Sociedade do envelhecimento

«O homem precisa de dormir.»

«Writing that springs from the surface of existence — when there is no other way and the deeper wells have dried up — is nothing, and collapses the moment a truer emotion makes that surface shake. That is why one can never be alone enough when one writes, why there can never be enough silence around one when one writes, why even night is not night enough

– Kafka

“Men thrive by sleep, not long but deep”

– Provérbio galês

“A good laugh and a long sleep are the best cures in the doctor’s book”

– Provérbio irlandês

.

A chamada “sociedade do conhecimento” que subordina os corpos (não só os humanos) à exposição permanente ao electromagnetismo das máquinas tecnológicas é, na realidade, uma sociedade do envelhecimento.

Por que razão? A luz brilhante dos écrans (mas também a poluição magnética invisível, porém, sensível, que os aparelhos electrónicos emitem) inibem a libertação de melatonina pela glândula pineal, desregulando, quer o ritmo circadiano de vigília e sono (cuja actuação regular nos dá a sensação de repouso), quer os processos naturais anti-envelhecimento e anti-degeneração celular e neuronal, uma vez que a melatonina é um poderoso anti-oxidante (agente anti-envelhecimento e anti-cancro) que, por preferir a escuridão para actuar, ganhou o cognome de “hormona das trevas”.

Quando é que a noite é mais intensa? Do meio-dia à meia-noite, o Sol investe em declinar (ou, melhor dizendo, a Terra investe em subir) e escurecer a atmosfera; da meia-noite em diante, o Sol empenha-se em subir (e a Terra em descer) e o céu vai gradualmente aclarando, mesmo antes do nascer do Sol ser visível.

Assim, a noite é mais intensa entre o pôr-do-sol e a meia-noite. Era a este período que os antigos apelidavam de “sono de beleza”, ainda hoje recomendado a futebolistas e modelos, por razões de desempenho, saúde e formosura.

Supõe-se, desconhecendo se existem ou não investigações que o hajam concluído, que a produção de melatonina atinge máximos durante esta fase do dia.

Produzem-se consequências nefastas sobre o corpo das crianças, em fase de enraizamento de hábitos, quando estas desregulam o seu ritmo circadiano natural para ficarem até mais tarde a ver televisão, ligadas ao computador, a jogar vídeo-jogos ou simplesmente acordadas, a fazer seja o que for. Nos adultos, também se fazem notar os efeitos, sob a forma de insónia, stress, acumulação de cansaço (sem sensação de repouso), falhas de memória, distúrbios alimentares, disfunções sexuais, depressão, desordens do sistema imunológico, debilidade e degeneração de diversos órgãos vitais, anemia energética.

Os horários tardios são fomentados por diversos factores: o agenda setting dos programas de televisão; o artifício de trocar a hora sideral pelo atraso de 1 hora da hora de Inverno; e cada vez mais, pelos serões de trabalho prolongados (actualmente, promovidos pela propaganda governativa). Está longe de ser bom para a produtividade de um país forçar os organismos a ritmos contra-natura e pró-envelhecimento, à custa do consumo desmesurado de estimulantes (“um café para acordar”, nicotina, etc.).

Acresce ainda a poluição luminosa nocturna, que, em vez de ser objecto de jurisdição mais apertada, é promovida como postal turístico (Las Vegas, vistas-satélite nocturnas no Google Earth, etc.). Por todo o lado, holofotes, esse signo de campo de concentração, que dá continuidade ao fascismo em nome da segurança, da vigilância, do reality-show… em detrimento da saúde e beleza (a “justificação estética da existência”).

Na História, abundam os casos de governantes/legisladores/sacerdotes (Júlio, Gregório…) que alteraram os calendários e os horários de toda uma civilização. Independentemente de o terem feito para o bem ou para o mal dos que governavam, certo é que a gestão do tempo sempre foi assunto de vital interesse para os poderes. Como se, de algum modo, intuíssem que, quem for mestre na adequação do corpo vivo ao tempo cósmico é também mestre da sua própria energia.

Não pretendemos, contudo, instituir um dogma horário. É possível que certas pessoas sejam mais matutinas e outras mais vespertinas, consoante a hora do seu nascimento e os seus hábitos arreigados. Cada qual deverá encontrar o horário que mais maximiza a sua energia.

No que à minha experimentação corporal diz respeito, comprovo a eficácia dos costumes da sabedoria popular, salvaguardando as variações horárias da luz natural ao longo das estações:

– “Deitar cedo e cedo erguer, dá saúde e faz crescer”;

– “Levanta-te às seis, almoça-te às dez, jantarás às seis, deita-te às dez: viverás dez vezes dez”;

– “Uma hora de sono antes da meia-noite vale por três depois” (provérbio inglês);

– “Fica até às nove e és meu amigo; até às dez, não tem mal; mas se ficas até às onze, és meu inimigo.” (provérbio dinamarquês);

– “Às nove: ceia o rico e deita-se o pobre”;

– “O sono é uma medicina” (provérbio inglês).

Por isso, considero uma contrariedade que me obriguem a falhar o meu recolher obrigatório. É como se me tirassem alimento da boca.

Os Antigos Egípcios acreditavam que o nome de uma criança devia ser escolhido com extremo cuidado, pois aquele iria ditar o seu destino. Pela minha parte, quer isso se deva ao meu nome ou não, o facto é que tenho uma relação muito especial (medicinal) com o sono, e, de algum modo, sinto-me destinada a devolver-lhe algum do prestígio que a civilização entendeu retirar-lhe.

Para esse menosprezo, contribuíram ideologias religiosas cujos discursos dão relevância ao despertar (por exemplo, Buda quer dizer “Desperto”) e que abominam o sono como um estado inferior à vigília, assim como também o século do culto às “Luzes” e a euforia da electrificação pós-Edison.

Na realidade, o sono toma parte no despertar. Quando não se deixam os homens repousar, quando não cuidam do equilíbrio subtil entre movimento e repouso, eles vivem permanentemente “zombies”, nem dormindo profundamente, nem profundamente despertos, somente dormentes, letárgicos. E, a menos que os deixem dormir (“dormir como um cão num moinho”, diz um provérbio irlandês), não vão realmente acordar.

A física moderna (incluindo a medicina e a biologia) deveria tomar em elevada consideração que é nas trevas do vácuo que viaja a luz. Primeiro yin, depois yang.

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