A floresta de linhas rectas é insustentável

Friedensreich Hundertwasser (1928-2000) foi um pintor, arquiteto, ecologista e ativista político. Filho de mãe judia e pai ariano, Friedrich Stowasser nasceu em Viena, Áustria, em 15 de dezembro. Sobrevivente do Holocausto junto com a mãe, o artista estudou na Academia de Arte de Viena. Em 1949, adotou o nome artístico de Hundertwasser, numa brincadeira com o significado de seu sobrenome original: Sto em eslavo significa “cem”, adaptando ao alemão passou a se chamar Hundertwasser, ou “cem águas”.

Sua trajetória foi marcada por uma intensa atividade pictórica, realizações no campo da arquitetura – com construções, manifestos anti-racionalistas e ações históricas em defesa de uma visão naturalista do ambiente. Antes que se falasse em sustentabilidade, seus discursos, manifestos e pinturas já sublinhavam a importância da natureza e antecipavam soluções para o futuro do meio ambiente. Hundertwasser dizia que o trabalho de um artista, além de embelezar o mundo, deveria melhorá-lo: “Meu dever é transformar as cidades sem alma, para permitir que os habitantes vivam de novo em harmonia com a natureza”.

Hundertwasser se tornou conhecido por seus projetos sem linhas retas (que chamava de instrumento do diabo) e com cores brilhantes, jardins e elementos ornamentais burlescos. Seus famosos telhados cobertos de vegetação protegem o homem e mantêm um estreito diálogo com o meio ambiente. Hundertwasser solicitava para todos o que ele chamava de “direito de janela”, uma reivindicação para que o homem se deixe levar pela criatividade em harmonia com a natureza: “Para mim, o mais importante não é nem a construção nem as paredes, mas sim as janelas, por trás das quais vive gente. A casa é feita de janelas, são elas que a constituem. Quando são adequadas, a casa é perfeita. Há que se começar a erguer um edifício pelas suas janelas, que são a ponte entre o interior e o exterior. Assim como os poros perfuram a epiderme, as janelas atravessam a pele do edifício. As janelas equivalem aos olhos”.

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“Eu tenho uma bicicleta. Paris é grande. Eu quero dizer que as linhas que desenho com minha bicicleta por esta grande cidade são extraordinárias.

Estas linhas são tão maravilhosas quanto todas as outras que eu cruzo – e que foram traçadas por outras pessoas.

Eu ando em torno de pessoas e obstáculos e estou feliz de pelo menos estar em harmonia e em contacto com os outros.

Estas linhas, pelas quais eu gasto muitas horas – e que formam um enorme círculo na hora em que eu retorno – são mais bonitas, mais genuínas e mais justificadas que as linhas que eu poderia desenhar no papel.

E ouso dizer que as linhas que eu tracei com meus pés no chão, caminhando para o museu, são mais importantes do que as linhas que irei encontrar em suas paredes internas.

E me agrada muito ver que a linha que eu traço nunca é reta, também não é confusa, mas tem uma razão de ser em cada parte mínima de sua extensão. Cuidado com a linha reta e linha “bêbada”. Mas acima de tudo, tome cuidado com a linha reta da régua T.

A linha reta leva ao declínio da humanidade. La droite ligne conduto à la perte de l’Humanité (sic).

Parte do alívio está na parede do fundo do antigo estúdio de Eugène Delacroix e provavelmente foi destruída pelos proprietários subseqüentes.

Paredes desiguais, nas quais as linhas desenhadas aparecem ainda mais onduladas, independentemente da perspectiva de que elas são vistas, sempre me fascinaram. Este é o segredo do drapeado na pintura.”

– Friedensreich Hundertwsser, “A linha reta leva ao declínio de nossa civilização”, 1953. Fonte: “Hundertwasser Architecture: for a more human architecture in harmony with nature”. Alemanha: Taschen, 1997. p. 42-43.

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Hundertwasser durante o discurso nu contra o racionalismo em arquitectura (1967)

“A pintura e a escultura são livres porque hoje todos podem produzir qualquer obra de arte e em seguida expô-la. Em arquitetura, essa liberdade fundamental que deve ser vista como condição prévia a toda criação artística não existe, porque, para ter o direito de construir, é necessário um diploma.

Por quê? Todos deveriam poder construir, mas enquanto a liberdade de construir não existir, a arquitetura planejada de hoje não será de maneira alguma arte. A Arquitetura entre nós está submetida à mesma censura que a pintura na União Soviética. O que é posto no canteiro de obras são somente compromissos lastimáveis sem nenhuma coordenação, conciliados com má consciência pelas pessoas das quais o espírito está dominado por um instrumento de medida.

O indivíduo que deseja construir não deveria estar submisso a nenhuma inibição. Todos deveriam ser capazes e obrigados a edificar para que sejam verdadeiramente responsáveis pelas quatro paredes e o interior nos quais vivem. Devemos aceitar o risco de que uma louca estrutura dessa natureza possa mais tarde desabar, e nós não devemos em nenhum caso recuar diante do perigo de morte que essa nova maneira de construir poderia acarretar. Deve-se pôr um ponto final na situação atual onde as pessoas se instalam em seus alojamentos como coelhos em seu viveiro. Se uma dessas estruturas selvagens construídas por esses habitantes fosse desabar, antes disso ela começaria primeiro a rachar, o que permitiria que eles se salvassem a tempo.

Daí em diante, o habitante será mais crítico e mais criativo diante dos alojamentos que ele ocupa e reforçaria as paredes com suas próprias mãos, se estas lhe parecessem muito frágeis. A impossibilidade da habitação material das favelas é preferível à impossibilidade da habitação moral da arquitetura funcional e utilitária. No que nos acostumamos a chamar de favelas, só o corpo do homem arrisca-se a perecer, enquanto que na arquitetura institucionalmente planejada pelo homem também perde-se a alma.

Esse é então o princípio das favelas – isto é, uma arquitetura de proliferação anárquica – que deve ser melhorado e tomado como ponto de partida, e não uma arquitetura funcional. A Arquitetura funcional revelou-se como um caminho errado, exatamente como a pintura com uma régua. Nós nos aproximamos rapidamente de uma arquitetura impraticável, inútil e finalmente inabitável.

A grande viragem para a pintura é o tachisme automático e absoluto: para a arquitetura é a impossibilidade de habitação, mas como a arquitetura está trinta anos atrasada com relação à pintura, esse ponto sem volta ainda não foi atingido.

Hoje, passado o tachisme automático total, nós experimentamos miraculosamente o transautomatismo: da mesma forma, não será depois de passar pela instabilidade total e o mofo criativo que feriremos a experiência miraculosa de uma verdadeira arquitetura nova e livre. De toda forma, como nós não passamos pela impossibilidade de habitação total, e não estamos infelizmente ainda no coração do transautomatismo da arquitetura, devemos primeiramente buscar tão rápido quanto possível a impossibilidade de habitação total e o mofo criativo.

Um homem em seu apartamento deve ter a possibilidade de debruçar-se na janela e arrancar a alvenaria com as próprias mãos. Ele deve ter o direito de pintar tudo que alcança com cor-de-rosa, com um longo pincel, a fim de que as pessoas de longe possam ver da rua: um homem mora no que o difere de seus vizinhos, isto é, os que aceitam o que lhes é dado. Ele deve igualmente poder fazer buracos nas paredes e empreender todo tipo de trabalho, mesmo se a suposta harmonia arquitetônica de um imóvel é destruída. Enfim, ele deve poder: preencher seu quarto de barro e massa de modelar.

Mas isso é proibido pelo contrato!

É tempo para que as pessoas se revoltem contra uma situação que as condena a viver confinadas em latas de sardinhas, da mesma maneira que as galinhas e os coelhos em gaiolas, que são totalmente estranhas à sua natureza. Uma construção utilitária ou de uma gaiola é uma construção que permanece estranha a três categorias de pessoas a que dizem respeito:

1.  O arquiteto não tem relação com a construção.

Mesmo quando trata-se de um grande arquiteto, ele não pode prever qual tipo de pessoa irá habitá-la. A suposta “escala” humana em arquitetura é uma cruel decepção. Particularmente quando esta escala é estabelecida após um levantamento de opiniões.

2.  O pedreiro não tem relação com a construção.

Se, por exemplo, ele deseja levantar um muro seguindo sua inspiração e afastando-se do plano preciso, ele perde seu trabalho. Mas de qualquer modo ele não se incomoda porque não é ele que irá habitar a construção.

3.  O ocupante não tem relação com a construção.

Simplesmente ele não a construiu, mas somente instalou-se. Suas necessidades humanas, seu senso de espaço são certamente diferentes. Isso continuará sendo verdade mesmo se o arquiteto e o pedreiro tentam construir seguindo as instruções exatas do ocupante.

É somente quando o arquiteto, o pedreiro e o ocupante formam uma unidade, isto é, quando se trata da mesma pessoa, podemos falar em arquitetura. Tudo o resto não é de modo algum arquitetura, porém a encarnação física de um ato criminoso. Arquiteto, pedreiro e ocupante são uma trindade como o pai, o filho e o espírito santo… Quando a unidade arquiteto-pedreiro-ocupante é quebrada não há arquitetura e essa é a situação atual. O homem deve reencontrar sua função crítico-criativa que se perdeu e que sem a qual deixa de existir enquanto ser humano.

Criminoso também é o uso em arquitetura da régua que, como podemos facilmente prová-lo, deve ser considerada como um instrumento que conduz à destruição da unidade arquitetônica. Essa floresta de linhas retas que nos encerra progressivamente como em uma prisão deve ser arrancada.

Até agora o homem tem sempre arrancado a floresta da qual queria encontrar-se livre. Mas primeiro ele deve ter consciência do fato de que vive em uma floresta porque essa floresta desenvolveu-se subitamente sem que a população percebesse. Dessa vez trata-se de uma floresta de linhas retas. Todo arquiteto moderno, no trabalho em que a régua e o compasso exercem um papel, mesmo que por um segundo, deve ser rejeitado. E ainda nem foram citados a prancheta e o papel de maquetista que se tornaram mórbidos, estéreis e sem significado. A linha reta é imoral.

As estruturas construídas a partir de linhas retas, quaisquer que sejam suas formas, são insustentáveis. Elas são produtos do medo e do conservadorismo: os arquitetos e construtores têm medo de voltar-se para o tachisme, sabendo que é muito tarde.

Quando a ferrugem ataca a lâmina de barbear, quando o mofo forma-se num muro, quando o musgo nasce num canto e atenua os ângulos, nós deveríamos nos alegar de que a vida microbiótica entra na casa e nos damos conta que somos testemunhas das mudanças arquitetônicas em que temos muito a aprender.

A mania de destruição dos arquitetos funcionalistas é bem conhecida. Eles querem simplesmente destruir as casas Art Nouveau do séc. XIX com sua decoração em estuque e substituí-las pelas suas construções vazias e sem alma. Eu citaria Le Corbusier que queria arrasar Paris e reconstruí-la com os monstruosos imóveis retilíneos. Para sermos justos agora, deveríamos destruir os edifícios de Mies Van der Rohe, Neutra, a Bauhaus, Gropius, Johnson, Le Corbusier e os outros, porque ficaram fora de moda e moralmente insuportáveis em menos de uma geração.

Para salvar a arquitetura funcionalista da ruína moral uma substância corrosiva deveria ser jogada nos muros de vidro e superfícies de concreto liso para permitir ao mofo que se fixe sobre eles. É tempo de que a indústria reconheça que a missão fundamental é a produção do mofo criativo!

É preciso que agora a indústria desenvolva, entre seus especialistas, engenheiros e doutores, responsabilidades para a produção de um mofo criativo…  Só os sábios e os engenheiros capazes de viver no mofo e de produzir mofo criativo serão os mestres do amanhã.

Somente depois que todas as coisas sejam recobertas de mofo criativo, sobre o qual nós temos muito a aprender, uma nova e maravilhosa arquitetura nascerá.”

– Friedensreich Hundertwsser, “Manifesto do Mofo contra o racionalismo em Arquitetura”, 1957. Fonte: “Hundertwasser Architecture: for a more human architecture in harmony with nature”. Alemanha: Taschen, 1997. p. 46-48.

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