Casa de bonecas (e de bonecos)

«Todos somos mulheres, não há homens neste mundo»

– Swami Vivekananda

«HELMER (recuando) Então é verdade?! Esta carta diz a verdade?! Que horror! Não, não, é impossível, não pode ser!
NORA É verdade. O meu amor foi superior a tudo!
HELMER Ora, não me venha com essas desculpas esfarrapadas!
NORA (dando um passo para ele) Torvald!
HELMER Infeliz! O que você ousou fazer?
NORA Deixe-me ir embora. Você não terá de suportar o peso da minha falta, não será responsável…
HELMER Basta de melodrama! (Fecha a porta da saleta) Fique aqui e se explique. Você se dá conta do que fez? Responda! Yocê percebe?
NORA(fixa-o com uma expressão enrijecida) Sim, agora começo a compreender a realidade.
HELMER (caminhando, agitado, pela sala) Ah, que terrível despertar! Oito anos! … Durante oito anos você foi a minha alegria e o meu orgulho … e agora vejo que é uma hipócrita, uma impostora … pior ainda, uma criminosa! Que abismo de torpezas! Ah, que horror!
NORA (muda, continua a olhá-Io fixamente)
HELMER (parando em frente a ela) Eu devia ter sabido que uma coisa dessas iria acontecer. Devia tê-Io previsto. Com os princípios levianos de seu pai … princípios que você
herdou! Ausência de religião, ausência de moral, absoluta ausência do senso de dever… Ah, como estou sendo castigado por encobrir o procedimento dele … Foi por você que o fiz, e é essa a minha recompensa.
NORA Pois é.
HELMER Agora você destruiu a minha felicidade, aniquilou o meu futuro. Não posso pensar nisso sem estremecer. Eis-me nas mãos de um homem sem escrúpulos: pode fazer de mim o que quiser, mandar, ordenar à sua vontade, que eu não me atreverei a balbuciar uma palavra sequer. E assim me vejo reduzido a nada, rebaixado pela inconseqüência de uma mulher.
NORA Quando eu deixar este mundo você ficará livre.
HELMER Ah, nada de grandes frases! Seu pai também tinha uma grande provisão delas. De que me serviria isso? Sim, de que me serviria a sua partida deste mundo, como diz? De nada. Ele poderia divulgar o caso da mesma forma, e sendo assim, talvez chegasse a julgar-me cúmplice da sua ação criminosa. Até poderiam crer que fui eu o instigador, que eu é que a levei a isso. E tudo isso eu devo a você – a quem, no entanto, só ofereci carinho, durante toda a nossa vida em comum. Agora você compreende o que fez comigo?
NORA (serena e fria) Compreendo.
HELMER Isso é tão inacreditável que ainda não consigo entender direito. No entanto, é preciso tentar corrigir. Tire esse xale, tire-o, já disse. Tenho de contentá-Io de alguma forma.
O principal é abafar o caso, de qualquer forma. E, no que diz respeito à nossa vida íntima, tem que parecer como se nada tivesse mudado entre nós. Só aos olhos do mundo, é claro. Você continuará aqui na minha casa – não preciso dizê-Io – mas eu não lhe permitirei educar as crianças… não me aventuro a confiá-Ias a você. Ah, ter de falar assim àquela que tanto amei e que ainda … Mas isso acabou. De agora em diante não se trata de salvar a felicidade, mas o que sobrou dela … destroços … aparências … (…)

Tocam à porta de entrada (…)

A CRlADA (de camisola, na saleta) Uma carta para a senhora.
HELMER Dê-me. (Agarra a carta e fecha a porta) Logo vi que era dele. Vou lê-Ia eu mesmo.
NORA. Leia.
HELMER (à luz da lamparina) Falta-me coragem. Ela pode significar a nossa ruína … Não; preciso certificar-me. (Abre rapidamente a carta, percorre algumas linhas, examina o papel anexo e solta um grito de alegria) Nora!
NORA (interroga-o com o olhar)
HELMER Nora! … Espere, deixe-me ler outra vez! É isso… Estou salvo, Nora! Estou salvo!
NORA E eu?
HELMER Você também, é claro. Ambos estamos salvos. Olhe. Ele lhe devolveu a nota promissória. Diz que lastima, que se arrepende, que um feliz acontecimento lhe transformou a existência. Ah! pouco me importa o que ele diz. Estamos salvos, Nora! Já ninguém nos pode prejudicar. Ah! Nora, Nora … mas primeiro destruam-se essas coisas repugnantes. Deixe-me ver … (Lança um rápido olhar à nota promissória) Não, nada quero ver; foi um mau sonho que tive; acabou-se. (Rasga as duas cartas e a nota promissória, lança tudo na estufa e contempla os papéis a arderem) Pronto! tudo desapareceu. Ele dizia na carta que desde a véspera do Natal, você … Ah, três dias! O que você deve ter passado, Nora!
NORA Durante esses três dias eu vivi um conflito terrível.
HELMER Chegou a se desesperar; não via outra solução a não ser a… Não, não, não vamos recordar essas coisas odiosas. Agora podemos gritar de alegria e repitamos: acabou-se, acabou-se! Mas escute, Nora, parece, que você não compreende: acabou-se! O que significa essa rigidez? Ah, minha pobre Nora, compreendo … Você pensa que eu não lhe perdoei tudo. Bem sei que o que você fez foi por amor a mim.
NORA É verdade.
HELMER Você me amou como uma mulher deve amar o marido. Somente os meios você não conseguiu julgar direito. Mas pensa que o fato de você não saber agir por conta própria me faz querê-Ia menos? Não, não, confie em mim: eu a orientarei, serei seu guia. Deixaria de ser homem se essa sua falta de capacidade feminina não a tomasse duplamente sedutora aos meus olhos. Esqueça as palavras rudes que pronunciei nos primeiros momentos de temor, quando acreditei que tudo ia desmoronar sobre mim. Eu a perdoei, Nora; juro que a perdoei.
NORA Obrigada pelo perdão. (Sai pela porta da direita)
HELMER Não vá embora … (Segue-a com a vista) Por que você está indo para o quarto?
NORA(do quarto) Para tirar a fantasia.
HELMER(junto da porta, que ficou aberta) Bem, tire-a, tente se acalmar, refazer-se dessa inquietação, minha avezinha amedrontada. Descanse tranqüila, tenho amplas asas para protegê-la. (Andando de um lado para o outro, sem se afastar da porta) -Ah, como o nosso lar é tranqüilo e encantador, Nora! Aqui você está segura! Eu a guardarei como a uma pomba que foi acolhida depois de ser retirada sã e salva das garras do abutre. Saberei aquietar o seu pobre coração palpitante. Conseguirei isso pouco a pouco, acredite, Nora. Amanhã você verá as coisas sob outro aspecto. Tudo voltará a ser como antes. Não precisarei dizer-lhe continuamente que a perdoei. Você sentirá isso em seu coração. Como pode supor que seria capaz de rejeitá-la, ou mesmo de a censurar? Ah, você não sabe o que é um verdadeiro coração de homem, Nora. Para o homem é algo indescritivelmente doce e prazeroso saber que no íntimo perdoou a mulher – perdoou-a completamente, de todo o coração. É como se ele tivesse criado o seu duplo; como se a tivesse dado à luz. Em certo sentido ela se torna igualmente mulher e filha. Assim a considerarei no futuro, pobre criaturinha assustada e desamparada. Não se inquiete, Nora; seja apenas franca comigo e eu serei a sua vontade e a sua consciência. – O que significa isso? Você não se deitou? Tomou a se vestir?
NORA (que acaba de envergar seu traje habitual) É verdade, Torvald, tomei a me vestir.
HELMER A esta hora … para quê?
NORA Esta noite não pretendo dormir.
HELMER Mas, minha querida Nora …
NORA (consultando o relógio) Ainda não é muito tarde. Sente-se, Torvald. Temos muito que dizer. (Ela senta-se no outro lado da mesa)
HELMER Nora, o que é isso? Essa expressão rígida em seu rosto … ?
NORA Sente-se, vai ser demorado. Tenho muito a dizer…
HELMER (sentando-se em frente a ela) Você está me inquietando, Nora… Não a compreendo.
NORA Sim, é isso mesmo: você não me compreende. Também eu … nunca o compreendi … até hoje à noite … ; não me interrompa. Ouça o que lhe digo. Precisamos acertar as contas, Torvald.
HELMER O que você quer dizer com isso?
NORA (após um instante de silêncio) Não chama a sua atenção o fato inusitado de estarmos sentados aqui face a face?
HELMER O quê?
NORA Há oito anos que somos casados. Reflita um momento: não é esta a primeira vez que nós dois, tal como somos, marido e mulher, conversamos a sério um com o outro?
HELMER A sério … o que você quer dizer com isso?
NORA Oito anos se passaram até mais, se contarmos desde o nosso primeiro encontro sem que nunca trocássemos uma palavra séria sobre um assunto sério.
HELMER Você acha que eu deveria envolvê-la sempre nas minhas preocupações em relação às quais você nada poderia fazer?
NORA Não me refiro a preocupações. Quero dizer que nunca nos sentamos para tentar sermos sérios e nos aprofundar sobre o que quer que fosse.
HELMER Mas, minha querida Nora; o que isso lhe traria de bom?
NORA É esse o ponto. Você nunca me compreendeu. Tenho sido tratada muito injustamente, Torvald; primeiro por papai, e depois por você.
HELMER O quê? Por nós dois? Mas quem é que a amou tanto como nós?
NORA (meneando a cabeça) Vocês jamais me amaram, apenas lhes era divertido se encantar comigo.
HELMER Nora, o que você está dizendo?
NORA É assim mesmo, Torvald; quando eu estava em casa, papai me expunha as suas idéias, e eu as partilhava. Se acaso pensava diferente, não o dizia, pois ele não teria gostado disso. Chamava-me sua bonequinha e brincava comigo, como eu com as minhas bonecas. Depois vim morar na sua casa.
HELMER Você emprega umas expressões singulares para falar do nosso casamento.
NORA (imperturbável) Quero dizer que das mãos de papai passei para as suas. Você arranjou tudo ao seu gosto, gosto que eu partilhava, ou fingia partilhar, não sei ao certo; talvez ambas as coisas, ora uma, ora outra. Olhando para trás, agora, parece-me que vivi aqui como vive a gente pobre, que mal consegue ganhar o seu sustento. Vivi das gracinhas que fazia para você, Torvald; mas era o que lhe convinha. Você e papai cometeram um grande crime contra mim. Se eu de nada sirvo, a culpa é de vocês.
HELMER Como você é injusta, Nora, e ingrata! Não foi feliz aqui?
NORA Nunca. Julguei que sim, mas nunca fui.
HELMER Não foi … nunca foi feliz?!
NORA Nunca; era alegre, nada mais. Você era tão amável comigo! Mas a nossa casa nunca passou de um quarto de brinquedos. Fui sua boneca-esposa, como fora boneca-filha na casa de meu pai. E os nossos filhos, por sua vez, têm sido as minhas bonecas. Eu achava engraçado quando você me levantava e brincava comigo, como eles acham engraçado que eu os levante e brinque com eles. Eis o que foi o nosso casamento, Torvald.
HELMER Descontando o exagero, há alguma verdade no que você diz. Mas para o futuro tudo mudará. O tempo de recreio passou, agora chegou o da educação.
NORA A educação de quem, a minha ou a das crianças?
HELMER Uma e outra, querida Nora.
NORA Ah, Torvald, não, você não é o homem indicado para me ensinar a ser uma verdadeira esposa.
HELMER E é você quem diz isso?
NORA E eu … de que maneira estaria preparada para educar meus filhos?
HELMER Nora!
NORA Não é o que você dizia ainda há pouco … que essa tarefa você não ousaria me confiar?
HELMER Disse num momento de irritação. Você não deve dar atenção a isso.
NORA Ah, mas você estava absolutamente certo. É uma tarefa superior às minhas forças. Primeiro quero cumprir uma outra. Devo tentar educar a mim mesma. E você não é o homem indicado para me ajudar nessa tarefa. É algo que eu devo empreender sozinha. E para isso eu vou deixá-Io.
HELMER (erguendo-se de um pulo) O que você está dizendo?
NORA Preciso estar só, para avaliar a mim mesma e a tudo quanto me rodeia. Por isso não posso continuar a viver com você.
HELMER Nora! Nora!
NORA Quero me retirar. Esta noite ficarei na casa de Kristina.
HELMER Você está delirando. Não posso deixar. Eu lhe proibo.
NORA De agora em diante você não pode me proibir nada. Levo tudo que me pertence. De você nada quero, nem agora, nem nunca.
HELMER Mas que loucura é essa?
NORA Amanhã parto para casa … Quero dizer, para o lugar onde nasci … Lá encontrarei mais facilmente algum trabalho.
HELMER Oh, criatura cega e inexperiente!
NORA Tenho que fazer o possível para adquirir experiência, Torvald.
HELMER Abandonar o seu lar, seu marido, seus filhos! Você não pensa no que dirão as pessoas?
NORA Não posso pensar nisso. Sei unicamente que para mim isso é indispensável.
HELMER Ah! É revoltante! Você seria capaz de negar a tal ponto seus deveres mais sagrados?
NORA E quais são meus deveres mais sagrados, no seu parecer?
HELMER E sou eu quem precisa dizer isso? Não serão os que você tem para com seu marido e seus filhos?
NORA Tenho outros tão sagrados como esses.
HELMER Não tem. Quais poderiam ser?
NORA Meus deveres para comigo mesma.
HELMER Antes de mais nada, você é esposa e mãe.
NORA Já não creio nisso. Creio que antes de mais nada sou um ser humano, tanto quanto você … ou pelo menos, devo tentar vir a sê-Io. Sei que a maioria lhe dará razão, Torvald, e que essas idéias também estão impressas nos livros. Eu porém já não posso pensar pelo que diz a maioria nem pelo que se imprime nos livros. Preciso refletir sobre as coisas por mim mesma e tentar compreendê-Ias.
HELMER É seu dever compreender em primeiro lugar o papel que você tem nesta casa. Você não tem um guia infalível nestas questões? Sua religião?
NORA Ah, Torvald! A religião, nem sei bem ao certo o que ela é.
HELMER O que você está dizendo?
NORA Dela só conheço o que me ensinou o pastor Hansen ao preparar-me para a crisma. A religião é isso, é aquilo… Quando eu deixar tudo isso aqui e me encontrar só, quero pensar também sobre esse assunto. Saberei se o pastor Hansen dizia a verdade, ou, pelo menos, se o que disse é verdadeiro para mim.
HELMER Ah, isso é inaudito, uma jovem mulher como você! Mas se a religião não pode conduzi-Ia ao bom caminho, deixe-me sacudir a sua consciência. Você deve ter algum senso moral. Ou estou errado? Talvez você também não o tenha.
NORA Talvez fosse melhor nem responder, Torvald. Nem saberia fazê-Io. Essas coisas estão confusas na minha cabeça. Só uma coisa sei: é que minhas idéias divergem inteiramente das suas. Também fiquei sabendo que as leis não são o que eu julgava que fossem, mas que essas leis sejam justas é algo de que ninguém me poderá convencer. Então uma mulher não teria o direito de evitar um desgosto a seu velho pai moribundo ou de salvar a vida do marido! Eu não acredito nisso.
HELMER Parece uma criança falando. Você não entende nada da sociedade de que faz parte.
NORA Não, nada entendo. Mas quero chegar a entender e certificar-me de qual de nós tem razão: se a sociedade ou se eu.
HELMER Você está doente, Nora, tem febre: quase me convenço de que perdeu o juízo.
NORA Sinto-me esta noite mais lúcida e mais segura de mim do que nunca.
HELMER E é com essa firmeza e em perfeita lucidez que você abandona seu marido e seus filhos?
NORA Sim.
HELMER Isso só tem uma explicação possível.
NORA Qual?
HELMER Você já não me ama.
NORA Sim. É isso mesmo.
HELMER Nora! … Como você pode dizer isso?
NORA Custa-me muito, Torvald, porque você sempre foi muito bom para mim. Mas nada posso contra isso: já não o amo mais.
HELMER (esforçando-se para manter-se calmo) Disso também você está clara e seguramente convencida?
NORA Sim, é absolutamente claro e certo. E é por essa razão que não quero permanecer mais tempo aqui.
HELMER E você pode me explicar como perdi o seu amor?
NORA Sem dúvida! Foi esta noite, quando não vi realizar-se o milagre esperado. Então vi que você não era o homem que eu imaginava que fosse.
HELMER Explique-se: eu não a entendo.
NORA Durante oito anos esperei tão pacientemente! Pois eu bem sabia que milagres não acontecem todos os dias. E então me invadiu essa coisa angustiante, e eu tinha toda a certeza do mundo de que chegara a hora do milagre. Enquanto a carta de Krogstad estava na caixa, nem por um instante pensei que você poderia se curvar às arbitrariedades desse homem. Acreditava firmemente que você lhe diria: Vamos, publique tudo … E quando isso acontecesse …
HELMER Bem, o que você queria? Que eu a tivesse lançado na vergonha e na desonra …
NORA … quando isso acontecesse eu estava plenamente convencida de que você iria chamar a si a responsabilidade de tudo e diria: sou eu o culpado.
HELMER Nora!
NORA Você acha que eu teria aceitado tal sacrifício? É claro que não. Mas de que valeriam as minhas afirmações contra as suas? Pois bem! Esse era o milagre que eu esperava, cheia de temor. E para evitar isso é que eu queria terminar com a minha vida.
HELMER Nora, por você eu trabalharia alegremente dia e noite. Suportaria tudo, preocupações e provações; mas não há ninguém que sacrifique a sua honra pelo ente que ama.
NORA Milhares de mulheres têm feito isso.
HELMER Ah, você pensa e fala como uma criança insensata.
NORA Talvez. Você, porém, não pensa e nem fala como o homem a quem eu possa me unir como companheira. Uma vez tranqüilizado, não sobre o que poderia acontecer comigo,
mas sobre o risco que você corria – e quando não havia mais perigo, pelo menos no que se referia a você, você fez como se nada tivesse acontecido. Eu tornei a ser uma avezinha canora, a sua boneca, que você passaria a proteger com muito mais cuidado, pois percebeu quanto era delicada e frágil! (Erguendo-se) Ouça, Torvald: nesse momento tornou-se evidente para mim que vivi oito anos nesta casa com um estranho, a quem dei três filhos… Ah, nem vou continuar falando para não ter que lembrar disso. Tenho vontade de partir-me em mil pedaços.
HELMER (triste) Sim. Estou percebendo. Abriu-se entre nós um abismo – mas Nora, não seria possível transpô-Io?
NORA Tal como sou agora, não posso ser sua mulher.
HELMER Eu poderia mudar.
NORA Talvez … se a sua boneca for afastada de você.
HELMER Mas, separar-me … separar-me de você! Não, Nora! Não posso aceitar essa idéia!
NORA (dirigindo-se para a porta da direita) E é exatamente por isso que eu tenho de ir embora (Sai e toma a entrar com o sobretudo, o chapéu e uma maleta de viagem que coloca sobre uma cadeirinha ao pé da mesa)
HELMER Ainda não, Nora, ainda não! Espere até amanhã.
NORA (pondo o sobretudo) Não posso passar a noite sob o teto de um estranho.
HELMER Mas não podemos viver juntos como irmão e irmã?
NORA(prende com gestos finnes o chapéu) Você bem sabe que isso duraria pouco. (Atira o xaile sobre os ornbros) Adeus, Torvald. Não quero ver as crianças. Sei que estão em melhores mãos que as minhas. Assim como sou, por enquanto… não posso ser uma mãe para elas.
HELMER Mas algum dia, Nora … algum dia?
NORA Como posso responder-lhe? Não sei nem o que será de mim.
HELMER Mas você é minha mulher; como é agora e como o que quer que venha a ser.
NORA Ouça, Torvald. Quando uma mulher deixa a casa de seu marido, como eu estou fazendo agora, as leis – segundo ouço dizer – absolvem o marido de qualquer obrigação para com ela. De qualquer modo, eu o deixo livre de agora em diante. Inteira liberdade de parte a parte. Olha, aqui está o seu anel: devolva-me o meu.
HELMER Até o anel?
NORA Até.
HELMER Tome.
NORA Obrigada. Agora tudo acabou. Deixo aqui as chaves. Quanto à direção da casa, as criadas estão a par de tudo… melhor que eu. Amanhã Kristina virá embalar tudo quanto eu trouxe quando vim para cá. Desejo que me remetam essa mala.
HELMER Está tudo acabado! Você nunca mais vai pensar em mim, Nora?
NORA Vou pensar muitas vezes em você, é claro, e nos meus filhos, e na casa.
HELMER Posso lhe escrever, Nora?
NORA Não! Nunca. Proibo-o de fazer isso.
HELMER Ah, mas decerto posso lhe enviar algo.
NORA Nada, nada.
HELMER Ajudá-Ia, se você precisar.
NORA Não, já lhe disse. Não aceito nada de estranhos.
HELMER Nora … nunca passarei de um estranho para você?
NORA (segurando a maleta) Ah! Torvald, para isso seria preciso o maior dos milagres.
HELMER E qual seria o maior dos milagres?
NORA Seria preciso transformarmo-nos os dois a tal ponto… Ah, Torvald! Já não mais acredito em milagres.
HELMER Eu, porém, quero crer neles. Diga. Deveríamos nos transformar a tal ponto que …
NORA … que a nossa união se transformasse num verdadeiro casamento. Adeus. (Sai pela porta da saleta)
HELMER (caindo numa cadeira junto à porta e cobrindo o rosto com as mãos) Nora! Nora! (Ergue a cabeça e olha em tomo de si) Está vazia, ela não está mais aqui! (Com um vislumbre de esperança) “O maior dos milagres!”

Ouve-se, vindo de baixo, o bater do portão.»

– Henrik Ibsen, “Casa de Bonecas”

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