Guilhotinemos

«deus é inimigo do povo
guilhotinemos deus
essa cabeça grotesca
esse corpo podre de poder
sangue cheio de mãos

o rei é inimigo do povo
guilhotinemos o rei
distante nessa loucura
essa fome de almas
desejo sem fim

a natureza é inimiga do povo
guilhotinemos a natureza
indiferente instinto
crueza dor esquecimento
sem sentido guilhotinemos

o rebelde é inimigo do povo
guilhotinemos o rebelde
isso q não descansa
não aceita não comunga
tudo mudando sempre

o artista é inimigo do povo
guilhotinemos o artista
sempre entregue ao maior
ao sonho ao desejo cru
esse cozinheiro das almas

o saber é inimigo do povo
guilhotinemos o saber
amarga sobremesa
corroendo toda crença
pra nada guilhotinemos

o livro é inimigo do povo
guilhotinemos o livro
longe desse suor desse parto
dessa guerra dia sem fim
arrancando pele e osso

o poeta é inimigo do povo
guilhotinemos o poeta
devorador de palavras
mentiroso sem mimos
remador de rimas

o povo é inimigo do povo
guilhotinemos o povo
esse cardume docil
teatro em ruinas treva
pastando treva sem saber

a vida é inimiga do povo
guilhotinemos a vida
isso q abusa e se lambuza
retendo gozo como fezes
sempre lama guilhotinemos

a diferença é inimiga do povo
guilhotinemos a diferença
pra q vibre o igual
o cancer do mesmo
supurando nas manadas

eu sou inimigo do povo
guilhotinemos eu
porq sou sempre mais eu
somente eu sem ninguem
eu supremo unico e so»

– Alberto Lins Caldas

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