‘É aos pais a quem menos se deve confiar a educação dos filhos’

No Outono de 1921, Kafka enviou duas cartas à sua irmã Elli Hermann, nas quais, entre outros assuntos, aborda a questão da educação dos filhos. Max Brod copiou alguns trechos a partir dessas cartas que estavam em posse da irmã de Kafka, omitindo passagens que considerou menos importantes. Após a 2ª. Guerra Mundial, Brod quis restaurar as cartas por inteiro, mas descobriu que os originais haviam desaparecido. Só as passagens retiradas por Brod sobreviveram à destruição nazi, que consumiu milhões de homens e seus objectos pessoais.

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«Para Elli Hermann

[Praga, outono de 1921]

1.

…Tenho a meu favor (entre muitos outros) um grande testemunho, que cito aqui justamente porque é grande e porque acabei de lê-lo ontem, e não porque eu ouse ter a mesma opinião. Diz Swift em sua descrição da viagem de Gulliver a Lilliput (cujas instituições ele muito elogia):

“Os conceitos acerca das obrigações entre pais e filhos diferem completamente dos nossos. Dado que a união de homens e mulheres funda-se na grande lei da natureza, a fim de dar continuidade e perpetuar a espécie, os lilliputianos afirmam que homens e mulheres se unem unicamente por este motivo, e que a ternura para com os filhos seria resultado do mesmo princípio natural. Por isto, eles nunca permitirão que um filho tenha qualquer obrigação em relação a seus pais pelo fato de o terem trazido ao mundo, o que, além do mais, não constituiria nenhum benefício, se considerássemos as misérias da vida humana. Nem os pais buscaram tal fim, uma vez que pensavam em coisas totalmente diferentes em seus encontros amorosos. Por estas e outras razões, eles opinam que, entre os seres humanos, é aos pais a quem menos se deve confiar a educação dos filhos“.

Com isto, ele obviamente quer dizer, em total acordo com a distinção que você faz entre “pessoa” e “filho”, que o filho, se há de chegar a ser uma pessoa, deve ser retirado o quanto antes da animalidade, como ele (Swift) o diz, da relação puramente animal a partir da qual ganhou existência. (…)

2.

…O principal em Swift não é o que você aponta (os filhos não devem ser gratos aos pais por sua existência). Na realidade, ninguém afirma isto tão ao pé da letra. O peso principal recai sobre a última sentença: “Dentre todos os seres humanos, é aos pais a quem menos se deve confiar a educação dos filhos“. Com certeza, é essa a frase mais representativa no argumento dele, dito muito concisamente; por isto, tratarei de te explicá-la mais extensamente, ainda que, te repito, trate-se unicamente da opinião de Swift (que, a propósito, era pai de família). Minha própria opinião tende na mesma direção, embora não me atreva a ser tão taxativo.

Swift opina que: toda família representa em princípio somente uma organização animal, em certa medida um organismo único, um fluxo sanguíneo único. Por isto, por estar referida a si mesma, não pode sair de si, não pode criar exclusivamente a partir de si nenhum indivíduo novo, e se o tenta através de uma educação familiar, isto é uma espécie de incesto espiritual.

A família é, assim, um organismo, mas complicado e extremamente desequilibrado. Como todo organismo, também a família aspira continuamente ao equilíbrio. Na medida em que esta aspiração ao equilíbrio se dá entre pais e filhos (o equilíbrio dos pais entre si não vem ao caso), a isto se chama educação. Por que se chama assim é incompreensível, pois não tem nem vestígios de uma educação verdadeira, ou seja, do desenvolvimento sereno, desinteressado e afetuoso das aptidões de um homem em sua evolução, ou simplesmente a tolerância tranqüila a um desenvolvimento independente. Ao invés, trata-se de uma tentativa convulsiva de equilibrar um organismo animal condenado a muitos anos de desequilíbrio; para diferenciar este organismo do indivíduo, isto é, do animal humano, podemos chamá-lo de animal familiar.

A causa da impossibilidade imediata de se alcançar um equilíbrio justo (pois só um equilíbrio justo é um verdadeiro equilíbrio, um equilíbrio estável) dentro deste animal familiar é a desigualdade das partes, ou seja, a monstruosa superioridade do casal frente aos filhos, que perdura por anos. Os pais se atribuem, durante a infância de seus filhos, o direito exclusivo de representar a família, não somente no exterior, mas também em sua organização interna espiritual. Retiram assim de seus filhos, passo a passo, o direito à personalidade própria, e podem chegar a lhes anular a capacidade de desenvolver positivamente este direito; é uma desgraça que, com o tempo, pode vir a pesar não menos sobre os pais do que sobre os filhos.

A diferença essencial entre a educação verdadeira e a educação familiar é: a primeira é uma questão humana, a segunda uma questão familiar. Todo homem tem seu lugar na humanidade ou tem, pelo menos, a possibilidade de sucumbir ao seu modo; porém, na família, confinada pelos pais, somente têm seu lugar homens totalmente determinados que respondem a exigências totalmente determinadas e, mais ainda, aos termos ditados pelos pais. Se não respondem a estes imperativos, não são expulsos – o que seria muito bom, mas é impossível, pois sabemos que se trata de um organismo -, mas são amaldiçoados ou destruídos, ou ambos ao mesmo tempo. Esta destruição não é corporal, como na mitologia grega (Cronos devorava os seus filhos, é o mais temido dos pais), mas talvez Cronos preferisse esse método aos habituais de então movido precisamente por piedade aos seus filhos.

O egoísmo – autêntico sentimento paterno – não conhece limites. Mesmo o maior amor dos pais é, em relação à educação, mais egoísta que o menor dos amores do educador pago. Não é possível de outra forma. Os pais não são livres diante de seus filhos como sim o é um adulto diante de uma criança, porque se trata, no primeiro caso, de laços de sangue, do próprio sangue. Há, além disso, outra grave complicação: o sangue de cada um dos pais. Se o pai (e o mesmo se dá com a mãe) “educa”, ele encontra no filho coisas que já odiou em si mesmo e não pôde dominar, mas que agora espera seguramente dominar, já que a débil criança parece estar mais em seu poder do que ele próprio. E é assim que ataca com furor cego, sem aguardar o desenvolvimento, o homem em evolução, a fim de extirpar o elemento nocivo. Ou reconhece com susto que, por exemplo, algum traço que ele considera de destaque seu e que, portanto (portanto!), não deveria faltar na família (na família!), falta na criança, e põe-se a martelá-lo nela; o consegue mas ao mesmo tempo malogra porque, além disso, martela a criança. Outro exemplo: encontra no filho traços que amou em sua mulher, mas que ele odeia na criança (a quem ele confunde continuamente consigo próprio; todos os pais o fazem); assim, pode-se amar muito os olhos azuis claros da própria esposa e sentir a maior repugnância em ter, de repente, ele próprio esses olhos. Outro exemplo: encontra no filho traços que ama em si mesmo ou que anseia ter e considera necessários à família. Neste caso, todos os outros traços do filho lhe são indiferentes, só vê nele o que é amado, atrela-se ao amado, humilha-se à posição de seu escravo, ele o destrói por amor.

Tais são os dois meios educativos nascidos do egoísmo dos pais: a tirania e a escravidão, em todas as suas gradações. A tirania pode expressar-se de uma maneira muito suave (“Você deve acreditar-me, porque sou sua mãe“) e a escravidão adotar uma forma muito orgulhosa (“Você é meu filho, por isto, farei de você um salvador para mim“); porém, ambos são meios de educação terríveis, são meios de antieducação; só servem para esmagar a criança contra o solo de onde veio.

Os pais sentem por seus filhos um amor animal, irracional, que continuamente se confunde com a criança. Ao invés, o educador presta atenção à criança e isto é, num sentido educativo, incomparavelmente melhor, ainda que não intervenha amor algum. Repito: num sentido educativo. Pois qualificar o amor dos pais de animal e irracional não é em si uma subestimação; o amor dos pais é um mistério tão impenetrável quanto o amor racional e fecundo do educador; e, tratando-se apenas do sentido educativo é que esta subestimação nunca é suficientemente grande.

Quando N. diz que ela é como uma galinha, tem toda razão. No fundo, toda mãe o é e, para a que não é, cabem duas possibilidades: ou é uma deusa ou um animal aparentemente doente. Mas, ocorre que a galinha N. não quer ter pintinhos, mas seres humanos; por isto, não deve educá-los sozinha.

Repito: Swift não pretende denegrir o amor dos pais; chega a considerá-lo, sob certas circunstâncias, o bastante forte para proteger os filhos justamente desse mesmo amor dos pais. Uma mãe que, numa poesia qualquer, resgata seu filho das garras de um leão, poderia defender seu filho de suas próprias mãos? E o faria sem recompensa, ou o que é mais certo, sem a possibilidade de uma recompensa? Em um outro livro escolar de poesias que você certamente conhece, consta que um peregrino, após muitos anos, regressa à sua aldeia natal e ninguém o reconhece, a não ser sua mãe: “Mas o olho materno o reconheceu”. Este é o verdadeiro milagre do amor materno, e há aqui expressa uma grande sabedoria. Mas, somente pela metade, pois falta agregar que, se o filho tivesse permanecido em casa, ela não o teria reconhecido jamais, que permanecer sentada cotidianamente junto ao filho teria feito com que este se lhe tornasse completamente desconhecido e que, então, teria ocorrido o contrário do que diz a poesia, isto é, qualquer um o teria reconhecido melhor do que ela. (Claro que, neste caso, ela não teria que reconhecê-lo, já que ele não teria nunca regressado a ela.) Talvez você diga que o peregrino foi-se pelo mundo após ter completado onze anos, mas eu sei com toda certeza que ainda faltavam alguns meses para que completasse dez. Ou, dito de outro modo, não se tratava de uma mãe que avidamente quisesse tomar para si a responsabilidade e as alegrias e, o que talvez seja ainda pior, quisesse compartilhar as dores (não se deve possuir nada por inteiro!); não se tratava de uma mãe que tomasse para si a responsabilidade de ser salva pelo filho e que tinha, “portanto”, confiança nele (a desconfiança é própria dos habitantes de Praga; além do mais, tanto a confiança como a desconfiança acarretam riscos por igual, mas, além disso, a desconfiança em si própria é um risco) e, por isso mesmo, tivesse sido salva pelo retorno de seu filho à casa. (Contudo, talvez desde o início o seu perigo não tenha sido tão grande, já que não se tratava de uma mulher judia de Praga, mas de uma católica devota de Estiria.)

O que resta fazer, então? Segundo Swift, há que separar os filhos de seus pais, isto é, o equilíbrio que necessita o animal familiar deve ser alcançado inicialmente de forma provisória; ao afastar os filhos, adia-se por um tempo o equilíbrio definitivo, até que então os filhos, já independentes de seus pais, lhes sejam equivalentes em força corporal e espiritual e tenha chegado assim a época do equilíbrio verdadeiro e amoroso, ou seja, aquilo que você chama “salvação” e outros chamam “gratidão dos filhos” e o encontram tão raras vezes.

Por outro lado, Swift sabe marcar os limites e não considera absolutamente necessário separar os filhos da gente pobre. Pois no caso da gente pobre, o mundo e a vida do trabalho penetram de certo modo irremediavelmente em seus casebres (como, por exemplo, no nascimento de Cristo, em cujo estábulo exposto às intempéries estava presente todo o mundo, os pastores e os Reis do Oriente); nos casebres dos pobres, o mundo impede que penetre o ar denso, envenenado e destruidor de crianças que vicia as residências familiares belamente instaladas.

Tampouco nega Swift que, sob certas circunstâncias, os pais possam formar uma excelente unidade educativa, mas apenas para crianças alheias. Esta é, mais ou menos, minha interpretação da passagem de Swift».

Tradução feita a partir das versões espanhola (Brod, M. Kafka. Madrid: Alianza Editorial, 1982) e inglesa (Kafka, Franz. Letters to friends, family and editors. Nova Iorque: Schocken Books, 1977) e cotejada com o original em alemão (Kafka, Franz. Briefe. Gesammelte Werke in Acht Bänden. Herausgegeben von Max Brod. Fischer Taschenbuch Verlag: Frankfurt am Main, 1998.

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