Direito ao desemprego criador

«Recordaremos a Idade das Profissões como aquele tempo em que a política entrava em decomposição quando os cidadãos, guiados por professores, confiavam a tecnocratas o poder de legislar sobre suas necessidades, a autoridade de decidir sobre quem necessitava de tal coisa e o monopólio dos meios que satisfaziam estas necessidades. Lembraremos como a Idade da Escolarização os tempos em que se treinavam as pessoas durante um terço da vida para que acumulassem necessidades prescritas, para durante os dois terços restantes passarem a ser clientes de prestigiosos traficantes que dirigiam seus hábitos. Recordaremos a Idade das Profissões como aquela na qual as viagens de recreio significavam o olhar fixo e formal para os estranhos e na qual a intimidade era um requentado programa de televisão da noite anterior, e votar era dar sua aprovação a um vendedor só para alcançar mais dele. (…)

…seria importante distinguir três grandes passos pelos quais as atividades assalariadas adquiriram aquele significado com o qual hoje se define o desempregado dentro de uma categoria social.

Primeiramente, alguns dos grandes humanistas dos fins do Renascimento, como Giordano Bruno e Campanella, afirmaram claramente a superioridade da vida ativa em oposição ao contemplar passivo.

O passo seguinte ocorreu, segundo Hanna Arendt, quando «o trabalho se transformou, da atividade mais humilde à atividade mais apreciada, no momento em que Locke afirmou que o trabalho é a fonte de toda riqueza». Não se deve esquecer que mesmo para Adam Smith a terra e o capital também contaram como fonte de valor. Somente com Ricardo o trabalho institucionalizado se converteu na fonte determinante de todo valor.

Daí chegamos a Marx, o qual define o homem como animal laborans. Scheler descreveu por sua vez como a passagem do trabalho de«sofrimento» para «direito» do homem ao trabalho reflete uma transformação sem precedentes na visão social do que o homem é. Daí em diante, faltará ao homem a possibilidade de realizar sua humanidade se não tem a possibilidade de produzir bens ou serviços.

Agora o homem está feito para o emprego. Aquele que não tem emprego carece da condição básica para ser fonte de valor. Pela primeira vez na história, o trabalho é digno e confere dignidade. O desemprego converteu-se num mal, no Ocidente é causa de um desajuste da sociedade e é uma forma de exploração ao serviço da estabilidade dos preços, nos países socialistas é uma falta moral ou psicológica do indivíduo. (…)

Para terminar, a desvinculação das atividades produtivas da área do emprego ameaça a todos os feudos fechados cuja existência está fundamentada na percepção da mais-valia. Quero dizer a todo mundo que controle os meios de produção, em nosso nível de desenvolvimento, antes de mais nada, a todos os «capitalistas do saber», ou seja, aos que pertencem aos feudos profissionais».

– Ivan Illich, “Direito ao Desemprego Criador

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