O rio corre ao contrário

«Foi aqui que os dois viram e ouviram o movimento, lento e profundo, seguindo para leste, contra a corrente, no fio da superfície ainda rígida ( – O rio corre ao contrário – disse serenamente um dos forçados), um movimento vindo de baixo com um cavo e débil rumor subaquático, que ressoava – embora nenhum deles no camião fosse capaz de fazer tal comparação – como um comboio do metropolitano ao passar debaixo da rua, o que revelava uma terrível e secreta velocidade.

Era como se a própria água se compusesse de três camadas separadas e distintas. A superfície branda e desapressada levava uma babugem espumosa e destroços miniaturais de raminhos, evitando, como por um cálculo perverso, o jorro e a fúria da própria enchente. Sob esta, por sua vez, esgueirava-se o ribeirinho de origem, murmurando na direcção contrária, correndo despreocupado e sem empeço ao longo do curso estabelecido para servir os seus fins liliputianos, tal como um carreiro de formigas entre os carris por onde passa um expresso, que as deixa despreocupadas com o seu poder e a sua fúria, como se Saturno fosse varrido por um ciclone. (…)

Então o forçado esgrouviado deu conta de outro som. Não o ouviu logo à primeira. Subitamente teve consciência de que sempre o ouvira, um som tão fora do alcance da sua experiência e dos seus poderes de assimilação que o olvidara até esse momento, tal como uma formiga ou uma pulga ignora o som da avalancha que a arrasta. (…)

– Que é isto? – perguntou o forçado. Um negro agachado junto de uma fogueira respondeu-lhe:
– É ele. É o Velho Homem!».

– William Faulkner, “The Old Man”, p. 47-48, p. 61.

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I am not appealing for any man’s verdict

«We aren’t even trying to interpret, to say that this means that. 5

And we are looking least of all for a structure with formal oppositions and a fully constructed Signifier; one can always come up with binary oppositions like “bent head-straightened head” or “portrait-sonority” and bi-univocal relations like “bent head-portrait” or “straightened head-sonority.”

But that’s stupid as long as one doesn’t see where the system is coming from and going to, how it becomes, and what element is going to play the role of heterogeneity, a saturating body that makes the whole assembly flow away and that breaks the symbolic structure, no less than it breaks hermeneutic interpretation, the ordinary association of ideas, and the imaginary archetype. Because we don’t see much difference among all these things (who could tell what the difference is between a structural, differential opposition and an imaginary archetype whose role is to differentiate itself?).

We believe only in a Kafka that is neither imaginary nor symbolic. We believe only in one or more Kafka machines that are neither structure nor phantasm. We believe only in a Kafka experimentation that is without interpretation or significance and rests only on tests of experience: “I am not appealing for any man’s verdict, I am only imparting knowledge, I am only making a report. To you also, honored Members of the Academy, I have only made a report.” (…)

Desire is not form, but a procedure, a process.»

– Deleuze & Guattari, “Kafka…”

Tout tremble, toujours, toujours

«Je vous écris du bout du monde. Il faut que vous le sachiez. Souvent les arbres tremblent. On recueille les feuilles. Elles ont un nombre fou de nervures. Mais à quoi bon? Plus rien entre elles et I’arbre, et nous nous dispersons gênées. Est-ce que la vie sur terre ne pourrait pas se poursuivre sans vent? Ou faut-il que tout tremble, toujours, toujours?
Il y a aussi des remuements souterrains, et dans la maison comme des colères qui viendraient au-devant de vous, comme des êtres sévères qui voudraient arracher des confessions. On ne voit rien, que ce qu’il importe si peu de voir. Rien, et cependant on tremble. Pourquoi?»

[Eu vos escrevo do fim do mundo. É preciso que vocês o saibam. Muitas vezes, as árvores tremem. Nós recolhemos as folhas. Elas têm um número insano de nervuras. Bem, mas para quê? Nada mais entre elas e a árvore, e nós nos dispersamos perturbados. Será que a vida sobre a terra não se poderia prosseguir sem vento? Ou é necessário que tudo trema, sempre, sempre?
Há também remoinhos subterrâneos, e dentro da casa como cóleras que viriam adiante de vós, como seres severos que desejariam arrebatar confissões. Nós não vemos nada, senão que importa pouco ver. Nada, e no entanto nós trememos. Porquê?]

– Henri Michaux, “Plume précédé de lointain intérieur”, 1938.