Because we believe in God

 

«Because we believe in God, we believe in Germany that He created in His world, and in the Führer whom he has sent us.»

– SS catechism.

 

«I am convinced that I am acting as the agent of our Creator. By fighting off the Jews. I am doing the Lord’s work.»

 – Hitler, “Mein Kampf”.

Noites brancas

«— Ouça, quer saber quem sou?

— Evidentemente que sim!

— Quer sabê-lo exactamente?

— Exactamente!

— Pois bem, vou fazer-lhe a vontade; eu sou… um tipo.

— Um tipo? Mas que espécie de tipo? — exclamou a jovem, rindo com tanta vontade que dir-se-ia não rir há mais de um ano. — O senhor é muito divertido! Olhe, há aqui um banco: sentemo­-nos… Ninguém passa por aqui , ninguém nos ouvirá e… portan­to, comece depressa a sua história, pois, embora me tenha querido fazer acreditar no contrário, o senhor tem uma história; o que acontece é que a esconde. Antes de mais, o que é um tipo?

— Um tipo? Um tipo é um excêntrico, é um sujeito ridículo! —respondi, desatando a rir para fazer coro com as suas gargalha­das infantis. — É um carácter assim. Escute: sabe o que é um sonhador.

— Um sonhador? Desculpe, mas como não havia de o saber? Eu própria sou uma sonhadora! Por vezes, quando estou sentada ao lado da avó, não imagina o que me passa pela cabeça!… Olhe, uma pessoa começa a sonhar e já não é capaz de parar… Veja, uma ocasião fui ao ponto de imaginar que casara com um príncipe chinês… Na verdade, às vezes, faz tão bem sonhar!… Vendo melhor, não… Quem sabe! Sobretudo se não há mais nada em que pensar… — acrescentou, agora já com um ar muito grave.

— É isso mesmo! Se já casou, um dia, com o imperador da China, nesse caso vai portanto compreender-me maravilhosa­mente. Ouça então… Mas desculpe: não sei ainda o seu nome.

— Finalmente! Só agora se lembrou disso!

— Ah, meu Deus! A verdade é que isso não me ocorreu até agora; não me pareceu indispensável…

— Chamo-me Nastenka.

— Nastenka… nada mais?

— Nada mais. Não lhe é suficiente? O senhor é difícil de contentar!

— Se me é suficiente? Pelo contrário, chega-me perfeitamen­te, perfeitamente, Nastenka! A menina é uma bela rapariga e agradeço-lhe que, para mim, consinta em ser simplesmente Nastenka!

— Na verdade? E então?

— Então, Nastenka, escute e veja como é ridícula a minha história.

Sentei-me junto dela, assumindo uma pose de uma seriedade estudada e comecei, como se estivesse a ler um livro:

— Existem, não sei se o sabe, Nastenka, existem em Sampe­tersburgo lugares muito insólitos. Nesses sítios, dir-se-ia que não penetra o mesmo sol que brilha para os outros habitantes da cidade: o sol que ali entra parece ser outro, um novo sol, feito de encomenda para os tais lugares. Nesses sítios, minha querida Nastenka, leva-se uma vida completamente diferente, que em nada se assemelha à que se desenvolve junto de nós, que pode existir num mundo desconhecido, mas não no nosso, na nossa época séria, ultra-séria. Esta vida é uma mistura de algo de puramente fantástico, de encarniçadamente idealista e, simultaneamente — ai de mim, Nastenka —, de grosseiramente prosaico e comum, para já não dizer de insolitamente vulgar.

— Uf! Meu Deus, que preâmbulo! Que terei ainda de ouvir?

— Vai saber, Nastenka (parece-me que nunca me cansarei de lhe chamar Nastenka), vai saber que nesses lugares vivem seres esquisitos: os tais sonhadores. Sabe? O sonhador, para o definir pormenorizadamente, não é um homem, é uma espécie de criatura do género neutro. Aloja-se, na maior parte do tempo, num inacessível refúgio, como se pretendesse até ocultar-se da luz do dia, e, uma vez encolhido na sua toca, metido na sua casota como o caracol, ou pelo menos parece-se muito, neste aspecto, com esse curioso bichinho que é simultaneamente um animal e uma casa e que se chama tartaruga. Na sua opinião, por que razão gostará ele tanto das suas quatro paredes, monotonamente pintadas de verde, sujas, tristes e enegrecidas pelo fumo do tabaco? Por que razão esse ridículo sujeito, quando algum dos seus raros conhecimentos o vem visitar (e ele procede de tal modo que, a pouco e pouco, os seus amigos acabam todos por desaparecer), por que razão esse homem acolhe o visitante com tal embaraço com um rosto de tal modo perturbado e tão confuso como se acabasse de cometer um crime, ali, entre as suas quatro paredes, como se fosse apanhado a fabricar notas falsas ou a escrever versinhos para enviar a qualquer revista com uma carta anónima, dizendo que o verdadeiro poeta morreu e que um seu amigo considera como dever sagrado publicar a sua obra? Por que razão, diga-me, Nastenka, a conversa se estabelece com tanta dificuldade entre estes dois interlocutores? Porque motivo não se soltam gargalhadas e não se troca qualquer palavra espirituosa com este amigo surgido de improviso, o qual em qualquer outra circunstância tanto gosta das gargalhadas e das palavras espirituosas, dos discursos sobre o belo sexo e sobre outros assuntos agradáveis? Por que razão, em suma, este amigo, por certo um conhecimento de fresca data, logo à primeira visita — porque, em casos destes, não haverá uma segunda visita —, por que razão o próprio visitante se sente tão perturbado e frio, com o seu espírito (isto se alguma vez o teve) embotado, ao ver o rosto transtornado do seu anfitrião, o qual, por seu turno, está agora completamente destituído do seu derradeiro grão de sensatez, após ter feito esforços gigantescos, mas vãos, para remover as dificuldades da conversa e para a tomar agradável, mostrando a sua expe­riência da sociedade, falando também sobre o belo sexo e, pelo menos através desta concessão, tentar ajudar aquele pobre diabo caído por engano em sua casa? Por que razão, ainda, o visitante agarra de repente no chapéu e se retira rapidamente, lembrando-se de súbito de um assunto absolutamente inadiável, que nunca existiu, e liberta de qualquer maneira a mão do caloroso aperto do anfitrião, empenhado agora em manifestar o seu pesar e a ganhar o tempo perdido? Por que razão, ao afastar-se da porta, o amigo solta uma grande gargalhada e promete a si mesmo nunca mais voltar a casa daquele excêntrico — se bem que, no fundo, este excêntrico seja um excelente rapaz — e, ao mesmo tempo, não se pode impedir de conceder à sua imaginação um pequeno devaneio: comparar, ainda que longinquamente, a fisionomia do seu interlocutor de há momentos durante toda a visita, com o aspecto daquele infeliz gatinho perseguido, aterrorizado, torturado de todas as maneiras pelas crianças que o aprisionaram traiçoeiramente e que, o mais assustado possí­vel, lhes conseguiu finalmente fugir para debaixo da mesa, onde, mergulhado na obscuridade, à sua vontade, se espregui­çou e lavou, alisando o pêlo com as patinhas, após as ter passado pelo seu focinho desconfiado e que, depois, cumprida esta tarefa, olhou longa e hostilmente a natureza, a vida e até os restos da refeição dos donos que a cozinheira benévola lhe reservou? (…)

Por que razão passam vertiginosamente as noites de insónia, envoltas numa alegria e numa felicidade inesgotáveis, e quando a aurora trespassa as janelas com a sua luz rósea e o sol da madrugada incendeia o seu triste quarto com a sua fantástica e difusa luminosidade, como sucede sempre em Sampetersburgo, por que razão o nosso sonhador, fatigado, esgotado, se deixa tombar sobre o leito e adormece, com uma respiração doentia­mente sacudida pelo entusiasmo e com um sofrimento tão languidamente delicioso no coração?»

– Dostoievski, “Noites brancas”