A prisão como empresa

«A fábrica converte-se numa dependência da prisão. No movimento por passeios e escadas, pode-se ver não só o quartel mas também a antiga ordem da fábrica, a sequência dos produtos na linha de produção. A prisão deve aparecer como uma empresa industrial porque é um lugar de progresso técnico. Tecnologia de prisões. Um aparelho biométrico para o controle de acesso. Califórnia, Califórnia, Califórnia. Um altar giratório. Identificação pela íris. Câmaras de vigilância.

Conhecemos as câmaras de vigilância dos supermercados. Aí, primeiro tiveram a função de impedir o roubo, e mais tarde de analisar o consumo dos clientes.

Nesta simulação os quadradinhos simbolizam os clientes que andam pelos corredores de um supermercado. Trata-se de saber que caminho o cliente escolhe. Quanto maior o trajecto, tanto maior o contacto com os produtos e mais alta a possibilidade de uma compra espontânea. Pode-se seleccionar um cliente e aparecem as suas compras.

Estes pontos representam prisioneiros, têm um emissor electrónico no tornozelo. Pode-se seleccionar um prisioneiro e sabe-se a identidade dele. (…)

O exercício de poder e de violência tem de ser constantemente treinado. Poder e violência parecem quase sempre impessoais hoje. O exercício do poder cara a cara já não é usual, assim como cozer pão ou matar gado. (…)

Os guardas também estimulam a violência, mudando os prisioneiros de cela e decidindo quem vai ao pátio com quem. Os guardas juntam um membro da máfia mexicana com um outro da Nuestra-Familia, grupos se que rivalizam desde os anos 60. Ou juntam um mexicano do Sul com um outro do Norte. Tais combinações levaram a favorecer certos prisioneiros nas lutas, a penalizar outros mandando-os para o pátio a lutar contra um inimigo mais forte, ou de igual força, para organizar apostas entre o pessoal. Às vezes os guardas apostam nas brigas. Cada incidente, tem uma improbabilidade com a qual se tem de contar. Os prisioneiros sabem que os guardas vão disparar. Apesar disso, as lutas repetem-se. Para quem é o espectáculo? Em vez do proletariado da cidade de Roma que se teve de distrair, aqui só há uns guardas e uma câmara. As imagens não estão pensadas para um público, e só ocasionalmente saem para fora por vias secretas. Os prisioneiros não têm quase nada, só o seu corpo e a pertença a um gangue. A identidade.

Passa por poderoso quem dispõe de meios técnicos. O corpo só não vale muito. (…) Tecnologia de prisões: põe-se grilhões electrónicos no pé do condenado, tem que repetir a palavra código para que um programa reconheça a sua voz. A partir deste momento, o computador pode chamá-lo e verificar a sua presença. Depois do beep, por favor diga: “Califórnia”. Califórnia, Califórnia, Califórnia. Com esta tecnologia qualquer quarto pode ser convertido num lugar de prisão. Assim, eliminar-se-á a prisão. O lugar fixo onde se é marginal.»

– Script do filme “Prison Images” de Harun Farocki.

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