Necessidade e cobiça: 2… 1… 0!

«No fim da carta de que V. Majestade me fez mercê, me manda V. Majestade que diga meu parecer sobre a conveniência de haver neste estado ou dois capitães-mores ou um só governador. Eu, Senhor, razões políticas nunca as soube, e hoje as sei muito menos; mas por obedecer direi toscamente o que me parece.

Digo que menos mal será um ladrão que dois; e que mais dificultosos serão de achar dois homens de bem que um.

Sendo propostos a Catão dois cidadãos romanos para o provimento de duas praças, respondeu que ambos lhe descontentavam: um porque nada tinha, outro porque nada lhe bastava. Tais são os dois capitães-mores em que se repartiu este governo: [um] não tem nada, [outro] não lhe basta nada; e eu não sei qual é maior tentação, se a necessidade, se a cobiça. (…)

Assim que, Senhor, consciência e mais consciência é o principal e único talento que se há-de buscar nos que vierem governar este Estado. Se houvesse dois homens de consciência, e outros que lhes sucedessem, não haveria inconvenientes em estar o governo dividido. Mas, se não houver mais que um, venha um que governe tudo e trate do serviço de Deus e de V. Majestade; e se não houver nenhum, como até agora parece que não houve, não venha nenhum, que melhor se governará o Estado sem êle que com êle.»

– António Vieira, carta a D. João IV, 4 de Abril de 1654, Maranhão (Brasil).

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