Quando morrer, que seja assim

«Provecto dos anos, uma tarde, ergueu-se do borralho e saiu a porta para fora, amparado ao porretinho de marmeleiro. Andava há dias a chocar a morte e deixaram-no ir, que era relapso a prevenções e cuidados. Sentou-se no poial de pedra, que servia de amassadoiro do linho. Com mão incerta aconchegou as abas da capucha contra os joelhos regélidos. Nevara, cordejara, e as árvores, com o sincelo, estalavam ao peso das candeias. António Malhadinhas fechou os olhos à semelhança do romeiro que torna de Santiago, farto de correr léguas, ver terras, passar pontes e vaus, enxotar cães que arremetem ameaçadores de currais e quintãs, e adormece a sonhar com o céu num recosto do caminho. Vergou brandamente a cabeça para o peito, ao tempo que os dedos lhe pendiam para o chão como vagens maduras. E – o Justo Juiz lhe perdoe as facadas que as não deu em nenhum santo – nem se sentiu a atravessar as alpoldras duma margem para a outra do negro rio».

– Aquilino Ribeiro, final de “O Malhadinhas”.

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“Se Aquilino Ribeiro fosse vivo, seria ele a receber o prémio Nobel da literatura.”

– José Saramago, ao receber o Nobel.

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