A música é o mundo (mesmo com Piano e Oficleide no submundo)

“Um sentimento de surpresa e de incredulidade diante do milagre que se realizava debaixo de meus olhos. Eu via chegar ao estúdio de gravação indivíduos muito diferentes uns dos outros, carregando seus instrumentos e carregando também seus problemas pessoais, cada um com seu senso de humor, sua doença, seu rádio de pilha para ouvir o futebol. E maravilhado observava que desse contexto de confusão e desordem, desses colegiais rebeldes, à custa de repetidos ensaios, chegava-se a fundir aquela massa heterogénea numa forma única, abstracta mesmo, que é a música. Essa operação de ordenação da desordem provocava em mim uma grande emoção”.

– Federico Fellini

«The instrument’s name comes from the Greek word ophis (ὄφις)”serpent” + kleis (κλείς) “keys”, since it was conceived of as a serpent with keys. Like the serpent, some found it difficult to play, and early twentieth century musicians felt it had a somewhat unpredictable sound, leading to the doggerel:

“The Ophicleide, like mortal sin
Was fostered by the serpent.”»

Source

COPISTA
«- Vamos, experimente você. Tem uma acústica maravilhosa. Era um antigo oratório, sabe? Vê, lá estão as tumbas de 3 papas e 7 bispos. Está cheio de mortos aqui dentro. Em 1781 este oratório foi transformado num autêntico auditório para concertos vocais e instrumentais. Todas as cortes europeias nos invejavam. E sabe por quê? Pela acústica. Ouviu isso? O som é límpido, sem eco. Ideal para ouvir música. Sem reverberação. Por este palco passaram os maiores regentes de orquestra. Era o máximo para eles. E que músicos! E que público havia! Vinham ministros, embaixadores, sacerdotes. Traziam suas partituras para acompanhar a música. E quantas belas senhoras, elegantes, ousadas… Que perfume havia! Era uma outra atmosfera. Hoje o público já não é mais assim. Devo estar-lhe aborrecendo com tanta conversa. Está tudo em seu lugar. É belo, não é verdade? Mas sou apenas o copista, a última roda do carro. (…)

VIOLINO
– Professor, o que diz o barómetro?
– Vejamos o que diz meu fiel amigo. De fato, temos 15% a mais. Nada bom para a saúde do meu violino.
– Professor, e a chuva? (…)
– A neurose é uma chuva. Ainda vai nos estrangular a todos. (…)
– O que é isso, Professor?
– Um ansiolítico. (…) Já provei todos, não servem para nada. Na verdade, agravam. (…)

HARPA
– Que tolos. Cabeças ocas! Tive um sonho que não gostei: um cavalo na minha sala. Não gosto também.
Mas depende da cor do cavalo.
– Que belo modelito!
– Idiotas! (…)

PIANO
– “O piano é como um rei no trono, não se move. (…) Deve-se ir até ele, curvar-se e aproximar-se do banco. É como uma criatura mitológica. (…) Uma sala com piano se torna a sua sala. (…) Não desejo ter um piano. Isto é, tenho um, mas não o quero um só pra mim. Verdade? Porque todos os pianos do mundo são pianos. Tocar só no própio piano é limitado. É como um freio. Um freio? Acredito que para se realizar é necessário conhecer… conhecer mais pessoas, ter mais encontros. (…)

FLAUTA
– Sou de Marina de Pisa, mas estudei flauta na Califórnia. Lá se toca com mais doçura e menos violência que aqui. É um instrumento delicado e discreto. O que mais se aproxima da voz humana. Bem, todos dizem isso. O violoncelo se parece mais. O saxofone se parece mais. Só falta falar do tambor. Sem brincadeira, um bom coro não se compara a um instrumento. Mas insisto, só a flauta é como a voz humana. Que som misterioso. Sobrenatural! E ainda amansa as feras, devo acrescentar. Apolo não despertava os mortos com a flauta? É um instrumento de sortilégio solar e lunar. À noite e de dia. Os flautistas são todos doidos, não dizem os médicos? Sim, é verdade. Dizem isso. Pode ser que de tanto soprar e soprar o vento afecte a cabeça dos flautistas. Todos esperam que façamos algo estranho. Não imagino porquê.

TROMBONE
– O trombone é um instrumento único. Sua voz grave parece agonizar com doçura. Mas pode ser muito cómico. Lembra os palhaços de circo quando espirram água pelo nariz. E é também o instrumento dos anjos. Verdade. Nos quadros renascentistas os anjos não tocam trombone? E daí? O Pai só nos recebe ao som do trombone? Para mim a voz do trombone é a de uma criatura solitária. Gosto de ouvi-lo na praia no inverno, quando não há ninguém. (…)
– Olhava aquela teia de aranha ali em cima. Tem uns 5 ou 6 metros, não? Com o vento dos trombones ela se mexia de lá p’ra cá. (…) Não é belo estarmos aqui para fazer uma aranha dançar? (…)

– É verdade que há simpatias e antipatias entre os instrumentos?
– Simpatias e antipatias são fortes entre os instrumentos. Ele e eu, por ex., seguimos o contrabaixo. Porque ele marca o tempo com decisão, precisão, método. Em vez de exibir-se com trinados e arpejos. O piano, por ex., é um tagarela. Os violinos, quando fazem…

PERCUSSÃO
– Em nosso país, Itália, não se sente muito ritmo. Apreciamos mais o canto. Só os napolitanos sentem o ritmo. Por isso os napolitanos são os melhores bateristas. A tarantella onde nasceu? Em Nápoles, não? É comum dizer que são também os mais simpáticos, os mais divertidos.
– Os mais amigos.
– É verdade o que diz Claudio porque o ar de autosuficiência, o tom de condescendência, a deferência como um violinista, um flautista se sentam numa orquestra não se vê mais. Se entra alguém numa orquestra aonde ele começa? Nos pratos, tambores. Porque dão sentido de alegria, bem-estar. Quando o maestro está nervoso, uns quatro golpes de baqueta lhe dão harmonia. Até o oboísta fica de bom humor. (…)

VIOLONCELO, VIOLINOS E CONTRA-FAGOTE
– O violoncelo é um dos instrumentos essenciais de uma orquestra. Pode-se dizer que violinos e violoncelos são a base da construção de qualquer concerto sinfônico. Em suma, nada os substitui. Não é?
– Sim.

– Direi eu o que é um violino. O 1º violino é o cérebro, o coração da orquestra.
– E o clarinete é o pinto!

– Escutem, diria que o violoncelo se assemelha em tudo ao amigo ideal. Sim, o amigo de verdade. Discreto, fiel. Coisa que não é o violino. O violino pode seduzir, fascinar, mas o engana. É feminino.
– Mas quanta bobagem.
– A colega ali não concorda.
– Não concorda?
– Não, não estou de acordo.
– E porquê?
– Porque o violino é para nós o mais viril de toda a orquestra.
– Não, o violino é feminino. Não tentam sempre seduzir, como fazem as fêmeas?
– Entrando no jogo, digo que o violino é totalmente masculino. É penetrante, fálico.
– Concordo com a gentil colega. O violino não tem nada de feminino. Não é nem um instrumento lânguido e insípido. O violino é vibrante, moderníssimo. Por isso nos conservatórios são os que os mais jovens querem…

– Já o violoncelo, é um melancólico.

– O 1º violino é a estrela da orquestra. Não, digo que o 1º violino é a estrela da orquestra. Quando desgraçadamente um maestro ralenta o tempo, não dá as entradas, carece de autoridade, nós somos os primeiros a notar. Assim que ele sobe no pódio e levanta a batuta, é o 1º violino que controla a situação, guiando a orquestra e substituindo efectivamente o condutor.
– E a quem cumprimenta o maestro ao fim do concerto, quando aplaudem? Ao 1º violino. Sabem o que eu disse uma vez a um famoso maestro? “O Sr. prendeu o compasso. O Sr. é um chefe de banda. Eis o que é: um chefe de banda!”

– E o que isso tem a ver com o que dizíamos? Desculpe.

– Voltando ao violoncelo, digo só isto: é um instrumento que não te trairá jamais. Uma vez escolhido, permanece para sempre seu companheiro. (…)

– O contra-fagote é do circo!

– Quero dizer só uma coisa: devo tudo ao violino. Me permitiu dançar na vida antes dos outros.
– É verdade.
– Em que sentido?
– Me ajudou a compor minhas dissonâncias. (…)

CLARINETE
– O clarinete me fez sair da neblina da minha terra. Um povoado da Baixa Padana, Gazoldo. Do final de Agosto a Abril do ano seguinte não é visto. Desaparece. Desaparece o campanário, desaparece a escola…
– O que tem isso?
– Eu explico. Tocando clarinete comecei a viajar pelo mundo e cheguei até o grande Toscanini, que me disse: “Bravo jovem. Finalmente ouço um belo som de clarinete”. Palavras textuais dele, uma a uma. “Bravo jovem. Finalmente ouço um belo som de clarinete.”
– E você, o que disse?
– O que poderia dizer diante de um Toscanini que lhe diz: “Bravo jovem. Finalmente ouço um belo som de clarinete.”
– Não ouvi bem. O que ele lhe disse?
– Não ouviu? Me disse: “Bravo, jovem. Finalmente ouço um belo som de clarinete.”
– Mas quem tocava o clarinete?
– Eu.

TROMPETE
– É um instrumento apaixonante, formidável. Suas possibilidades instrumentais são milagrosas. Com o trompete pode-se fazer as mais difíceis acrobacias musicais. O extraordinário é que esse instrumento expressa o que você sente. Melhor e mais forte. A alegria, a tristeza, o silêncio. (…) O trompete é um passaporte para outra dimensão. Quem toca trompete sabe o que digo. É uma dimensão de plenitude, onde tudo é mais intenso, mais exaltado. Somos muitos a tocar trompete.
– Mazzieri, diga que trompetistas devem estudar muito.
– Fale mais alto. O que disse?
– Temos os lábios rachados por isso!
– O colega diz a verdade. Humedecemos os lábios horas a fio para a embocadura antes de tocar. Os enganos tolerados aos outros instrumentos não se permite ao trompete.
– Os arcos devem ser igualmente precisos! Cale-se!
– Um erro com o trompete é o fim do mundo! Fiquei doente, não durmo e me sobe a pressão. Virei sonâmbulo. Uma vez me acordaram de pijamas, ao lado da casa, tocando trompete. Vivo sempre com essa angústia de errar. (…)

MAESTRO
– Isso é terrível. Por favor, não tenho tempo! Apague essa luz. Sei que têm permissão para filmar, mas sou contra. (…) Mas por que lhes interessa tanto um ensaio de música? Isto é um local de trabalho, ou deveria ser. Podemos fazer qualquer coisa. O que podemos fazer agora? Tentamos construir uma coisa. O que é e para que serve, jamais entendi. Me desculpem. Devo prosseguir. Conversaremos depois que terminar. Apague essa luz, por favor. Arcos! Só os arcos, por favor. Por favor! Violinos, o que há? Brigaram? Cada um toca como quer, por conta própria? Não estão filiados ao mesmo partido?
– Não!
– Por que responde?
– Atenção, por favor. Basta. Basta! Toquem com classe. Não estamos no Luna Park. Sentimento, mas com elegância. Estão tocando violinos, não trompetes! Flauta, é um mi bemol, não mi natural.
– Aqui está escrito “mi natural”.
– É um “mi bemol”. Olhe bem.
– Não maestro, é mesmo “mi natural”.
– Então corrija. Sempre erro do copista. Estranho, não? (…) Aonde pensam que estamos? Talvez num campo de futebol? Me tomam por árbitro? Muito forte! Muito penetrante! Deveriam ser castrados, todos!
– Ele tem razão. Os metais estavam fortes.
– Ele é um fenómeno! (…)
– Parem!
– Estão com medo dos arcos ou com pressão muito baixa? Do início. Parem! Oboé, muito alto! Deixe os outros tocarem. Do início! Parem! O senhor faz cócegas nas cordas. Deve cortá-las com o arco. Serrá-las! Uma pergunta a todos. Sabem o que fazer aqui? Falo com músicos, não? Quero ouvir um som compacto! Do início! Prossigam, prossigam assim! Em frente! Não ouço! Mais forte, baixos! Não atrasem! Vamos! Vamos! Isso, continuem! Vamos! Vamos! 4, 5, 6. Parem! (…) Clarinete de Toscanini. Pode fazer a gentileza de repetir sozinho os 4 compassos depois do 82?
– Não, maestro! Toquei uma vez, uma 2a. A 3a, por acordo sindical, não se toca.
– O colega tem razão. Tocamos todos juntos. Ou todos ou nenhum. O que é isto, uma escola? Já somos grandinhos.
– Em seus lugares pensaria menos no sindicato e mais na música. E aindo insisto. Se Wagner tivesse conhecido os sindicatos e suas greves, jamais teria escrito sua obra.
– Mas não é culpa do sindicato se ele não consegue compor.
– Me falta paz, tranquilidade e silêncio. Esta vida é uma merda.
– Essa merda se passa na batuta e depois se dá uma bela lambida… (…)

TROMPA
– Onde está a trompa?
– Não veio.
– Como assim? Não veio?
– A trompa não pôde vir, maestro.
– Por que só agora soube que a tompa não está?
– Me corrijo. Não é que não pôde vir. Não quis vir.
– Em sinal de protesto, maestro. De acordo com o sindicato… (…)

MAESTRO
– Mas, pelo diabo! O que querem de mim? Querem me deixar louco? Que querem? Querem o meu cú? Pois aqui o têm! (…)

INTERVALO
– O maestro? É muito bom.
– Um pouco histérico, mas dentro do limite.
– Não precisamos de maestro. Basta um bom metrónomo e…
– O público devia escutar a música no meio da orquestra. Seria diferente, assim como uma batalha no cinema ou uma guerra de verdade.
– Altivo, atormentado, autoritário. Cheio de magnetismo, eis o perfil de um grande maestro.
– Há o tipo místico, o sacerdotal, o acrobático. E há o que gosta de bancar o domador de leões. (…)
– Diante de uma câmara de TV agimos como idiotas…
– Gosto que o maestro me olhe. Se não fico com ciúme. (…)

OFICLEIDE
– Eu? Queria conhecer o mundo com este instrumento. Mas estou sempre aqui.
– Vamos ouvir o Caravaggio.
– Não suporto mais esta coisa ridícula. Me faz sentir inútil. Uma orquestra passa muito bem sem ele. Para que serve? É até perigoso, uma verdadeira calamidade! Esforça-se para obter um som suave, mas sai um barulho enorme. Acho que é o símbolo da estupidez, da obstrução mental. (…)

– Só digo isto. Toda essa conversa sobre sindicato, chefe de orquestra, política, metais, arcos, maestro aqui, maestro acolá, a mim não importa nada. É isso. Porque… o meu passarinho não se levanta mais! (…)

ARCOS
– Todos temos vícios. Melhor beber um pouco do que molestar garotinhas. (…)

TUBA
– Não fui eu que escolhi a tuba. Foi ela que me escolheu. Queria tocar trompete. Ele sempre me arrepia. Lembra-se no exército do toque de silêncio? (…) Sou muito sensível. A arte me faz chorar. E digo mais. Às vezes gostaria de morrer. (…) Porque o mundo ficou feio, cruel. Gostaria de me juntar ao meu pai. É assim. Agora falemos do meu instrumento. O fato de ninguém o querer me comoveu. Pobre tuba, estava ali sozinha. Como um cão vadio. Se parecia comigo. Triste, solitária como eu. Desajeitada como eu. Pensei: “Temos que ficar juntos”. E assim fiz. E fiz bem. Foi o destino. Agora não posso largá-la mais. Somos mesmo amigos. Nos momentos de melancolia vamos à janela ela e eu, olhamos para a lua e executamos um solo de Verdi. Gostaria de ouvi-lo? Mesmo?
– Sim, um trechinho. Sim.

– Sabe porque nenhum sente como o outro? O som é algo subjectivo. Por exemplo, um “si bemol” tocado por qualquer instrumento. Há quem desmaie de ternura, não? Como as mulheres. O mundo é belo porque é variado.
– Pode até ser.

OBOÉ
– Que magnífico instrumento, o oboé! É o mais antigo de todos, sabe? Foi inventado pelos chineses. É o mais difícil, o mais delicado e o mais solitário. Nós oboístas somos isolados, invejados, mal-vistos. É que a orquestra deve prestar contas ao oboé. É o oboé que dita a lei. É ele que estabelece o diapasão entre o tom mais alto e o mais baixo. É por este privilégio que o violino odeia o oboé. E, naturalmente, o oboé odeia o violino. É um instrumento de elevação espiritual. Desenvolve em quem o toca poderes especiais. A visão interior que permite perceber cor no som. Eu toco e vejo uma atmosfera dourada, luminosa, da cor do sol. Como um grande reflexo.
– É verdade, sabe? Também vi…
– Uma faixa de beatitude. Como um rastro. Olhe, minhas mãos tremem. Uma experiência sobrenatural. (…)

COPISTA
– Com o condutor instável que já tivemos não brincavam tanto os professores. Todos usavam gravata.
Ái daquele que viesse sem ela. Agora, falta pouco para fazerem as unhas enquanto tocam. Tínhamos uma regra. Quem destoava ou não entrava no momento certo devia tocar de pé até o final do concerto! Havia castigo. O quê? Turnos, horários? Trabalhavam a noite toda, se necessário. Sabe quantas madrugadas vi chegar? E os músicos, exaustos, não aplaudiam o condutor e o felicitavam? Ele era um fenómeno. Regia sempre de olhos fechados. Parecia em transe, mas via tudo. Como fazia? E quando queria repreender um músico que errava, encontrava palavras que lhe tiravam a pele! O fazia ficar mal por um mês! E a batuta? Cada golpe nas mãos e nos dedos dos músicos que erravam! Era um assobio só! E eles, quer saber? Ficavam contentes por aqueles golpes nas mãos. Vinham todos para a frente, como estudantes! Ofereciam suas mãos e diziam: “Errei”, “Também errei”… Outros tempos! (…)

MAESTRO
– Que querem saber? Se a música faz parte do mundo? Lhe pergunto: existe música? Não? Então o mundo não existe. Só restaram os hábitos. Que sentido tem a música actualmente? Acredita que as pessoas que vêm aqui sabem o que é música? Acham-se mais inteligentes porque sentir uma emoção na barriga os faz importantes? Com Beethoven todos são cavaleiros, cavalgando contra o inimigo. Não vejo como se levantam de suas selas e saem a correr? Quando estou regendo me sinto ridículo. Como morto. Me sinto um fantasma. Não queria dizer isto. Cancele tudo, totalmente. Hoje nada se perdoa, deve ser-se sempre optimista, sempre inteligente. Então digamos assim: “A música é o mundo”. E quando conduzo me sinto o dono do mundo, me sinto como um rei. Não. Querem saber mesmo como me sinto? Como um sargento que sempre tem que chutar todos no traseiro. Mas, com essas leis absurdas, é proibido bancar o sargento. Certamente tiramos vantagem da nossa posição privilegiada. Espere. Quero beber um pouco. Nem está gelada. Está quente. Nem tem gelo. A genialidade está sempre nos limites dos caprichos e das excentricidades. Por ex., uma vez pedi a um músico para tirar o anel porque o brilho da pedra me incomodava. E isto pareceu um capricho, mania de diva. Talvez. Mas esta amplificação, este carácter exaltado do artista, é vital ao cargo de quem a todos arrasta e domina, e assim se exprime pleno de sintonia. Saúde! Mas hoje este fluido insubstituível de um maestro é contestado. Os músicos. Já não os olho, não os vejo. Confesso que às vezes acho seus rostos insuportáveis. Gostaria de colocar um biombo na frente de alguns deles. Parecem cães ferozes. Me fitam com os olhos. Melhor cancelar isso. Ou atiram nas minhas pernas. O tempo de grandeza acabou. Caput. Lembro que a 1a vez que subi no pódio minha maior impressão foi o silêncio enorme diante de mim. Fiz sinal para começar e vi, com grande emoção, que minha batuta de regente se unia ao som da orquestra. Sua voz nascia da minha mão e fazia a orquestra sair do silêncio depois a ele retornar. E essa voz saía como onda do mar quando levantava meu braço, que se movia no ar como as asas de um pássaro. E quando o abaixava a voz da harmonia se afastava, até o silêncio. Agora somos todos iguais. E devo assemelhar-me ao 1o violino, com dedos de açougueiro. O que fazer? Afogo minha raiva e compro casas. Tenho duas na América, uma em Tóquio, uma em Londres e outra em Berlim. Em Paris nenhuma casa. Nunca quis uma lá porque discordo da música francesa. Creio que por isso na alfândega em Orly sempre precisam me revistar da cabeça aos pés. Já têm agora sua entrevista? Basta? Pardon. Vocês dizem “condutor de orquestra”. Essa palavra já não tem sentido algum. Um condutor de orquestra é como um padre. Precisa ter uma igreja com crentes, fiéis. Mas quando a igreja desaba e os fiéis viram ateus… Lembro-me de Koplenski, meu grande mestre. À época eu era o 1o violino. Quando ele chegava ao pódio, fazia-se silêncio. Ele só dava uma olhada, parecia ausente, mas sabíamos que conhecia cada linha da partitura. Ele era a música em pessoa. E o seguíamos felizes, trémulos, para cumprir o rito de transubstanciação. Para transformar vinho em sangue e pão em carne. Ri de mim? Espero que não. A música é sempre sagrada. Cada concerto é uma missa. Ficávamos ali, encantados. Todas as preocupações esquecidas. No 1o movimento da batuta, éramos uma coisa só: um só respiro, nós e os instrumentos, unidos numa única força vital. Então ele dava o sinal. Nada era mais belo do que sua autoridade. Tremíamos apenas com a ideia de algum erro que pudesse arruinar a competência do ritual. Uma grande emoção e também uma imensa felicidade. Sentíamos que nossa alegria se transmitia ao público, que não se movia, imóvel, sem respirar. Jamais olhávamos para o condutor de orquestra. Não era necessário. Ele estava ali. Sabíamos isto, sentíamos isto. Ele estava dentro de nós. Tanto amor havia entre nós e o condutor. Um amor, como vêem, que agora está perdido. Eu e meus músicos temos só desconfiança entre nós. Um contra o outro, a dúvida que arruína a confiança. E há também a falta de estima,
o desprezo, o rancor e a raiva pelo que se perdeu e que não será encontrado mais. E assim tocamos nós, juntos. Unidos somente por um ódio comum. Como uma família destruída.
– Maestro, não sei o que houve, mas estamos sem luz.
– Isso já percebi.
– E o que faremos?
– Como o que faremos? O intervalo terminou. O ensaio continuará.
– Mas…
– Vamos, ande! Ilumine meu caminho.

REVOLUÇÃO

– “Maestro, maestro, não o queremos mais! Doravante quem nos dirige não será nenhum!” (…)
– Tome! E agora no outro olho!
– Rapazes, o que fazem? Escutem!
– Não queremos mais maestro! Está proibido de reger!
– Fomos uns idiotas por estudar tanto! Por passar a vida toda no conservatório!
– Eles têm razão. Não se precisa de maestro, de música, de nada! Despachemos tudo e metamos uma argola no nariz, como selvagens!
– A música deve ser um bem público que todos podem usufruir sem distinção de classe! Mas a usam para nos explorar e imbecilizar o povo…
– Maestro, como isso aconteceu?
– “Maestro, maestro, não o queremos mais! Doravante quem nos dirige não será nenhum!” (…)
– Não ao poder! Não ao poder da música!
– A música é uma corrente de exploração! Tem que acabar! (…)
– Abaixo a batuta! Fora maestro! Queremos nossa música já! (…)
– Seu tempo já passou! Maestro, você se ferrou!

HARPA
– Sangue! Desgraçados, loucos! (…) Posso fazer a entrevista dali?
– A primeira vez que vi uma harpa foi num sonho. Tinha 4 ou 5 anos, talvez menos. E não sabia o que era aquela gaiola dourada pequena. Ainda sangro… Um dia vi num livro Nero com Roma ardendo e em suas mãos um instrumento parecido com o do sonho. Outra vez, num calendário, havia um anjo que voava, tocando harpa. Como a do meu sonho. A harpa é uma presença humana. Não poderia viver num apartamento onde não houvesse uma harpa. Não conseguiria dormir se na escuridão da sala ela não estivesse. Às vezes tenho a sensação de que ela toca sozinha. A ouço tocar. Talvez seja o vento. A harpa tem sido toda a minha vida. Não só o que me sustenta, mas como se diz, o meu refúgio. Minha amiga. Sempre vivi sozinha. Nunca tive homens. Ninguém, só a harpa. Conto-lhe coisas e lhe falo. E ela me comunica não só emoções e fantasias. Um sentimento de felicidade e tristeza ao mesmo tempo. Mas o mais importante é que ela me dá fé. Se toca harpa sente, sabe, que existem outras dimensões. Uma vez uma criança me perguntou: “Para onde vai a música quando você não toca?” Só crianças perguntam coisas assim.

REVOLUÇÃO
– “Orquestra, terror! À morte o condutor!”
– “Orquestra, terror! Quem toca é traidor!”
– Lá está! O novo condutor!
– “Seu tempo já passou! Maestro, você se ferrou!”
– Viva o metrónomo!
– “Metrónomo, metrónomo, músicos autónomos!”

– Não ao metrónomo! A música, seu ritmo e sua cadência faremos nós! Nós!
– O tempo acabou! Não tocaremos uma música que está contra nós! Vamos fazê-la, criá-la e conduzi-la!
– É proibido conduzir! Morte ao metrónomo!
– O que fez, sua imbecil?
– Não!
– Está louco?
– Louco! Me dê a arma.
– Não me machuque.
– Me dê a arma. Me dê!
– Está me machucando!
– Tenho licença. Tenho! Veja na minha carteira.
– Veja.
– Verei se tem.
– Tenho porte de arma.
– Ele tem mesmo.
– Um porte de arma regular.
– Viu? Tenho porte de arma.
– Levante-se, vamos.
– Uma Smith & Wesson.

– Olhem! Lá em cima! Lá em cima! Olhem!
– Mario, veja, está caindo! Tudo! Está caindo! Está caindo!

– Socorro! Socorro! Me ajudem!
– Clara! Clara! Clara! Mas porquê?

MAESTRO
– Vocês estão aqui e eu estou aqui. Cada um deve cuidar do seu instrumento. É só o que podemos fazer agora. Alguém pode me ajudar, por favor? As notas nos salvam. A música nos salva. Agarrem-se às notas.
Sigam as notas. Uma após a outra. Como minhas mãos possam lhes indicar. Somos músicos. Vocês são músicos. E estamos aqui para ensaiar. Nada de medo. O ensaio continua. Aos seus lugares, senhores. Aos seus lugares, por favor. Obrigado. Devemos dar ao som um pouco menos de cor. Sabemos que barulho não é música. Não é um eléctrico na curva. Ouvi panelas e apitos? Aonde estamos? Num campo de futebol? Crêem que sou um árbitro? E os metais, o que fazem? O que há com seus pequenos pulmões? Onde estão seus fôlegos? Tudo perdido em conversas estúpidas? Soprem com força! Com brio! Esses trompetes precisam acordar os mortos! Assim vamos adormecer todos! São músicos ou não? Quero um som da cor do fogo! Senhores, do início!»

– “Prova d’ Orchestra” (English tagline: The Decline of the West in C# Major), Federico Fellini, 1978.

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