Dialogue

Jan Svankmajer, “Dialogue” (1982)

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Deus-Mercado

«Esto es un antecedente de las Naturalezas Muertas. Personas y animales aparecen en la cuadro, pero la parte principal la ocupan las cosas inanimadas. (…) ¿Cuál es la razón de que las cosas inanimadas se conviertan en lo principal del cuadro? (…)

La pintura, primero en Flandes y en Holanda, se aparta de los motivos religiosos, para no rebajar su carácter elevado. La pintura no quiere rebajar lo elevado, y con ello no puede evitar elevar lo quotidiano. La pintura no quiere humanizar lo divino, y puede suceder que objetos fabricados por el hombre sean divinizados por ella. Lo inimaginable no debe representarse con falsas imágenes, y puede suceder que fabricaciones humanas se transporten a lo inimaginable. (…)

La palabra “fetiche”, en su origen una creación portuguesa, llegó en el siglo XVII, en pleno auge de las Naturalezas Muertas, a Holanda. Marinos narraban que en las costas de África había religiones que veneraban objetos elegidos arbitrariamente, como si fueran divinidades. Fetiches. Cosas que tienen algo divino – y no sólo significan. Tres siglos después, en 1906, escribe Marcel Mauss:

“El término ‘fetiche’ debe abandonarse definitivamente, no corresponde a nada preciso.”

De esta manera parece como si los europeos hubieran inventado una práctica religiosa que enseguida apartaron de ellos muy lejos, relegándola a los confines de su imperio comercial. Pero la palabra “fetiche” ha vuelto envolviendo con su aura cada objeto. La palabra “fetiche” designa algo que no tiene que existir, pero que tiene la fuerza de referirse a algo, apoyado en la nueva circulación monetaria.

Los europeos, los protestantes sobre todo, rechazaban totalmente que a un objeto se le pudiera atribuir una fuerza divina. Se rodeaban cada vez de más objetos, con el riesgo de convertirse en paganos. Por encima de todo: las cosas no deben tener valor por la fe, sino valor de mercado – ¿cómo fundar un comercio mundial sobre la base de la fe? Las cosas han de tener un valor que permita contabilizarlas. Una cantidad de frutos exóticos a cambio de cristal de Venecia. Cristal de Venezia a cambio de porcelana china, y así sucesivamente. Para el comercio las cosas han de significar algo, no les basta con ser. Ya no se puede pedir a la verdad mostrarse ella misma. (…)

Finalmente los objetos dan testimonio de sus fabricantes que en el acto de la producción revelan algo de su propia persona. Sin embargo, los fabricantes no aparecen con su objeto. Cuando se miran las cosas, los hombres que las fabrican resultan no-imaginables. La persona que las mira, resulta a sí mismo no-imaginable. Es el punto de partida para una nueva visión del ser humano.»

– Script do filme “Stilleben” (1997) de Harun Farocki.

Crítica tecnológica

City symbols
Four representations of the town or city: Clockwise, from upper left,

– Early Chinese ideogram for “village,” 1300-612 BC;
– Assyrian bas-relief showing scenes of city life, c. 1600 BC;
– Egyptian hieroglyph for “city,” 3110-2884 BC;
– Icelandic drawing of the “heavenly city of Jerusalem,” 13th century AD.

Images by Norman Crowe in Nature and the Idea of a Man-Made World, MIT Press.

«O símbolo egípcio para “cidade”: um círculo e uma cruz. Geralmente, quando dois caminhos se cruzavam constituía-se uma cidade. Os militares chegam ao cruzamento, para controlar dois caminhos num só ponto. O mercador chega, para vender aos viajantes que vêm de dois caminhos. O viajante é obrigado a parar. Assim se constitui uma cidade. Uma imagem agradável: o viajante faz pausa num cruzamento para se inteirar dos outros possíveis destinos e origens. É desta tomada de consciência que surge a cidade. A escolha entre dois caminhos: a bifurcação. Dois é a expressão mais pequena do plural. Com dois símbolos podemos representar o número maior. Para a direita é com o pé direito e para a esquerda com o pé esquerdo. O lugar de onde se vem é o corpo. Na bifurcação, iluminada pelos holofotes, encontra-se o leito de onde nasceu a cidade. Na bifurcação, uma estrela indica o caminho.

Em 1861, já existia a primeira metralhadora, na Guerra Civil da América. Tinha uma manivela para mudar os canos das balas. O construtor, Gatling, aqui com a sua mão na manivela, justificou a sua invenção afirmando que queria salvar as vidas dos soldados. Um método de racionalização. Mas como uma metralhadora se pode matar mais gente, são, assim, precisos exércitos maiores e não mais pequenos. Quando os produtos são feitos pela máquina, são precisos menos operários, mas maiores mercados. (…)

Até à Grande Guerra, os europeus testaram a metralhadora nas suas colónias. Os alemães usaram-na contra os Hereros e os Hottentotten. Esta é uma arma Maxim, usada pelos ingleses, na Índia. Em 1898, perto de Omdurman, no Sudão, a prova do seu poder de fogo: 7000 soldados islâmicos do Movimento Dervish foram dizimados por metralhadoras. Uma testemunha disse: não foi uma batalha, mas uma execução. (…)

Um veículo armado, já na altura chamado tanque, veio mexer de novo com a guerra, que estava estagnada desde a metralhadora. Os primeiros veículos armados foram veículos agrícolas modificados. (…) Tal como a metralhadora, o tanque impôs-se aos militares. O tanque marcou o início da motorização do exército, e terminou com um século de hierarquias: entre os soldados a pé e os que seguem a cavalo. Esta imagem demonstra o fim do cavalo e o início da motorização em massa. (…)

A regularidade da máquina envergonha a mão insegura do artesão. O trabalhador tem de ser substituído. O cartão perfurado para o “tear de Jacquard”, através do qual se podem padronizar desenhos. O tear é controlado por cartões perfurados, como os que se usam nas calculadoras. A matemática controla o trabalho de mão. O nascimento dos computadores derivado da tecelagem. Um modelo do tear de Jacquard, de 1728, era capaz de tecer padrões e imagens. Jacquard construiu um tear com 25 metros de altura e mandou tecer um retrato seu. Os pregos de metal recolhem-se ou são bloqueados pelos cartões furados. Abrindo ou fechando uma cor em particular. A tecelagem está intimamente ligada à matemática. (…) “A fábrica de ideias não é senão Como a peça de um mestre tecelão, Onde um pedal põe mil fios em movimento, As lançadeiras andam num vaivém. Os fios correm sem os ver ninguém. Um gesto produz mil cruzamentos.” Assim falou Mefistófoles, disfarçado de professor, a um estudante. Ele fala sobre a mecanização do pensamento através da Lógica. O tear de Jacquard decompõe a imagem em pontos e alinha-os, tal como funciona uma televisão. (…)

Até a mais ínfima história da cultura faz referência que os humanos e os animais com coluna vertebral e articulações são incapazes de fazer uma rotação de 360°. A fiação é, portanto, um acontecimento histórico singular. O ser humano com uma coluna rígida e articulações tece pequenas fibras numa teia infinita envolvendo-as. O movimento giratório proporcionou o pré-requisito para a produção contínua. Diz-se que o movimento dos planetas serviu de protótipo para o movimento da roda do fiar. mas eu prefiro dizer: é porque os humanos já tinham inventado o torno, que puderam reconhecer o movimento dos planetas. O engenho de combustão também acciona o impulso da explosão de gás num movimento de rotação. (…) O ritmo do processo e a rotação infinita do trabalho fundem-se num só. (…)

Imagens da fábrica de automóveis Phänomen, 1937. Cada imagem mostra uma peça com a cabeça do trabalhador inclinada, ao fundo. Não há esforço visível, a distorcer o rosto. É um catálogo. Lábios cerrados, uma sobrancelha levantada: um comportamento responsável. Antes da era da linha de montagem: (…) Os primeiros carros foram feitos à unidade, por operários. Ferreiros, caldeireiros, ferradores, latoeiros, mestres seleiros, pintores e cocheiros. Como aconteceu à madeira, estas profissões desapareceram da indústria automóvel. 1934 na Opel: o fantasma do trabalhador operário. Os vidreiros dançam como se fossem camponeses ou vindimadores. Pela última vez, o trabalho vem de um ritmo que também pode ser dançado. O ferreiro teve que se afastar da estampagem. A prensa de metal substituiu o operário que tinha de fazer os chassis. A laca de nitrogénio, aplicada com pistolas, tornaram supérfluos os pintores.

Este é o desenho mais antigo que se conhece de um mecanismo de rotação. Um relevo egípcio, de 300 A.C. Um desenho baseado no relevo, mostra a sua aplicação prática. O trabalhador da direita segura Uma correia enrolada à volta da peça. Ele empurra-a para lá e para cá, transformando este movimento numa rotação. O sistema de correia: Mais tarde a correia passou a ser puxada por um pedal. Esta técnica manteve-se até ao século XIX. Esta corrente para transferir energia é a percursora da transmissão por correia, que faz os trabalhadores das primeiras indústrias parecerem brinquedos mecânicos. Repare nos pés. Normalmente encontramos imagens em que o pé controla a ferramenta. Mais tarde, o pé fica relegado para tarefas rudes, para a força ou o movimento. Creio que os trabalhadores da indústria admiravam os futebolistas uma vez que estes usam os pés para fazer um trabalho minucioso. Os futebolistas usam os seus pés para tarefas, que, normalmente, estão reservadas às mãos. O facto de lhes lembrar como tinham eles sido antes, com os pés, emociona-os mais do que a perda de algo actual.

O inglês, Maudsley, construiu o primeiro torno de cortar roscas, em 1 800 que fazia girar o material quando o torno por ele passava. Marx escreveu acerca disso: Este engenho mecânico não substitui somente a máquina, mas sim a própria mão humana. (…)

Consideremos o seguinte facto: O computador, a desintegração nuclear e o controlo remoto de foguetões foram todos desenvolvidos numa época em que nunca tinha havido tantos escravos em solo alemão como dantes. (…) O trabalhador, que prepara e monitoriza, está em vias de extinção desde que as máquinas estão ligadas a computadores. Antigas calculadoras: rodas com números. Infinitude e medição. Ritmo rígido e repetição. Dantes, era necessário um grande esforço mecânico para a solução técnica de um problema de cálculo. Só quando os sistemas mecânicos foram substituídos pela electricidade, foi possível uma aproximação à leveza do pensamento. Desde que o trabalho é calculado, e que o olho, ouvido e o nariz do trabalhador deixaram de ser precisos, as máquinas assemelham-se cada vez mais a bens domésticos. (…) Brevemente, poderemos admirar motores como quem vê montras. (…) Conduzir, a expressão de mobilidade e liberdade, está sob vigilância. O primeiro trabalho a ser quase inteiramente substituído pela máquina foi o da indústria têxtil. (…)

No seu livro, “A máquina vs. o Homem”, David Noble descreve o processo do chamado “record-playback”, testado nos EUA,após a 2a Guerra Mundial. Significa que o técnico trabalha uma peça na máquina e os seus movimentos são registados numa banda magnética. Depois, de acordo com este registo, a máquina repete os movimentos. Os técnicos da fábrica criam o programa, usando as mãos e olhos. A máquina copia. Sem programador, matemática, linguagem de programação ou computador. Um processo de modelo e cópia. (…)

Os militares e os gestores desprezam processos de produção ainda baseados no conhecimento do trabalhador. (…) A história da tecnologia prefere descrever o desenvolvimento como uma linha de A a B. Ela devia descrever que os outros caminhos existiram e quem decidiu contra eles. A Guerra Civil, nos EUA, fez crescer os caminhos-de-ferro, a 1ª Grande Guerra, o automóvel. A 2a Grande Guerra, o avião. (…) O comboio, meio de transporte da primeira revolução industrial. O comboio faz a ligação de percursos e horários pré-determinados. O comboio não é flexível e tem um comando central. O carro, o transporte da segunda revolução industrial. O carro faz a ligação de uma vasta rede de percursos possíveis em horários livremente determinados. O carro é flexível e tem um comando descentralizado. O veículo carris-estrada. Dos trabalhadores e engenheiros ingleses. Eu prefiro não lhe chamar tecnologia “alternativa”, mas sim, crítica tecnológica, prática. Ela liga os dois sistemas de transporte. (…)

A maioria dos carros de hoje são construídos para que se tornem inúteis depois de 3 ou 4 anos. Perde-se, por isso, muita energia nas reparações. O nosso “Jiffy” foi construído por uma cooperativa e deverá durar mais ou menos 10-15 anos. A cabina é de fibra de vidro e retirámos o motor de um “Mini”, que reparámos e renovámos. Funciona como novo, agora. Construímo-lo para poder ser reparado. Geralmente, há problemas com a embraiagem, por exemplo. Por isso a colocamos aqui, de fácil acesso e reparação. Por isso, o carro deverá durar 10-15 anos. Este movimento não vingou nas grandes empresas. Mas com o apoio dos governos locais e das universidades e dos sindicatos, ela continua em grupos pequenos. (…) No seu livro, “Produtos para a paz, em vez de armas para a morte” Mike Cooley conta a história deste movimento. Ele descreve possíveis caminhos alternativos do pensamento e desenvolvimento tecnológico. (…) O produtor dominaria a produção. O talento e a invenção do artesão e do trabalhador intelectual estariam envolvidas simultaneamente, continuando o desenvolvimento do próprio processo. Isto criaria uma ligação entre a inteligência humana e a tecnologia avançada. É possível imaginar que esta tecnologia, baseada na interacção da mão com a mente, usando a observação, possa ser utilizada em áreas perigosas, como nas minas e na prevenção de acidentes. Filmámos esta demonstração num centro de pesquisa nuclear. Cada pessoa activa gasta, hoje, um terço do seu tempo e dinheiro em carros e ruas. Como na Idade Média, as pessoas despendiam um terço do seu tempo e dos seus recursos em catedrais.»

– Script do filme “As You See” de Harun Farocki.

A prisão como empresa

«A fábrica converte-se numa dependência da prisão. No movimento por passeios e escadas, pode-se ver não só o quartel mas também a antiga ordem da fábrica, a sequência dos produtos na linha de produção. A prisão deve aparecer como uma empresa industrial porque é um lugar de progresso técnico. Tecnologia de prisões. Um aparelho biométrico para o controle de acesso. Califórnia, Califórnia, Califórnia. Um altar giratório. Identificação pela íris. Câmaras de vigilância.

Conhecemos as câmaras de vigilância dos supermercados. Aí, primeiro tiveram a função de impedir o roubo, e mais tarde de analisar o consumo dos clientes.

Nesta simulação os quadradinhos simbolizam os clientes que andam pelos corredores de um supermercado. Trata-se de saber que caminho o cliente escolhe. Quanto maior o trajecto, tanto maior o contacto com os produtos e mais alta a possibilidade de uma compra espontânea. Pode-se seleccionar um cliente e aparecem as suas compras.

Estes pontos representam prisioneiros, têm um emissor electrónico no tornozelo. Pode-se seleccionar um prisioneiro e sabe-se a identidade dele. (…)

O exercício de poder e de violência tem de ser constantemente treinado. Poder e violência parecem quase sempre impessoais hoje. O exercício do poder cara a cara já não é usual, assim como cozer pão ou matar gado. (…)

Os guardas também estimulam a violência, mudando os prisioneiros de cela e decidindo quem vai ao pátio com quem. Os guardas juntam um membro da máfia mexicana com um outro da Nuestra-Familia, grupos se que rivalizam desde os anos 60. Ou juntam um mexicano do Sul com um outro do Norte. Tais combinações levaram a favorecer certos prisioneiros nas lutas, a penalizar outros mandando-os para o pátio a lutar contra um inimigo mais forte, ou de igual força, para organizar apostas entre o pessoal. Às vezes os guardas apostam nas brigas. Cada incidente, tem uma improbabilidade com a qual se tem de contar. Os prisioneiros sabem que os guardas vão disparar. Apesar disso, as lutas repetem-se. Para quem é o espectáculo? Em vez do proletariado da cidade de Roma que se teve de distrair, aqui só há uns guardas e uma câmara. As imagens não estão pensadas para um público, e só ocasionalmente saem para fora por vias secretas. Os prisioneiros não têm quase nada, só o seu corpo e a pertença a um gangue. A identidade.

Passa por poderoso quem dispõe de meios técnicos. O corpo só não vale muito. (…) Tecnologia de prisões: põe-se grilhões electrónicos no pé do condenado, tem que repetir a palavra código para que um programa reconheça a sua voz. A partir deste momento, o computador pode chamá-lo e verificar a sua presença. Depois do beep, por favor diga: “Califórnia”. Califórnia, Califórnia, Califórnia. Com esta tecnologia qualquer quarto pode ser convertido num lugar de prisão. Assim, eliminar-se-á a prisão. O lugar fixo onde se é marginal.»

– Script do filme “Prison Images” de Harun Farocki.