Deleuze e o método científico

«Na mídia, na maior parte do tempo e nas conversas correntes, não há questões, não há problemas. Há perguntas. Se eu digo “Como vai você?”, isso não é um problema, mesmo se você estiver mal. Se eu digo “Que horas são?”, isso não é um problema. Tudo isso são perguntas. No nível da televisão habitual, mesmo em programas muito sérios, temos perguntas. “O que você acha disso?”. Isso não é um problema. É uma pergunta, queremos a sua opinião. É por isso que a TV não é muito interessante, é a opinião das pessoas. Isso não me parece muito interessante. Se dizemos “Você acredita em Deus?”, isso é uma pergunta. Onde estão o problema e a questão? Não existem. (…) Os programas políticos não discutem nenhum problema, mas poderiam fazê-lo. (…) Convidamos especialistas da China que nos dizem coisas que nós mesmos poderíamos ter dito sem saber nada sobre a China».

– Deleuze, “Abecedário”, Q de Questão.

«O problema não é dirigir, nem aplicar metodicamente um pensamento preexistente por natureza e de direito, mas fazer com que nasça aquilo que ainda não existe (não há outra obra, tudo o resto é arbitrário e enfeite). (…) A besteira sendo apenas uma determinação empírica, remetendo à Psicologia ou à anedota – pior ainda, à polêmica e às injúrias e aos livros de tolices como gênero pseudoliterário particularmente execrável. (…) Uma proposição concebida como resposta é sempre um caso particular de solução, considerado por si mesmo abstratamente, separado da síntese superior que o relacionaria, juntamente com outros casos, a um problema enquanto problema. A pergunta, por sua vez, exprime, portanto, a maneira pela qual um problema é desmembrado, cunhado, traído na experiência e pela consciência de acordo com seus casos de solução apreendidos como diversos. Embora nos dê uma idéia insuficiente, ela nos inspira, assim, o pressentimento do que ela desmembra. (…) Todavia,  esta  definição  exige  que  nos  desembaracemos  de  uma  ilusão  própria  da imagem  dogmática  do  pensamento:  é  preciso  parar  de  decalcar  os  problemas  e  as  questões  sobre proposições correspondentes, que servem ou podem  servir de  respostas. Nós sabemos qual é o agente da ilusão; é a interrogação, que, nos quadros de uma comunidade, desmembra os problemas e as questões e os reconstituem  de  acordo  com  proposições  da  consciência  comum  empírica,  isto  é,  de  acordo  com verossimilhanças de uma simples doxa. (…) Acreditou-se que o problema e a questão eram apenas a neutralização de uma proposição  correspondente. (…) Por não se ver que o sentido ou o problema é extra-proposicional, que ele difere, por natureza, de  toda proposição, perde-se o essencial,  a  gênese  do  ato  de  pensar,  o  uso  das  faculdades. A  dialética  é  a  arte  dos  problemas  e  das questões,  e  a  combinatória  é  o  cálculo  dos  problemas  enquanto  tais. Mas  a  dialética  perde  seu  poder próprio – e, então, começa a história de sua longa desnaturação, que faz com que ela caia sob a potência do negativo – quando ela se contenta em decalcar os problemas sobre as proposições. (…) Fazem-nos acreditar, ao mesmo tempo, que os problemas são dados  já feitos e que eles desaparecem nas respostas ou na solução; sob este duplo aspecto, eles seriam apenas quimeras. Fazem-nos  acreditar  que  a  atividade de pensar,  assim  como o  verdadeiro  e  o falso em  relação  a  esta atividade, só começa com a procura de soluções, só concerne às soluções. É provável que esta crença  tenha a mesma origem que a dos outros postulados da  imagem  dogmática:  exemplos  pueris  separados  de  seu  contexto,  arbitrariamente erigidos  em modelos. É  um preconceito  infantil,  segundo o qual o mestre apresenta um problema, sendo nossa a  tarefa de resolvê-lo e sendo o resultado desta tarefa qualificado de  verdadeiro ou de  falso por uma  autoridade poderosa. E  é um  preconceito  social, no visível  interesse  de  nos manter  crianças,  que  sempre  nos  convida  a  resolver  problemas vindos de outro  lugar e que nos consola, ou nos distrai, dizendo-nos que venceremos se soubermos responder: o problema como obstáculo e o respondente como Hércules. É esta a origem de uma grotesca imagem da cultura, que se reencontra igualmente nos testes, nas instruções  governamentais,  nos  concursos  de  jornais  (em  que  se  convida  cada  um  a escolher segundo seu gosto, com a condição de que este gosto coincida com o de todos). Seja  você  mesmo,  ficando  claro  que  este  eu  deve  ser  o  dos  outros.  Como  se  não continuássemos  escravos  enquanto  não  dispusermos  dos  próprios  problemas,  de  uma participação nos problemas, de um direito aos problemas, de uma gestão dos problemas. É o  destino  da  imagem  dogmática  do  pensamento  apoiar-se  sempre  em  exemplos psicologicamente  pueris,  socialmente  reacionários  (os  casos  de  recognição,  os  casos  de erro, os casos de proposições simples, os casos de respostas ou de solução) para prejulgar o  que deveria  ser o mais  elevado no pensamento,  isto  é,  a gênese do  ato de pensar  e o sentido do verdadeiro  e do  falso. (…) Todo mundo  “reconhece” de certa maneira que o mais  importante  são os problemas. Mas não basta  reconhecê-lo  de  fato,  como  se  o  problema  fosse  tão-somente  um  movimento provisório  e  contingente,  fadado  a  desaparecer  na  formação  do  saber,  e que  só devesse sua  importância  às  condições  empíricas negativas  a que se  encontra  submetido o  sujeito cognoscente;  é  preciso,  ao  contrário,  levar  esta  descoberta  ao  nível  transcendental  e considerar os problemas não como “dados” (data), mas como “objetidades” ideais que têm sua  suficiência,  que  implicam  atos  constituintes  e  investimentos  em  seus  campos simbólicos. (…) O  problema  ou  o  sentido  é  o  lugar  de  uma verdade originária e, ao mesmo  tempo, a gênese de uma verdade derivada. (…)  Reencontramos sempre os dois aspectos da  ilusão: a ilusão natural, que consiste em decalcar os problemas sobre proposições que se supõe preexistentes, opiniões lógicas, teoremas geométricos, equações algébricas, hipóteses  físicas,  juízos  transcendentais;  e  a  ilusão  filosófica, que consiste em avaliar  os  problemas  segundo  sua  “resolubilidade”,  isto  é,  de  acordo  com  a  forma extrínseca  variável  da  possibilidade  de  sua  solução.  É  fatal,  então,  que  o  próprio fundamento  seja  apenas  um  simples  condicionamento  exterior. Estranho marcar passo  e círculo vicioso pelos quais o filósofo pretende levar a verdade das soluções aos problemas, mas,  ainda  permanecendo  prisioneiro  da  imagem  dogmática,  remete  a  verdade  dos problemas à possibilidade de suas soluções. O que se frustra é a característica interna do problema  como  tal,  o  elemento  imperativo  interior  que  decide  antes  de  tudo  de  sua verdade e de sua falsidade e que mede seu poder de gênese intrínseca: o próprio objeto da dialética  ou  da  combinatória,  o  “diferencial”.  Os  problemas  são  provas  e  seleções.  O essencial é que, no seio dos problemas, faz-se uma gênese da verdade, uma produção do verdadeiro  no  pensamento.  O  problema  é  o  elemento  diferencial  no  pensamento,  o elemento  genético  no  verdadeiro. Portanto, podemos  substituir o simples ponto de vista do  condicionamento  pelo  ponto  de  vista  da  gênese  efetiva. (…) Para  isto, basta  renunciar a copiar os problemas sobre proposições possíveis e a definir a verdade dos problemas pela possibilidade de eles receberem uma solução. É a “resolubilidade”, ao contrário, que deve depender  de  uma  característica  interna:  deve  ser  determinada  pelas  condições  do problema,  ao mesmo  tempo  em que  as  soluções  reais devem ser engendradas pelo e no problema. Sem esta reversão, a famosa revolução copernicana nada significa. Além disso, não  há  revolução  enquanto  se  permanece  na  geometria  de Euclides:  é  preciso  chegar  a uma geometria da razão suficiente, geometria diferencial do tipo riemanniano, que tende a engendrar o descontínuo a partir do contínuo ou a fundar as soluções nas condições dos problemas. (…) Resolver é sempre engendrar as descontinuidades sobre fundo de uma continuidade  funcionando como  Idéia. Desde que “esquecemos” o problema, só temos diante de nós uma solução geral  abstrata;  e  como  nada mais pode  sustentar  esta generalidade, nada pode  impedir que  esta solução  se  desagregue  nas  proposições  particulares  que  formam  seus  casos.  Separadas  do  problema,  as proposições  tornam  a  cair no estado de proposições particulares cujo único valor é designativo. Então, a consciência  se  esforça  por  reconstituir  o  problema,  mas  de  acordo  com  o  duplo  neutralizado  das proposições  particulares  (interrogações,  dúvidas,  verossimilhanças,  hipóteses)  e  de  acordo  com  a  forma vazia das proposições  gerais  (equações,  teoremas,  teorias…). (…) Começa, então, a dupla confusão que assimila o problema à série dos hipotéticos e o subordina à série dos categóricos. A natureza  do  universal  é  perdida;  mas,  com  ela,  é  igualmente  perdida  a  natureza  do  singular,  pois  o problema ou a Idéia é tanto a singularidade concreta quanto a universalidade verdadeira. (…) Leibniz  enunciava  o  que  separava  o  problema  e  as  proposições:  todo  tipo  de acontecimentos, “o como e as circunstâncias”, onde as proposições adquirem sentido. Mas estes acontecimentos são acontecimentos  ideais, de uma outra natureza e mais profundos que os acontecimentos reais que eles determinam na ordem das soluções. Sob os grandes acontecimentos ruidosos, os pequenos acontecimentos do silêncio, como sob a luz natural, as  pequenas  fulgurâncias  da  Idéia.  A  singularidade  está  para  além  das  proposições particulares  quanto  o  universal  está  para  além  da  proposição  geral.  As  Idéias problemáticas não são essências simples, mas complexas, multiplicidades de relações e de singularidades  correspondentes.  Do  ponto  de  vista  do  pensamento,  a  distinção problemática  do ordinário  e do  singular  e os não-sensos que vêm de uma má  repartição nas condições do problema são sem dúvida mais importantes que a dualidade hipotética ou categórica do verdadeiro e do falso, com os “erros” que vêm apenas de sua confusão nos casos de solução.  (…) Um  problema  não  existe  fora  de  suas  soluções. Mas,  em  vez  de  desaparecer,  ele  insiste  e  persiste  nas soluções  que  o  recobrem.  Um  problema  se  determina  ao  mesmo  tempo  em  que  é  resolvido;  mas  sua determinação não se confunde com a solução: os dois elementos diferem por natureza, e a determinação é como  que  a  gênese  da  solução  concomitante.  (É  assim  que  a  repartição  das  singularidades  pertence completamente  às  condições  do  problema,  ao  passo  que  sua  especificação  já  remete  às  soluções construídas  sob  estas  condições.) O problema é ao mesmo  tempo  transcendente e imanente em relação a suas soluções. Transcendente, porque consiste num sistema de  ligações  ideais ou de relações diferenciais entre elementos genéticos. Imanente, porque estas ligações ou relações se encarnam nas correlações atuais que não se assemelham a elas e que são definidas pelo campo de solução. Ninguém melhor do que Albert Lautman, em sua admirável obra, mostrou que os problemas eram antes de tudo Idéias platônicas, ligações ideais  entre  noções  dialéticas,  relativas  a  “situações  eventuais  do  existente”;  mas  também  que  eles  se atualizam nas correlações reais constitutivas da solução procurada num campo matemático ou físico etc. É neste sentido, segundo Lautman, que a ciência participa sempre de uma dialética que a ultrapassa, isto é, de uma potência metamatemática e extra-proposicional, se bem que esta dialética só encarne suas ligações nas proposições de  teorias  científicas  efetivas. . Os problemas são sempre dialéticos; eis por que, quando a dialética “esquece” sua relação  íntima com os problemas enquanto Idéias, quando ela se contenta em decalcar os problemas sobre as proposições, ela perde sua verdadeira potência para cair sob o poder do negativo e substitui necessariamente a objetidade ideal do problemático por um simples confronto de proposições opostas,  contrárias ou contraditórias. Longa desnaturação que começa com a própria dialética e encontra sua forma extrema no hegelianismo. Mas, se é verdade que  o  que  é dialético,  em  princípio,  são  os problemas,  e  o  que  é  científico  são suas soluções, devemos distinguir de maneira mais completa: o problema, como instância transcendente; o campo simbólico, em que se exprimem as condições do problema em seu movimento  de  imanência;  o  campo  de  resolubilidade  científica, em que  se  encarna  o problema  e  em  função  de  que  se  define  o  simbolismo  precedente. Somente  uma  teoria geral do problema e da síntese ideal correspondente poderá precisar a relação entre estes elementos. Os problemas e suas simbólicas estão em relação com os signos. São os signos que “dão  problema”  e  que  se  desenvolvem  num campo  simbólico.  O  uso  paradoxal  das faculdades  e,  primeiramente,  o  da  sensibilidade  no  signo  remete,  pois, às  Idéias  que percorrem todas as faculdades e, por sua vez, as despertam, Inversamente, a Idéia remete ao  uso paradoxal  de  cada  faculdade  e  oferece  o  sentido  à  linguagem.  Dá  na  mesma explorar a Idéia e elevar cada uma das faculdades a seu exercício transcendente. São estes os  dois  aspectos  de  um  aprender,  de  uma  aprendizagem. Com  efeito,  de  um  lado,  o aprendiz é aquele que constitui e  inventa problemas práticos ou especulativos como tais. Aprender  é o nome  que  convém  aos  atos  subjetivos operados  em  face da objetidade do problema  (Idéia), ao passo  que  saber  designa  apenas  a  generalidade  do  conceito  ou  a calma posse de uma regra das soluções. (…) Aprender  é  penetrar  no universal das relações que constituem a Idéia e nas singularidades que lhes correspondem. A  Idéia  de mar,  por  exemplo,  como mostrava Leibniz,  é  um  sistema  de  ligações ou de relações  diferenciais  entre  partículas  e  de  singularidades  correspondentes  aos  graus  de variação  destas  relações,  o  conjunto  do  sistema  encarnando-se  no  movimento  real  das ondas. Aprender  a  nadar  é  conjugar  pontos  relevantes  de  nosso  corpo  com  os  pontos singulares  da  Idéia  objetiva  para  formar  um  campo  problemático.  Esta  conjugação determina para nós um limiar de consciência ao nível do qual nossos atos reais se ajustam as nossas percepções das correlações reais do objeto, fornecendo, então, uma solução do problema. Mas, precisamente, as Idéias problemáticas são ao mesmo  tempo os elementos últimos  da  natureza  e  o  objeto  subliminar  das  pequenas  percepções.  Deste  modo, “aprender”  passa  sempre  pelo  inconsciente,  passa-se  sempre  no  inconsciente, estabelecendo, entre a natureza e o espírito, o liame de uma cumplicidade profunda. O  aprendiz,  por  outro  lado,  eleva  cada  faculdade  ao  exercício  transcendente.  Ele procura fazer com que nasça na sensibilidade esta segunda potência que apreende o que só pode ser sentido. É esta a pedagogia dos sentidos. E de uma faculdade à outra, a violência se comunica, mas compreendendo sempre o Outro no incomparável de cada uma. A partir de  que  signos da  sensibilidade,  por  meio  de  que  tesouros  da  memória,  sob  torções determinadas  pelas  singularidades  de  que Idéia  será  o  pensamento  suscitado? Nunca  se sabe de antemão como alguém vai aprender – que amores  tornam alguém bom em Latim, por  meio  de  que  encontros  se  é  filósofo,  em  que  dicionários  se  aprende  a  pensar. Os limites das faculdades se encaixam uns nos outros sob a forma quebrada daquilo que traz e transmite a diferença. Não há método para encontrar tesouros nem para aprender, mas um violento adestramento, uma cultura ou paidéia que percorre inteiramente todo o indivíduo (um albino em que nasce o ato de sentir na sensibilidade, um afásico em que nasce a fala na  linguagem, um  acéfalo  em que nasce pensar no pensamento). O método  é o meio de saber quem regula a colaboração de todas as faculdades; além disso, ele é a manifestação de  um  senso  comum  ou  a  realização  de  uma  Cogitatio  natura,  pressupondo  uma  boa vontade como uma “decisão premeditada” do pensador. Mas a cultura é o movimento de aprender, a aventura do involuntário, encadeando uma sensibilidade, uma memória, depois um  pensamento,  com  todas  as  violências  e  crueldades  necessárias,  dizia  Nietzsche, justamente para “adestrar um povo de pensadores”, “adestrar o espírito”. Sem dúvida, reconhece-se freqüentemente a  importância e a dignidade de aprender. Mas  é  como  uma  homenagem  às  condições  empíricas  do  Saber:  vê-se  nobreza  neste movimento  preparatório,  que,  todavia,  deve  desaparecer  no  resultado.  E  mesmo  se insistimos  na  especificidade  de  aprender  e  no  tempo  implicado na  aprendizagem,  é para apaziguar os  escrúpulos de uma consciência psicológica que, certamente, não se permite disputar com o saber o direito inato de representar todo o transcendental. Aprender vem a ser tão-somente o intermediário entre não-saber e saber, a passagem viva de um ao outro. (…) É verdade que também  neste  caso Platão  é uma  exceção, pois,  com  ele,  aprender  é  verdadeiramente  o movimento  transcendental da  alma,  irredutível  tanto ao saber quanto ao não-saber. É do “aprender”  e  não  do  saber  que  as  condições  transcendentais  do  pensamento  devem  ser extraídas. Eis  por  que  as  condições  são  determinadas  por  Platão  sob  a  forma  da reminiscência e não do inatismo. Um tempo se introduz, assim, no pensamento, não como o  tempo empírico do pensador submetido a condições de  fato, e para quem pensar  toma tempo, mas como tempo do pensamento puro ou condição de direito (o tempo se apodera do  pensamento). (…) Por que é preciso que  tantos  princípios  fundamentais  concernentes  ao  que  significa  pensar  estejam comprometidos pela própria  reminiscência? Com efeito, como vimos, o  tempo platônico só  introduz  sua  diferença  no  pensamento  e  na  aprendizagem,  só  introduz  sua heterogeneidade  para  submetê-los  ainda  à  forma mítica  da  semelhança  e  da  identidade, portanto,  à  imagem  do  próprio  saber.  Deste  modo,  toda  a  teoria  platônica  da aprendizagem  funciona  como  um  arrependimento,  esmagado  pela  imagem  dogmática nascente,  e  suscita  um  sem-fundo  que  ela  permanece  incapaz  de  explorar.  Um  novo Menão diria: é o saber que nada mais é que uma figura empírica, simples resultado que cai  e  torna a cair na experiência, mas o aprender é a verdadeira estrutura  transcendental que une, sem mediatizá-las, a diferença  à diferença,  a dessemelhança à dessemelhança, e que introduz o  tempo no pensamento, mas como forma pura do  tempo vazio em geral e não como tal passado mítico, tal antigo presente mítico. Reencontramos sempre a necessidade de  reverter as correlações ou as supostas repartições do empírico e do transcendental. E devemos  considerar,  como  um  oitavo  postulado  na  imagem  dogmática, o  postulado do saber, postulado que apenas recapitula, que apenas recolhe todos os outros num resultado supostamente simples».

– Deleuze, “A Imagem do Pensamento” in “Diferença e Repetição”.

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