Coragem e horizonte


Félix Guattari, “Grands Entretiens 1989-90”, Antenne 2 (France), 1h11m.

[7:40 – 10:00] Psicanálise. Freud. Formações subjectivas inconscientes. Lacan. Invenção de si mesmo. Saída da subjectividade pré-determinada. Carácter creacionista da subjectividade. Reducionismo da ciência. Via de singularização da cura.

[13:20 – 14:25] A ética e estética como ruptura com o paradigma científico e entrada noutras dimensões. Ética como relação singular irreprodutível. Um mundo de “batas brancas”: pseudo-ciência, tecnocracia, causalidade linear.

[16:00] Deleuze. A filosofia como movimento de produção: fazer funcionar a obra para além dos textos mesmos. Sobre-vida da filosofia.

[20:15 – 21:23] Pseudo-finalidades dos objectivos económicos, políticos e estetistas. Reencontro da finalidade como relação com o cosmos e com o devir da existência. A função da filosofia é fazer a subjectividade sair do seu infantilismo e oferecer-lhe a densidade do acontecimento, sair de certos mitos da eternidade que lhe são vertidos como uma droga, sem parar, por todos os lados.

[23:00 – 24:40] – Indivíduos e colectividades humanas empenhados numa correria que leva ao desastre. Retomada de si mesmo, de um processo para encontrar algo que não é uma identidade, nem uma adequação aos universais, mas a invenção de um mundo. Universais da psicologia e da linguística. Cada vez que se fixa como objectivo uma identidade, perde-se algo de essencial que é o devir, com o risco de que nos encontremos sempre com um limite muito próximo, à flor da pele, que é o da catástrofe esquizofrénica, que é o da angústia total, que é o do desmantelamento desta subjectividade.

[27:15] – Sartre: o passado como fonte de ilusões. A perspectiva genealógica de Foucault: recomposição de elementos dos arquivos do passado para nos lançar sobre situações actuais.

[31:10] – Como fazer com que, através das diferentes estratificações do real,  possamos encontrar meios de criar a subjectividade como agenciamento colectivo ou como individuação, sob um modo que não seja o do serialismo, o das formações do poder, o dos estados de coisas? Colide-se com a tradição sem parar, damos voltas em círculos como burricos em torno de um poste com as tradições, os universais, etc., completamente cercados.

[34:00 – 36:00] Sartre. Foucault. Há uma micro-política, no nível micro-social, que é o lugar em que se vai operar a retomada das práticas sociais. É preciso tentar conceber uma reestruturação do acto político nesse novo contexto, o que não quer dizer que não existam sempre as formações de poder, do Estado, etc., no seio das quais nos debatemos. Estamos, portanto, presos num tipo de polifonia discordante, entre linhas muito contraditórias.

[39:00] O Maio de 68 como facto de ruptura e de emergência de formas mutantes de subjectivação singulares, engendradas cada uma em contextos diferentes, de todo, não homogéneos, uma heterogénese da subjectividade, uma revolução molecular.

[41:00] Psicologia aberta. A França como pequena Suíça piolhenta, no sentido de que ela não tem a mesma riqueza que a Suíça, por habitante. Os socialistas franceses fazem pouca coisa para que algo aconteça, debatem pouco sobre uma inovação social, uma criatividade…

[43:30 – 48:30] – A fragilidade do poder de Estado, o carácter fictício, doloso, do Estado, que se manifesta na área económica. É preciso pensar os problemas à escala planetária, vê-se então que todas essas estruturas políticas existentes estão completamente fora de rumo. Degradações da biosfera, explosão demográfica, o crescimento da miséria, a crise urbana, etc. As pessoas que estão no poder não controlam absolutamente nada. Paralisia dos poderes em actividade: políticos, sindicais, parlamentares. Não significa que sejam idiotas ou que estejam corrompidos, significa que eles não estão a par das imensas transformações, das imensas revoluções que atravessamos. Quem pode ter direito a uma visão global da História? Ninguém! Sobre tudo isso, encontra-se essa espécie de calma, não de beatitude, mas de embrutecimento da vida política e intelectual. Ecosofia contra a arque-ecologia, a ecologia dos passarinhos, e contra a ecologia tecnocrática. Ecosofia é não poder apreender uma transformação do meio-ambiente (biosfera), se não se mudar mentalidades, se não se reconstruir e reinventar a malha social, e, além dessa ecologia social, uma ecologia mental no sentido de Gregory Bateson, que é o trabalho sobre si mesmo, o trabalho esquizoanalítico, a relação com o mundo, com a finitude, com o social, com o devir inumano, com o devir animal. Os personagens de Kafka eram ecósofos à sua maneira.

[49:15] – Apesar dos riscos fantásticos que nos fazem correr o tipo de produção actual, o tipo de poluição actual, o tipo de desmantelamento da subjectividade actual, é possível que talvez nasça, com grande brutalidade, com um grande efeito de surpresa, uma grande vitalidade, uma forma de construir outra coisa diferente da que construímos em matéria de bens, urbanismo, etc., e que outras finalidades apareçam: como se vai organizar o diálogo, a vida, a relação com o corpo, a possibilidade de desenvolver as potencialidades humanas, ao invés de produzir isso que faz funcionar o mercado económico? O risco é total! A situação actual, ao nível planetário, está no limite e é perigosa. Talvez seja já muito tarde! Pensa-se que Chernobyl foi um pequeno acidente e a quantidade de Chernobys que estão aqui potencialmente à nossa porta…

[52:00 – 54:15] – A longa duração de Fernand Braudel é o facto que é o mais microscópico – como, por exemplo, a pílula contraceptiva que intervém na demografia à escala mundial – que se articula com o macroscópico. A articulação entre o microscópico e o macroscópico, ninguém a faz, ninguém a domina, ela é da ordem da longa duração (o tempo). Os agenciamentos colectivos estão em uma relação de simetria de escala entre um nível molecular e um nível fractal, em todo o caso, global. Por exemplo, uma mudança de tecnologia molecular pode repercutir-se sobre o conjunto dos mídia. A mais pequena descoberta científica local pode ter um efeito sobre o conjunto dos phylums maquínicos. Articulação de três níveis: o nível macroscópico do meio-ambiente, o nível intemediário do socius e o nível molecular da ecologia mental. Transversalidades de passagem entre esses níveis.

[59:00] A coesão fictícia sob o retrato do líder, sob a imagem mediática do famoso, do star-system. Não houve jamais tantas dilacerações em relação ao outro na sua diferença, o aumento do racismo à escala planetária, centenas de milhões de pessoas que morrem de fome e de desespero, e que são ainda mais rejeitadas do que na antiga escravidão que, ao menos, respeitava, de certo modo, os seus escravos. Nunca houve tanta perda de coerência, de consistência.

[01:05:55] – «Os artistas são mutantes, em condições muito difíceis para a mutação, condições de controle pelas imagens dominantes, pelos media, pelo sistema de galerias, por exemplo. No meio musical, não são os conservatórios, mas os locais onde se consomem músicas. São pessoas que têm a coragem de lançar a sua existência sobre um processo de singularidade e é nisso que eles nos oferecem um paradigma interessante. Existe sempre esta ideia de que no horizonte, no horizonte absolutamente utópico da História, haveria a possibilidade de construir a sua existência como um artista conduz a sua obra. Sublinho aqui o “como”».

[01:07:10] – Uma vida não deve ser uma obra-prima acabada e comparada a outras: avaliação transcendente. Mas uma obra aberta, processual, única num certo sentido. Kafka é a obra aberta por excelência.

[01:08:10] – Uma política, hoje, só pode ser multíplice. As relações com o poder (estatal, institucional, paternal) são necessariamente multíplices, envolvem níveis contraditórios, heterogéneos, da subjectividade e não existe resposta unívoca que possa ser usada. Do mesmo modo que na poesia, há uma multiplicidade de significações que é produzida, também nas relações de poder, existe a necessidade de assumir a complexidade da subjectividade, hoje em dia, quer dizer, esta estratificação de níveis de agenciamento de enunciações antagonistas contraditórias.

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