Mago patológico: o Prof. Sokal

 

«Os cientistas Alan D. Sokal (Universidade de Nova Iorque) e Jean Bricmont (Universidade Católica de Lovaina, Bélgica) sustentam que intelectuais de renome, associados à corrente convencionalmente conhecida como “pós-modernismo”, têm incorrido sistematicamente em “abusos reiterados de conceitos e termos provenientes das ciências físico-matemáticas”, a ponto de constituírem verdadeiras imposturas intelectuais. Podem ser identificados quatro tipos de abusos:

  1. “Falar abundantemente de teorias das quais se tem, no máximo, uma vaga idéia”;
  2. “Importar noções das ciências exatas para as ciências humanas sem dar a menor justificação empírica ou conceitual”;
  3. “Exibir uma erudição superficial ao jogar, sem escrúpulos, termos especializados na cara do leitor, num contexto em que eles não têm pertinência alguma”; e
  4. “Manipular frases desprovidas de sentido e se deixar levar por jogos de palavras”.

Neste polêmico livro, os autores fundamentam suas teses mediante numerosas citações, organizadas por autor (Lacan, Kristeva, Irigaray, Latour, Baudrillard, Deleuze e Guattari e Virilio) e por tema (caos, teorema de Gödel, relatividade restrita).

Sokal e Bricmont não se atêm a pequenos erros ou imprecisões isoladas ou àquelas próprias de um uso metafórico no discurso literário ou poético. Pelo contrário, nos autores analisados, as teorias e conceitos científicos jogam um papel não marginal, seja porque são usados nos fundamentos das suas teorias (Lacan e Kristeva), seja porque são precisamente o objeto de estudo (Irigaray, Latour, Deleuze e Guattari); em todo caso, seu uso contribuiu para que fossem elogiados por seu “rigor”, “extrema precisão”, “erudição surpreendente” e juízos similares.

A lista de exemplos é longa e bem documentada. Atribui-se ao psicanalista Jacques Lacan o abuso de tipo 2, quando declara, sem fundamentação lógica ou empírica, que o toro (estrutura topológica correspondente a um anel) é “exatamente a estrutura do neurótico” e que outras estruturas topológicas correspondem a outras patologias mentais. Seu uso dos números imaginários é declaradamente feito como metáfora, mas conduz a afirmações curiosas como: o “órgão eréctil (…) é igualável à raiz de -1”. Os textos em que Lacan recorre à lógica matemática, por outra parte, são considerados exemplos dos abusos 2 e 3 ao mesmo tempo: “Lacan exibe diante de não especialistas seus conhecimentos de lógica matemática; mas (…) a ligação com a psicanálise não está sustentada por lógica alguma”. Sokal e Bricmont absolvem Lacan dos abusos de tipo 1, ainda que em certos textos ele apresente uma definição incorreta de conjuntos abertos, definições sem sentido da noção de limite e de conjuntos compactos, e confunda números irracionais com imaginários.

Os trabalhos sobre lingüística e semiótica de Julia Kristeva ilustram também exemplos de abusos de tipo 2 e 3. Conceitos matemáticos delicados são introduzidos sem que se explique sua possível relação com a lingüística e revelando óbvia falta de compreensão: o axioma da escolha, que justamente permite provar a existência de conjuntos sem construi-los explicitamente, é invocado como implicando uma “noção de construtividade”; a hipótese do contínuo é mencionada, se bem que o conjunto de todos os livros possíveis seja apenas enumerável, e o muito popular teorema de Gödel é interpretado exatamente ao contrário. A intelectual feminista Luce Irigaray, por sua vez, num ensaio sobre o “subdesenvolvimento” da mecânica dos fluidos (identificados com a feminilidade), confunde a dificuldade matemática para obter soluções das equações de Navier-Stokes com a “impotência da lógica” e demonstra não compreender que são derivadas usando aproximações que excluem sua aplicação a escalas moleculares.

Jean Baudrillard, Gilles Deleuze, Félix Guattari e Paul Virilio valem-se de abusos de tipo 1 e 4. Sokal e Bricmont selecionam extensas citações, inclusive uma de quase três páginas, em que se justapõem numerosos termos científicos (atrator estranho, exponencial, fractal, caos, singularidade, energia potencial, superfície topológica, função, partícula etc.), em parágrafos intrincados e sem concatenação lógica de argumentos, num jogo de analogias baseadas nos diferentes sentidos vagamente atribuídos a esses termos na linguagem comum.

Os escritos de Virilio são, talvez, os mais abertos à sátira. Por exemplo, no que diz respeito ao papel das velocidades, confunde velocidade com aceleração e quantidade de movimento com a equação logística. Mas Deleuze e Guattari providenciam ainda outro tipo de exemplo importante. Em suas análises de filosofia da matemática, retomam confusões devidas a Hegel (classificação errada de frações, noção de função superada há 150 anos) e fazem uma descrição obscura e complicada do cálculo infinitesimal, enquanto marcam a necessidade de uma “exposição rigorosa” de seus princípios. Aparentemente, ignoram que tal exposição existe desde o início do século passado.

O capítulo dedicado a Bruno Latour é particularmente revelador, pois ilustra os riscos de se tentar uma análise profunda a partir de uma compreensão superficial. Com o propósito de demonstrar que a teoria da relatividade restrita é uma construção social, faz uma leitura semiótica do livro Relativity, de Einstein, no qual se apresentam os argumentos baseados em trens, observadores e sinais luminosos, que todo estudante de física conhece bem. Latour engana-se e centra sua análise em elementos puramente pedagógicos da exposição de Einstein. Por exemplo, atribui grande importância à existência de três sistemas de referência a uma só vez (isso pode acontecer ocasionalmente numa exposição didática, mas a teoria trata da relação entre dois sistemas) e ao fato de os observadores serem humanos (eles são humanos nos exemplos do livro de Einstein, mas na maioria dos experimentos e fenômenos os “observadores” são instrumentos, discos de computador e até partículas elementares), e confere um papel privilegiado ao “narrador” (a teoria não tem sistema privilegiado nem “narrador”, se bem que a exposição pedagógica precise de um).

De fato, a teoria da relatividade conta com uma rica história de mal-entendidos por parte de filósofos. Os que se originam na interpretação errada de Bergson são especialmente persistentes, como fazem notar Sokal e Bricmont num capítulo muito claro e explícito. Henri Bergson, por razões puramente filosóficas, recusou-se a aceitar as noções einsteinianas de simultaneidade e tempo próprio e procurou estender o princípio de relatividade às acelerações. Seus argumentos conduzem a previsões que contradizem experiências atualmente conhecidas. No entanto, os erros bergsonianos reaparecem na obra de filósofos posteriores, como Jankélevich, Merleau-Ponty e Deleuze. (…)»

– Recensão de Roberto Fernández do livro “Imposturas Intelectuais” de Alan Sokal, publicada aqui (originalmente publicado na Folha de São Paulo, Jornal de Resenhas, 11 de Abril de 1998).

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«Tout ce la est triste, vous ne trouvez pas? Pour le pauvre Sokal, d’abord. Son nom reste attaché à une supercherie (“the Sokal’s hoax”, “le canular de Sokal”, comme on dit aux Etats-Unis) et non à des travaux scientifiques. Triste aussi car la chance d’un réflexion sérieuse paraît gâchée, du moins dans un espace largement public qui mérite mieux.»

Artigo de Jacques Derrida (link retirado do site de Sokal).

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Os “quatro tipos de abusos” referidos na recensão são pretextos muito usados pelos maus alunos para fazerem ouvidos moucos a um professor.

O mais engraçado é que o próprio Sokal comete todos os quatro abusos, sobretudo, o primeiro: fala de autores de que não tem senão uma vaguíssima ideia…

A indicação dos “erros bergsonianos” em relação a Einstein é uma interpretação naïf há muito deposta:

«Bergson accepte complètement l’idée d’un primat des lignes de lumière et des figures de lumière. En ce sens, il est einsteinien. (…) Il accepte complètement ce premier grand principe qu’il tire de la relativité; il accepte aussi un second grand principe de la relativité, à savoir : l’idée, le mot n’est pas de lui, mais ce qui correspond à des blocs d’espace-temps. Il l’accepte aussi. Et pourquoi il l’accepte? Il n’est pas idiot, il sait assez de mathématiques pour très bien comprendre la théorie de la relativité, mais il ne prétend pas être un génie en physique ni en mathématiques. Il ne prétend pas apporter quelque chose de nouveau en physique ou en mathématiques, sinon il aurait fait des mathématiques ou de la physique au lieu de faire de la philosophie. Donc il ne prétend pas du tout discuter la théorie de la relativité, il ne prétend pas du tout dire: Einstein s’est trompé, moi je vais vous expliquer pourquoi. Il ne faut pas exagérer, il n’a pas perdu la tête. Seulement voilà que les lecteurs, quand ils ont lu Durée et simultanéité, ils ont cru que Bergson discutait de la relativité et trouvait que, à la lettre, Einstein s’était trompé. Vous me direz que ce n’était pas difficile d’expliquer aux gens que ce n’était pas ça. Non.Quand vous avez fait un livre qui subit un tel contresens ou qui est accueilli d’une telle manière, c’est foutu. Pour redresser, il faudrait refaire le livre. Il faudrait le refaire, et comme en fait, quand on se mêle de ces choses, on a déjà quelque chose d’autre à faire, pas question de refaire un livre. C’était foutu pour Bergson, d’où son attitude très rigide : non seulement jusqu’à sa mort il interdit toute réédition de Durée et simultanéité, ce qui confirme les gens, ce qui confirme tous les connards dans l’idée qu’il s’est lui-même rendu compte qu’il se trompait, mais en fait ce n’est pas ça : il n’était pas en état de corriger une erreur généralisée des lecteurs. (…) Encore une fois, il n’est pas fou, il ne va pas se mettre à discuter Einstein… (…) La thèse de Bergson est très simple. Elle consiste à dire : attention!, la théorie du temps réel n’est plus une affaire de physique, c’est une affaire de philosophie. Qu’est-ce que ça veut dire ça ? Et le but de Durée et simultanéité, et c’est le seul but de Durée et simultanéité, où Bergson a besoin de bien montrer qu’il intègre complètement Einstein. (…)»

– Deleuze, Cours Vincennes-Saint Denis, 1982.

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