Sólida solidão

«Assim como o criador procura a solidão, o destruidor tem de estar constantemente rodeado de pessoas, testemunhas da sua eficácia.»

– Walter Benjamin, carta a Gershom Scholem, 28 de Outubro de 1931.

«Desde Janeiro que estou numa fase de fechamento, que são as fases mais entusiasmantes. Não tenho ido a muitos eventos. Estou aqui com muito prazer. Gosto destas comunidades por serem um espaço fechado. Sinto falta disto. Já não há quase o privado. Apesar de tudo, os livros continuam a ser uma coisa quase de um para um, quase um combate. Gosto de estar em pequenos grupos. (…)

Quando escrevo, nunca penso enquanto género literário. Mais tarde, posso pensar que é mais romance ou mais conto. Mas não acho isso muito significativo. (…)

O não usar nomes portugueses talvez tenha a ver com uma certa distância que preciso de guardar para escrever à vontade. (…)

Normalmente nós fugimos muito da estranheza. Damos-lhe uma carga negativa, mas ela tem uma carga positiva. Eu gosto muito de me deparar com o estranho. A estranheza é aquilo que não me é completamente familiar, aquilo que eu não reconheço de uma ponta à outra. Tem partes que não entendo, que nunca vi. E são essas partes que permitem a curiosidade. Não há curiosidade sem estranheza. A estranheza é absolutamente necessária para o nosso percurso biográfico e intelectual. Se estivermos sempre a conviver com o que é familiar, estamos um pouco como o personagem Aaronson, à volta de uma rotunda, a contactar com o mesmo. O fascínio do familiar, dá um descanso, um tempo circular, como a rotunda giratória. (…)

O meu tronco principal é a filosofia e a epistemologia. Há 6 anos atrás fiz um doutoramento em epistemologia enorme, qualquer dia vou publicá-lo, porque é muito literário. Mas tenho de o organizar. E antes fiz uma tese sobre pintura na Nova. E antes, estudei desporto. Aos 18 anos jogava futebol, daí essa ligação. Lembro-me de ter este dilema: ou vou para futebolista profissional ou para matemática pura. Era a grande dúvida. Mas a certa altura, mais do que os percursos académicos, o importante são as leituras e as leituras começaram a atirar muito para a filosofia, para o ensaio. Nunca consigo separar a filosofia da literatura e da ficção. (…)

Não escrevo livros para gostar das minhas personagens. O que me acontece e o que me agrada, por exemplo no “Jerusalém” há a personagem que assassina o miúdo e que comete o crime mais violento e é claramente o personagem mais brutal e agrada-me ouvir pessoas dizerem que simpatizam e empatizam com aquela personagem, que não lhes é antipática. E eu acho isso muito importante. Porque se nós construímos personagens que são uma espécie de definição do bem e do mal, exemplares da bondade e da maldade, estamos a fazer qualquer coisa que não tem a ver com a realidade. E eu acho que muitos dos enganos, enquanto adultos, em que nós caímos tem a ver com uma lavagem cerebral que divide os bons e os maus como quem divide duas espécies animais diferentes: girafas para um lado e cabras para o outro. Como se fosse possível, do exterior, vermos quais são as girafas e quais são as cabras. A maldade e a bondade não são separáveis pela superfície nem são separáveis pelos actos. (…)

O Pirandello tem um livro lindíssimo que tem a ver com a questão do problema das identidades e com a psicanálise, que é o “Um, Ninguém e Cem Mil”. Já li este livro há muito tempo e provavelmente os pormenores não estão certos. Se não me engano, o protagonista é o Moscarda e ele está-se a ver ao espelho no inicio do livro. Passa a mulher e diz: Lá estás tu a ver ao espelho o teu nariz torto. – Mas qual nariz torto?, pergunta ele. Eles estavam já casados há vários anos e ele nunca tinha tido a noção de que tinha o nariz torto. Nesse momento, tem a noção clara de que se via a si próprio diferente do Moscarda que a mulher via. E aí começou a entender claramente que a identidade era múltipla. E isto começa a agravar-se. Quando está com quatro amigos, tem a noção clara de que naquele espaço estão cinco Moscardas. Como ele se vê a si próprio e como o amigo A, B, C e D o vêem. E pensa: Quando andei com o meu amigo Júlio de barco os outros não estavam presentes e só ele viu quando fiquei cheio de medo de cair à agua. Ele conhece uma identidade minha, características minhas que os outros não conhecem. Ele tem um Moscarda na sua cabeça que tem a ver com as experiências que teve com ele. Isto vai-se agravando cada vez mais. Às vezes ele tira livros da sua própria biblioteca e sente que os está a roubar ao Moscarda anterior, que já não é ele próprio. Perto do final do livro, dá um beijo à mulher e nesse preciso momento acusa-a de cometer adultério, porque está a beijar já outro homem. Um homem diferente. (…)

Quando estou no período de escrita não tenho internet, nem nada. É um espaço quase sagrado. É quase doentio. O que é mais estranho é que há algum tempo estive com pessoas que me tinham encontrado em 2001, em Évora, por altura do lançamento do meu primeiro livro e o que essas pessoas se lembravam é que me deitava às 11, comia apenas uma sopa para me poder deitar cedo e me levantava no dia seguinte às 5 e meia, 6. Não ia aos encontros nocturnos. Agora os meus horários já não são esses. É a parte que mais me admiro, ter feito esse horário durante 10 anos, e ter penas perdido umas vinte e tal manhãs em dez anos. (…)

O que é importante para mim como escritor é a solidez. Gosto muito da palavra solidez. A solidez é deixar passar as correntes, as modas. A pedra é sólida. E cada livro é uma pedra. É isso que me move, tal como move todos os escritores sérios. (…)

Sobre o tédio, a propósito da educação e dos miúdos, sinto muito que há a tendência – e não me ponho de fora – de estarmos sempre a dar estímulos aos miúdos. Estar sempre a dar alguma coisa excitante. E o medo da não excitação acho que os pais vivem apavorados por os miúdos não estarem ocupados, não terem alguma coisa nas mãos. Há uma tendência para ficarmos quase assustados se há uma criança que está sozinha e sem objectos num espaço. Ficamos a pensar: mas estás a fazer o quê? Que é uma pergunta muito ofensiva. Estás a fazer o quê? – remete para associarmos o fazer a objectos exteriores, quando o fazer essencial é um fazer que não é visível exteriormente, é um processo mental, é o processo da imaginação. Lembro-me, como todos os miúdos, de que o importante não era se tínhamos uma carica à nossa frente, ou várias, porque de repente, aquilo era a Volta a França. O importante eram as paisagens mentais que estávamos a construir. E o que é certo é que o atabalhoamento de objectos se em vez de termos caricas fazermos uma Volta à França com a nossa cabeça, se tivermos mesmo a volta a França. A nossa cabeça vai dar muito pouco. E isto é um pouco lateral ao tédio. O que acho do tédio? É o momento em que a pessoa não está a fazer nada que o entusiasme e esses períodos são uma espécie de prefácio da afirmação da sua identidade. Explicando um pouco isto: se uma pessoa estiver sempre a receber estímulos do exterior e a responder a esses estímulos, vai estar sempre a responder a coisa que os outros querem. A escola e a educação estão transformada nisso, nós enquanto pais também somos assim, e os adultos têm muito medo do momento em que não são estimulados. A estimulação exterior não é nossa. O tédio é aquele intervalo em que não tenho estimulação exterior e ainda não tenho estimulação pessoal. A pessoa está entediada com a sua própria cabeça. É um momento que considero essencial. Estou entediado. Mas depois desse tédio, provavelmente, vai aparecer uma estimulação interior, uma imaginação minha, que é construída por mim. Não é possível aparecer a nossa identidade se estiver constantemente a receber ordens, convites. Estou constantemente a ser moldado por estímulos exteriores. E é por isso que o isolamento é muito importante. A grande vantagem do isolamento é não estarmos ao pé de outras pessoas. O isolamento também deve ser eléctrico, das televisões e internet. Não recebo nenhum estímulo. Não recebo imagens, notícias. Isto é um pressuposto para fazer alguma coisa que venha de mim. Não é possível passar, num minuto, de receber múltiplos estímulos, para passar a fazer qualquer coisa muito pessoal, minha. Tem que haver um tempo em que se pára. Tem de se vencer o medo do não fazer.

Queria também falar da importância do tédio para a criatividade pessoal. Muitas vezes, o tédio não se transforma numa criatividade pessoal. Transforma-se em tédio e mais tédio. É importante sabermos lidar com o tédio. O tédio faz parte da própria vida. E se na primeira vez que a pessoa sentir tédio não se habitua a que o tédio faz parte do dia a dia, a primeira vez que se entedia de uma forma intensa, não vai suportar e atira-se da janela. O tédio, mesmo que não seja transformado em algo criativo, faz parte do dia. Não é possível a pessoa estar sempre excitada. As grandes obsessões tem a ver com isto, com uma fuga ao tédio, uma perseguição da excitação, a história da violência e da perversidade têm a ver com uma fuga ao tédio. Nós tempos que resistir ao tédio. O tédio existe e vai existir, há momentos em que a nossa cabeça não vai funcionar, temos que aguentar. Eu acho que ser humano é também saber aguentar o tédio, ter força para o suportar. (…)

Por exemplo, vamos imaginar dois amigos que estão sempre juntos, ou num casal, os dois estarem sempre juntos, é um erro fatal. A amizade tem a ver com nós darmos alguma coisa ao outro. E eu só posso dar alguma coisa ao outro se formos por caminhos diferentes. O outro vai para a esquerda e eu vou para a direita. Eu vou viajar e trago algo para dar ao outro. Qual o sentido de eu ir ter com outra pessoa depois de ter estado há cinco dias com ele, e não ter nada de novo para lhe dizer. E aqui não se trata de informação, de saber enciclopédico, não é de saber mais quando nasceu um rei. É sentir que naquele tempo em que não se viram ele pensou, lembrou-se de coisas e vai para a ligação afectiva com mais material. Às vezes encontramos colegas que não víamos há 10 anos, alguns felizmente sinto que há uma grande mudança e que a cabeça não está no mesmo sítio, mas há um ou outro que tragicamente sinto que está exactamente como há 10 anos. A sensação de que a pessoa não teve tempo para estar sozinha, é terrível. Esteve sempre a responder a urgências, a pagar contas, de certa maneira. Se não nos defendermos, podemos passar sessenta anos a pagar contas de electricidade. O que é terrível é aquelas solidões que não são aproveitadas e depois as pessoas vão-se encontrando sempre na mesma posição. Há pessoas que têm muito medo de estar sozinhas. Ir sozinho ao cinema é uma espécie de assumir um fracasso social qualquer. Uma das coisas mais perigosas é o medo da solidão, o parecer estar sozinho. Hoje é raro vermos alguém sozinho a andar, só. Se está a andar sozinho, o mais provável é estar a falar ao telefone. A escola não cultiva a solidão, o isolamento , que é marcado de uma forma muito negativa. Nunca ninguém está sozinho na escola. Se isto passar para a família e para todos os momentos da vida, isso é grave. Gosto imenso de estar sozinho, mas estou aqui com prazer. Sempre me fez impressão aquelas pessoas que ficam muito tempo a falar, mas sou um bocado fechado nisso. Não aguento estar um dia ou dois com muita gente. Começa a ser complicado. Para alguns padrões, isso será não ser sociável, mas para mim é estar a guardar-me para uma ocasião. Por exemplo, eu estou aqui sinceramente a dar a energia que tenho. Quando estou com alguém, tento dar o que tenho.»

– Gonçalo M. Tavares

Texto integral:
Pdf
Online

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s