo que os dez dedos da estátua, isto é, que aquele Império se dividiria em dez Reinos ou dez coroas (…): Portugal, Espanha, França, Inglaterra, Alemanha…»

Está visto o que o Pde. António Vieira entendia pelo Papa de Roma e como entenderia a Comunidade Europeia…

António Vieira fazia diferença entre as “vozes vivas” de Deus e as “vozes mortas” dos “verdadeiros pregadores” (p. 91 e sg.):

«Ainda que todas as vozes e palavras dos verdadeiros pregadores são vozes e palavras de Deus, umas vão informadas com a virtude de Deus, e outras não, a qual virtude é a alma das ditas palavras, e com ela são vozes vivas e sem ela vozes mortas, e nesta alma e nesta vida consiste a eficácia delas. (…) Porque a eficácia e virtude desta espada da palavra e voz de Deus, que penetra as almas e fere os corações, é a que há-de render a Cristo todas as coroas e a que o há-de fazer universal Rei e Senhor do Mundo (…). Porque o efeito da eficácia da voz e palavra divina, será o Bautismo [comparado a um Dilúvio espiritual]. (…) Falando (como é de fé) da futura Lei Evangélica, que Deus prometeu escrever nos corações dos homens, com diferença da Lei Velha escrita em tábuas de pedra: [cita Jeremias e continua:] De maneira que sem doutrina nem magistério de homens alcançarão os homens o verdadeiro e perfeito conhecimento de Deus: o qual por si mesmo os ensinará e alumiará. E para que não nos pareça incrível este novo modo de Luz universal, acrescenta imediatamente o Profeta: “Se a Providência divina proveu de tantas luzes universais assi de dia como de noite aos olhos corporais dando-lhe Sol, Lua, e Estrelas: esse mesmo Deus que tanto mais estima as almas, que os corpos, porque não proverá também em algum tempo os olhos espirituais de todo o género humano com uma Luz tão universal, que não só se estenda aos que estão no dia da fé, senão também aos que jazem na noite da infidelidade? Esta Luz universal é aquela de que estará vestida toda a natureza humana, como há pouco dezíamos, quando se cumprir o texto: “mulier amicta sole”. E este o meio-dia da Igreja: “ubi pascas ubi cubes in meridie”. E este o tempo em que ela verdadeiramente será: “electa ut sol”».

Uma adenda mais sobre as “vozes vivas” de Deus (p. 42):

«Se toda a Terra há-de cantar, porque Deus há-de Reinar em toda a Terra; segue-se que este Reino e este Reinar há-se ser juntamente e ao mesmo tempo e não em diversos. Porque se as vozes da Terra se não unirem ao mesmo tempo, nunca se pode verificar que toda a Terra canta, nem que toda a Terra diz louvores a Deus: como se vê claramente no tempo presente».

Será necessário metaforizar uma descrição como esta? – p. 31:

«O Império de Cristo (sendo diverso só na grandeza mas na substância o mesmo), nos princípios foi pequeno, nos progressos é maior, e no auge da sua perfeição será grandíssimo. A Lua Nova, a Lua crescente, e a Lua Cheia é a mesma Lua; o rio que no estio é regato, no Outono ribeiro, e no inverno mar, é o mesmo rio; o edifício que nos alicerces se esconde, nas paredes se levanta, e nas torres se remata e aperfeiçoa, é o mesmo edifício. Tal foi, tal é, e tal será o Império de Cristo, a quem Salomão compara à Lua, David ao rio, e ao edifício S. Paulo».

Ou como esta? – p. 102:

«A mesma Igreja, que é o Reino de Cristo, é também, como tantas vezes lhe chama no Evangelho, a sua seara, a sua vinha, e o seu jardim; e para que destas se colha a seu tempo o suave e proveitoso das flores e frutos, é necessário que procedam as geadas, os frios, as chuvas e os outros rigores do Inverno, em que as plantas tomam forças e fundam raízes. Passará de todo o tempo destas tempestades, como já tem passado o maior rigor delas, e então dirá Cristo a sua Igreja, e o Supremo Agricultor a sua Esposa: “Surge, propera amica mea et veni…”»

Não é notório que se substituiu o carpinteiro judeu histórico pelo Cristo Agricultor a-histórico?

E a forma como a Igreja é descrita, parece a corporação eclesiástica sediada na cidade-Estado do Vaticano?

Há que ser mais explícito?

«A figura da Mulher do Apocalipse no Cap. XII significa a natureza humana, e a Igreja, como dizem comummente os intérpretes: porque naqueles últimos tempos, de que fala esta visão, toda a natureza humana há-de ser Igreja, e a Igreja tão grande como toda a natureza humana; porque toda a dita natureza humana há-de estar vestida do Sol, que é Cristo, do qual se vestem todos os que se fazem cristãos por meio do Bautismo. (…). E este vestido não só é de Cristo, senão de Cristo com nome de Sol, pelas trevas da ignorância e infidelidade que se despem, e pela Luz da fé que se veste no mesmo Bautismo.» (p. 87).

Relembro que o “Bautismo” foi acima descrito como «o efeito da eficácia da voz e palavra divina», o que só com muita imaginação coincide com o desagradável banho de água fria que se dão aos bebés cujos ingénuos pais aderem a tolas superstições.

Quanto à Virgem Maria, o Pde. Vieira chama-lhe «tálamo virginal» e «madre» de onde sai a inundação de um rio que alaga tudo (mãe d’água).

Por curiosidade – o que é que «tálamo» tipificará, veterotestamentariamente?


Cristo com a samaritana junto ao poço (João 4:6-16). Mural da catacumba romana da Via Latina, séc. IV A.D. Fonte


Inscrição em mármore da pedra tumular da criança Asellus, com o Chi-Rho entre as figuras de Pedro e Paulo, Museu Pio Cristiano, Vaticano. À direita: “A SELLV BENEMBERE / NTI QVI VICXIT ANNV / SEX MESIS OCTO DIES / XXIII” [“For Asellus, well deserving, who lived 6 years, 8 months and 23 days”].


Pedra tumular de Seberus [“servidor de vinho”] retirada das catacumbas, séc. IV d.C., Museu Pio Cristiano, Vaticano. As letras gregas Omega e Alpha estão invertidas (a última letra vem primeiro) em relação à ordem expressa pelo Evangelho: «I am the Alpha and the Omega, the First and the Last, the Beginning and the End» (Apocalipse de S. João, 22:13). O Chi-Rho encontra-se incluso numa coroa de louros, símbolo de vitória e usada pelos Césares e pelos laureados nos Jogos Olímpicos, alusão ao mito da ninfa Dafne que se transmudou em loureiro para fugir a Apolo e este fez uma coroa com as suas folhas.

“Christos” com o Chi-Rho na cabeça e ladeado por duas romãs, mosaico datado do séc. IV a.D., encontrado no pavimento de uma casa em Hinton St. Mary, Dorset, Grã-Bretanha (British Museum). Só muito mais tarde é que os governantes proibiriam que imagens de Cristo fossem postas no chão, onde eram pisadas.

Sarcófago de Domatilla, séc. IV d.C.

Mosaico da Basílica de San Vitale, em Ravenna, Itália, séc. VI d.C., retratando a corte do imperador Justiniano (à direita) com o arcebispo Maximiano (à esquerda). O Chi-Rho surge num escudo militar.
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