Contra o totalitarismo aristotélico da ‘polis’

«Aristóteles está articulando, no nível de pesquisa teórica, um pensamento herdado dos poetas, quando argumenta no livro I da Política (1252b28-1253a39) que um ser humano separado da polis fica privado de alguns dos atributos essenciais a um ser humano. Essa é uma passagem cuja importância para a interpretação de tudo o que Aristóteles escreveu sobre a vida humana não pode ser menosprezada, e é também particularmente crucial para a compreensão de suas afirmações sobre a justiça, o raciocínio prático e a relação entre eles.
Aristóteles usa duas analogias para apresentar seu ponto central. Um ser humano está para a polis assim como a parte está para o todo, de um modo análogo tanto àquele no qual uma mão ou um pé estão para o corpo do qual são parte, quanto àquele no qual uma peça num jogo de tabuleiro (podemos pensar em xadrez ou damas – o jogo grego ao qual Aristóteles se refere assemelha-se ao último) está para um jogo no qual é utilizada. Separe uma mão de seu corpo: falta-lhe tanto a função específica como a capacidade específica de uma mão; não é mais uma mão, no mesmo sentido. Abstraia uma peça de sua utilização no jogo; ela fica também privada de função e capacidade. De que é que um ser humano fica privado se separado radicalmente da vida da polis?
‘Díke’ é a ordenação da polis, declara Aristóteles, mas compreende isso de modo a relacionar sua afirmação com o uso homérico de ‘díke’. Pois a polis é a comunidade humana aperfeiçoada e concluída através da realização de seu ‘télos’, e a natureza essencial de cada coisa é o que é quando atinge o seu ‘télos’. Portanto, é nas formas da polis que a natureza humana como tal se expressa, e a natureza humana é o mais elevado tipo de natureza animal. A visão homérica de ‘díke’, como a ordem do cosmo, reaparece, assim, na visão aristotélica de ‘díke’ como a ordenação do que é mais elevado na natureza. ‘Díke’ ordena fazendo julgamentos justos e a justiça (dikaiosyne) é a norma através da qual a polis é ordenada, uma norma que não tem aplicação fora da polis. Portanto, a primeira resposta à questão do que está privado um homem separado da polis é: ‘dikaiosyne’. Mas, estar privado de ‘dikaiosyne’ envolve outras privações.
Na «Ética a Nicómaco» (Livro VI,1144a7-1145a11), Aristóteles discute a interdependência entre a inteligência prática e as virtudes de carácter. Porque Aristóteles acreditava que a posse de cada uma dessas virtudes exige a posse das outras, usa tanto o singular ‘areté’ como o plural ‘aretái’ para referir-se a elas. Para que haja uma escolha correcta de acções é necessária a virtude, e é a ‘phrónesis’ que leva à acção correcta; logo, não há ‘phrónesis’ sem ‘areté’. Mas, da mesma forma, não pode haver ‘areté’ sem ‘phrónesis’. A pessoa cujas acções são formadas tanto por ‘areté’ como por ‘phrónesis’, segundo a discussão da Política, desenvolveu originalmente capacidades biologicamente dadas que poderiam, entretanto, ser desenvolvidas inversamente de modo a serem usadas a serviço da injustiça. E é assim que teriam se desenvolvido num ser humano privado de lei e da justiça que apenas a polis pode oferecer. Portanto, a polis é necessária para que haja ‘areté’, ‘phrónesis’ e ‘dikaiosyne’. Separado da polis, o que poderia ser um ser humano torna-se um animal selvagem”.

– MacIntyre, Alasdair (2001). “Justiça de Quem? Qual Racionalidade?” [“Whose justice? Whiche rationality”, 1988]. São Paulo: Edições Loyola, pp. 110-111.

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MacIntyre recorre às analogias aristotélicas – «um ser humano está para a polis assim como a parte está para o todo, de um modo análogo tanto àquele no qual uma mão ou um pé estão para o corpo do qual são parte, quanto àquele no qual uma peça num jogo de tabuleiro» – para fundamentar que «a polis é necessária para que haja ‘areté’, ‘phrónesis’ e ‘dikaiosyne’. Separado da polis, o que poderia ser um ser humano torna-se um animal selvagem”».

Aristóteles constrói o conceito de polis por via da oposição à Natureza (entendida como “inferior”, “selvagem”, “imperfeita”, “incompleta”), contudo – e aqui reside uma das contradições aristotélicas – a polis é uma não-natureza formada por animais, ainda que racionais, segundo a sua própria definição de homem (“o homem é um animal racional”).

Para a polis ser passível de representar o todo, teria de incluir os animais selvagens (e os vegetais, os minerais, o inorgânico, etc.), ao invés de se opor a eles – como “superior – e de os deixar do lado de fora – como “imperfeitos” e “incompletos”.

As analogias aristotélicas pelas quais a polis é entendida como todo, corpo e jogo de tabuleiro, caem por terra quando se reduz a polis à comunidade da espécie humana, pois esta, não é, evidentemente, tudo o que existe no todo, corpo e jogo da Natureza, enquanto realidade mais abrangente. E destacar uma só espécie desse todo, jamais será o todo. E se a polis de Aristóteles é somente uma parte do todo, um destaque artificial, então, logicamente, o homem da polis não pode ser tomado naturalmente e chamado de animal, ainda que racional.

Como explicar que na polis nasça a necessidade dialéctica de distinguir e opor seres humanos (“animais racionais”) a animais selvagens – formas que se intercambiam e interpenetram nas sociedades totémicas, por exemplo?

Parece que, afinal, a condição prévia à areté, phrónesisdikaiosyne está na dependência de purgar dialecticamente o que há de humano no animal, e, vice-versa, o que há de animal no humano (ou o que há de irracional no racional), dando origem a entidades factícias e fictícias, já que, na realidade, o homem é um animal, segundo o próprio Aristóteles.

Zona ártica interior

«A superconductor is a substance that has zero electrical resistance. Usually this occurs at extremely low temperatures».

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«Tanto los pobres como los ricos deberán superar la ilusión de que más energía es mejor.»

– Ivan Illich

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«- Ai de mim! – disse o homem. – Quanto mais quente está, mais frio eu tenho. Para mim, o Sol é geada cortante que me gela os ossos e, por outro lado, quando os outros têm aquilo a que chamam frio, eu começo a ter muito calor. Não suporto n…em o gelo por ser tão quente, nem o lume por ser tão frio».

– Irmãos Grimm, “Os Cinco Criados”.

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«As linhas de força do campo magnético da Terra (magnetosfera) estão mais contraídas do lado do planeta que está iluminado pelo Sol.»

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«When the Black Stone came down from Jannah [Paradise], it was whiter than milk, but the sins of the sons of Adam made it black. (…) Touching them both [the Black Stone and Ar-Rukn Al-Yamani*, “The South/Right Corner” of Kaaba] is an expiation for one’s sins. (…) The Black Stone is the right hand of Allah Most High.»

– At-Tirmidhi, Sunan, several hadith (“sayings of the Prophet”).

* It derives from the Arabic root y-m-n meaning simultaneously “south, right hand, dexterity”. Yemen (the country) is located to the south of Mecca (housing the Black Stone in the eastern corner of Kaaba). The South corner is exactly on the right of the Hajr Al-Aswad [Black Stone], which faces sunrise [“alba”, “alvorecer”, “alvorada” are Portuguese words of Arabic origin]. Another word deriving from the same root is yumn meaning “felicity, prosperity, blessing, good fortune”; indeed the Romans called it Arabia Felix. When the Arabs swore an oath they put their right hand (yameen) on the right hand of the other person.

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«Chlorophyll is damaged when leaves are cooked. The molecules denature, and the central magnesium atom is replaced by hydrogen ions. This affects the energy levels within the molecule, causing its absorbance spectrum to alter».

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«…quando Kant marcar que o pensamento está ameaçado, não tanto pelo erro, mas por ilusões inevitáveis que vêm de dentro da razão, como de uma zona ártica interior, onde a agulha de qualquer bússola enlouquece, é uma reorientação de todo o pensamento que se torna necessária, ao mesmo tempo que nele se insinua um certo delírio de direito»

– Deleuze, “O Que é a Filosofia?”

Recuando a paisagem

Penitenciária Central de Lisboa,  Rua Marquês da Fronteira 52/56

«O projecto em estrela para do centro um guarda só poder vigiar todas as alas das celas.» – Projecto de Joaquim Júlio Pereira de Carvalho, Luís Victor Le Cocq e Ricardo Júlio Ferraz, 1874. Direcção de obra: Ricardo Júlio Ferraz. Inaugurada em 1885.

Início da construção da Praça Marquês de Pombal, Lisboa, 1917.

Praça Marquês de Pombal, Lisboa, 1934. Com lago na zona do então Parque da Liberdade (actual Parque Eduardo VII), actualmente recuado para a Estufa Fria, perto da esplanada “Linha d’ Água”.


“Lisboa de Hoje e de Amanhã” (1946-48), de António Lopes Ribeiro